terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Capitu: traidora ou traída?




Narrado em 1º pessoa por um narrador-personagem, que se coloca como escritor, a história de Dom Casmurro tem como primeira chave para tentarmos nos aproximar de seu enigma a própria figura deste que ao mesmo tempo a vive e relata. Assim, para a crítica tradicional, há um relacionamento paradoxal com Escobar, que sendo amigo era também um fantasma na vida conjugal, pois Bentinho acreditava que ele era o amante de Capitu. Acredita no sentimento antagônico em relação ao filho Ezequiel, por sua suposta semelhança com Escobar. Assim, a questão do adultério é muito forte, além de ser o único detalhe estudado. Por conseguinte, a tradição só aborda a temática da traição.
Por outro lado, é notado, além desta visão outras mais abrangentes, ao qual diz que Machado nos mostra – sob a agitação sentimental do primeiro plano, a presença de interesses sociais relacionados à organização e à crise da ordem patriarcal – um universo bolorento e recalcado onde vivia Dona Glória, com seus viúvos, agregado e escravos, onde a energia e a liberdade de opinião da mocinha moderna e pobre, atrevida e irreverente, lúcida e atuante, tornam-se intoleráveis. Além dos ciúmes do menino rico, de família decadente, do bacharel típico do Segundo Reinado, que condensam uma problemática social ampla, por trás daquele que difama e destrói a amada. Sob a visão de críticos como Gledson, ao qual defende que o romance se insere no âmbito do realismo, com a intenção de revelar, através da ficção, a verdadeira natureza da sociedade que está retratando. Outros, assim como Roberto Schwarz, relatam a questão da política, liberalismo e o agregado como linhas a serem estudadas em Dom Casmurro, Bem diferente do que diz a tradição. Mencionam a figura de Capitu, não como traidora, mas sim de uma mulher que queria ser mais do que uma simples dona de casa, ser um sujeito.
De tal forma, ao falarmos de Capitu podemos fazer um gênesis de sua vida – no contexto social. Aquela, ao qual era uma simples vizinha pobre de Bentinho e que se tornou a sua esposa, rompendo, aparentemente, com os preconceitos. Esta mesmo Capitu, que ganhou a amizade de D. Glória e de toda a família, conquistara também o coração de Bento Santiago e tornou-se rica. Para a sociedade, jamais um homem de posse e nome se conformaria em se casar com alguém de inferior nível social, mas ele o fez. Aparentemente, eram pessoas boas e não iguais as outras que formavam a sociedade daquela época.
Mas, a partir do momento que a mesma Capitu começa a investir, querer crescer, ser alguém, todo aquele amor, nutrido por Bentinho, desaparece completamente. Revela-se ser um outro homem, este mal e obstinada a destruir a quem dizia tanto amar. Tal dúvida começa a partir do capítulo 106, Dez libras esterlinas, onde a mesma relata conseguir juntar dinheiro graças às dicas de Escobar. Nesta época a mulher não podia se meter em negócios e tal motivo enfureceu Bentinho, pois Capitu estava fazendo o que jamais poderia fazer. Daí então as invejas, por parte dele, só tende a aumentar até que, após a morte do amigo desfaz o casamento – mas tudo às escondidas, pois não gostaria de denegrir sua imagem perante a sociedade ao se divorciar. Conclui-se que, o conflito do casamento começou a partir do desejo de Capitu em ser autônoma. A saída encontrada foi o do adultério por parte da esposa com o amigo.
Entretanto, pode-se analisar o contexto social em que se instaura o conflito, segundo as idéias do texto "AS IDÉIAS FORA DO LUGAR", ao exemplificar com José Dias, agregado de Bentinho, a questão da sociedade do favor. Assim, segundo Roberto Schwarz, o homem livre tinha acesso à vida por meio do favor e definia a sua condição de dependente de quem possuía a terra, essa relação determinou uma das grandes classes da sociedade brasileira. De igual forma era a condição de José Dia – vivia de favor – e Bentinho – possuidor de terra. Por conseguinte, o desenvolvimento da vida ideológica deu-se propriamente entre estas duas classes (latifundiário e homem livre): eles relacionavam-se por meio do favor, que nada mais era que a manifestação de uma relação produtiva de base assegurada pela força. O favor submete a auto-estima e a estima ao interesse material em uma forma fluida, ele pratica a dependência da pessoa, difunde a cultura interessada e os serviços pessoais. No romance, fica-nos claro a dependência financeira do agregado no latifundiário, onde José Dias tenta convencer Bentinho a ir à Europa, pois só desta forma poderia, também, ir.
  Por fim, surge na segunda parte do romance, um Bentinho manipulador, sendo seu ponto de vista o que domina tudo na narrativa. Até mesmo os demais personagens passam de projeções de sua alma. São lembranças do seu passado, que vão ressurgindo do subsolo da memória à medida que ele procura a reconciliação em si mesmo. Ele mente, distorce, dissimula e confunde o leitor com quem conversa ao longo da narração. Tenta, assim, convencer que fora traído.
Por conseguinte, podemos afirmar que a acusação de adultério por Bentinho serviu para justificar sua recusa por Capitu tentar se tornar um sujeito, pois ele jamais aceitaria sua esposa ser um sujeito. Aquela que fora pobre vencer e se tornar mais do que ele jamais seria, era demais para um invejoso, obcecado, ciumento, dissimulado, tímido “filhinho de mamãe” que imaginava coisas, para seu próprio deleite. Com isso, quem traiu foi Bentinho, não Capitu – pois esta só queria ser alguém, além de esposa e mãe. Bentinho a invejava e ele mesmo relatou que esta era mais homem do que ele jamais seria. Está ai a prova de que não houve traição, mas sim, pura inveja do que Capitu representava – uma pessoa decidida, determinada e, acima de tudo, corajosa.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Psicanálise em debate: A IMPORTÂNCIA DA CULPA EM DOM CASMURRO, de Machado de Assis


DOM CASMURRO é justificadamente um dos livros mais elogiados de Machado de Assis, fazendo parte de sua trilogia de ouro, juntamente com MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS e QUINCAS BORBA.
Por muito tempo, os comentários sobre esse livro se centravam na personagem Capitu, mulher de Bento Santiago, o solitário narrador que relata suas dúvidas quanto a fidelidade de sua amada.
Capitu, a de “olhos de ressaca”, aquela que tem “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, foi submetida a inúmeros processos nos quais os críticos avaliavam sua culpa ou inocência.
Mais recentemente, o enfoque mudou. Afastou-se da suposta traição de Capitu e incidiu sobre os ciúmes de Bentinho, na medida em que se atentou para o fato de que o que é apresentado é o relato deste último, necessariamente enviesado e muito diferente do que seria o de um narrador onisciente, que nos contaria com imparcialidade a verdade dos acontecimentos. Isso proporcionou uma reviravolta, retirando Capitu do centro das atenções e ali colocando Bento Santiago, o próprio Dom Casmurro.
Mesmo assim, visar a suposta traição de Capitu ou os ciúmes de Bentinho, é praticar uma redução empobrecedora da saborosa e delicada trama construída por Machado de Assis; ignorar-se-ia a extraordinária acuidade psicológica e os inúmeros traços de humor advindos da forma irônica com que ele nos apresenta sua comédia de costumes do Brasil Imperial.
Seria realizar uma leitura rasteira que menospreza a complexidade da estratégia machadiana. Como diz Faoro:
“O escritor, para evidenciar seu jogo, coloca-se diante do leitor, em caminhos ora opostos, ora cruzados. O diálogo esconde o narrador armado de florete, não sem entremostrá-lo na manga do casaco. O confronto das duas entidades - escritor e leitor - tem caráter antitético, às vezes alternando-se como duas vozes num coro, desdobrando-se, no momento de clímax, na oposição competitiva, agonal, quando os atores acentuam sua individualidade, rompendo o consenso de vozes. (...) Nesse combate, onde o sério se esconde no jogo, a seriedade na burla, há um impasse. O autor engana o leitor, zombando de sua credulidade. Mas o leitor adverte que está sendo enganado e revida ao autor com a desconfiança. (...) O escritor mostra o enlevo dos amores de Bentinho e Capitu e insinua o adultério. O espectador afoito, com a prova concludente da semelhança do filho ao comborço, exulta. Mas, será que ele viu tudo, ou, embaraçado pela antítese do ataque e defesa, não criou a sua verdade, que nem sempre é o confronto de duas proposições falsas?”. (grifos do autor)
Porém é compreensível tal ênfase na traição de Capitu por ser ela o ponto de inflexão da trama.
Embora DOM CASMURRO seja uma obra muito conhecida, para que a argumentação que desenvolverei em seguida fique clara, farei um breve resumo do enredo.
A obra tem 148 capítulos. Até o capítulo 50, vemos o velho e solitário Bento Santiago relembrando sua meninice na rua de Matacavalos e a amizade com sua vizinha Capitu; a evolução desse afeto para uma correspondida paixão; o desespero de ambos frente a disposição de Dona Glória, mãe de Bentinho, piedosa viúva que planeja uma carreira eclesiástica para o filho, como pagamento de uma antiga promessa; seu desolado ingresso no seminário.
Entre os capítulos 50 e o 97, acompanhamos as escaramuças de Bentinho e Capitu contra os planos maternos, nas quais contam com a ajuda do impagável agregado José Dias e vemos a entrada em cena de Escobar, um seminarista com quem Bentinho faz grande amizade e que passa a participar dos sobressaltos do casal apaixonado. É ele quem descobre uma saída para o impasse da promessa materna - propõe que Dona Glória mande para o seminário um outro menino, um órfão qualquer que substitua Bentinho na obrigação da carreira sacerdotal.
O curioso capitulo 97 tem uma conotação metanarrativa. Nele, Bentinho faz considerações sobre a maneira como constrói seu relato. Se até aqui acompanhou de perto uma determinada época de sua vida, agora muda de ritmo, trata o tempo de outra maneira:
“Tinha então pouco mais de dezessete... Aqui devia ser o meio do livro, mas a inexperiência fez-me ir atrás da pena, e chego quase ao fim do papel, com o melhor da narração por dizer. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas, capitulo sobre capitulo, pouca emenda, pouca reflexão, tudo em resumo. Já essa página vale por uns meses, outras valerão por anos e assim chegaremos ao fim”.
Efetivamente, a ação logo se precipita. Escapando do seminário, Bentinho vai para São Paulo onde se forma em advocacia. Ao voltar, casa-se com Capitu, com pleno assentimento da mãe. Escobar casa-se com Sancha, amiga íntima de Capitu. Se, em várias ocasiões, Bentinho se mostrara ciumento e possessivo, nada parecia extraordinário ou despropositado, incompatível com os ardores de uma primeira e grande paixão. No correr da ação, Bentinho dera amplas informações sobre a inteligência e habilidade de Capitu, sua capacidade de lutar por seus interesses, sua força, sua determinação, características bem diferentes de suas próprias, tão timorato e inseguro.
O casal inicialmente não tem rebentos, ao contrário de Escobar e Sancha, que geraram uma filha, Capituzinha. Dois anos depois, nasce Ezequiel, assim batizado em homenagem a Escobar, retribuição à gentileza que o casal amigo fizera, dando à filha o nome da amiga. Ezequiel é menino vivo e inteligente, capaz de imitar a todos, provocando o riso e a admiração dos circunstantes. Escobar sonha um futuro casamento de Capituzinha e Ezequiel, idéia que agrada aos dois casais.
Tudo parece ir muito bem até o capítulo 118, intitulado “A Mão de Sancha”. Numa reunião na casa de Escobar, os quatro amigos planejam uma viagem para a Europa. Por um momento, tendo Escobar se afastado da sala e Capitu entretida longe, Bentinho surpreende um olhar intenso de Sancha, o que dá vez a um diálogo cheio de insinuações eróticas e uma troca ardorosa de apertos de mãos.
Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu, graças às relações dela com Capitu, não me daria beijá-la na testa. Entretanto, os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternais, pareciam quentes e intimativos, diziam outra coisa, e não tardou que se afastassem da janela, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo. A noite era clara.
Dali mesmo busquei os olhos de Sancha, ao pé do piano; encontrei-os em caminho. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros, uns esperando que os outros passassem, mas nenhuns passavam. Tal se dá na rua entre dois teimosos. A cautela desligou-nos; eu tornei a voltar-me para fora. E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão, e fiquei incerto. (...)
Quando saímos, tornei a falar com os olhos à dona da casa. A mão dela apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume.
Bentinho, fortemente atraído por Sancha, lembra que o agregado José Dias dizia - com sua mania de usar superlativos, “uma forma de dar monumentalidade às idéias” - que Sancha era uma senhora “deliciosíssima”.
Tão chocado fica Bentinho com tais acontecimentos, que o curtíssimo capítulo seguinte, o 119, diz o seguinte:
A leitora, que é minha amiga e abriu esse livro com o fim de descansar da cavatina de ontem para a valsa de hoje, quer fechá-lo às pressas, ao ver que beiramos o abismo. Não faça isso, querida; eu mudo de rumo.
No rápido capitulo 120, vemos Bentinho tentar esfriar os ardores despertados por Sancha com o estudo de autos legais e, no capítulo seguinte, o 121, somos surpreendidos com a inesperada morte de Escobar, tragado pela ressaca do mar do Flamengo. No enterro de Escobar, descrito em capítulo posterior, o 123, ao ver Capitu chorando o amigo morto, o que seria uma atitude esperada e natural transforma-se numa prova da traição de ambos para Bentinho.
Até esse momento, em nenhuma ocasião tal idéia passara explicitamente pela cabeça de Bentinho. Incomodava-o as imitações de Eliezer, que o fazia parecer com Escobar, mas não dava muita importância ao fato, pois sabia da existência de estranhas e aleatórias semelhanças entre as pessoas, haja vista - segundo o próprio viúvo - a extraordinária parecença de Capitu com a falecida mãe de Sancha.
Como lembrei acima, o livro tem 148 capítulos e já estamos no 121. Desta forma, em rápida e sumária sucessão, vamos ver Bentinho rejeitar cada vez mais o filho Ezequiel, por nele vislumbrar traços de Escobar. Manda o filho estudar na Europa e se separa de Capitu. Para manter as aparências, faz a mulher acompanhar o filho no velho continente, aonde ela morre ainda jovem. Anos depois Ezequiel vem visitar o pai, que financia sua viagem de estudos arqueológicos na Palestina, onde, vitimado por febres, também vem a falecer. Sozinho, Dom Casmurro dá por encerrado seu relato e se prepara para escrever outra coisa para preencher o tempo vazio e a solidão de sua vida, a “História dos Subúrbios do Rio de Janeiro”.
Como disse acima, muito já foi escrito sobre DOM CASMURRO. Sob o prisma da psicanálise, temos um trabalho cuidadoso, de Luis Alberto Pinheiro de Freitas. Em linhas gerais, a autor interpreta os ciúmes de Bentinho como projeção em Capitu de seu desejo homossexual frente a Escobar, desde que Bentinho, filho de viúva, não teria tido figuras masculinas fortes que possibilitassem a organização de uma identidade sexual masculina. Afinal, tivera como modelo as pouco viris imagens do agregado José Dias e do tio Cosme. Mostra-se ele passivo, submetido ao desejo de mulheres fálicas, como a mãe e Capitu. Bentinho nascera após o falecimento do primeiro filho do casal. Vinha assim colocar-se no lugar do filho morto da mãe, daí sua promessa que o assombrou durante a adolescência - a carreira religiosa, o ser padre.
Embora tais elementos sejam relevantes e configurem uma hipótese plausível, penso que detalhes importantes foram nela desconsiderados. Ao se lhes dar a devida importância, outras possibilidades interpretativas se configuram, ajudando a entender melhor os ciúmes doentios de Bentinho, que destroem sua vida amorosa e familiar, relegando-o à solitária casmurrice.
É chamativo e sintomático que as eventuais suspeitas e ciúmes esparsos apresentados por Bentinho tomem corpo e se intensifiquem exatamente no enterro de Escobar, especialmente se não esquecermos o ocorrido na noite anterior à morte do amigo. Ali Bentinho se sentira fortemente atraído por Sancha e acreditara que ela se dispunha a retribuir uma aproximação sexual.
No dia seguinte, a visão do amigo morto lhe é intolerável, pois ela o remete diretamente à idéia de que desejara traí-lo. A própria morte de Escobar lhe pareceria uma conseqüência, um efeito da fantasiada traição. Conseqüentemente, algo pelo qual é responsável.
Profundamente culpado, Bentinho se sente incapaz de lidar com esse sentimento e imediatamente o projeta em Escobar e Capitu.
Não são Bentinho e Sancha os culpados, aqueles que traíram a amizade e os respectivos cônjuges em arroubos amorosos, e, sim, Escobar e Capitu. São eles os culpados, os traidores.
O próprio título do capítulo 121, no qual descreve o enterro de Escobar, ocasião em que se deflagra sua suspeita ciumenta, intitula-se “Olhos de ressaca”, que remete ao homônimo capítulo 31, quando assim descreve os olhos da amada:
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saia delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.
Desta forma, sub-repticiamente Bentinho atribui a Capitu a responsabilidade da morte de Escobar, tragado pela ressaca do mar do Flamengo.
Para Bentinho é bem mais tolerável sentir ciúmes, ficar na pele do traído e enganado, do que ter de agüentar a culpa de ser o traidor, o “culpado” pela morte do amigo.
Entretanto, colocar-se como vítima da traição, ficar na posição da parte ofendida que - com toda a razão - sofreria de ciúmes, não se mostra um artifício muito eficaz para livrá-lo da culpa. O fantasma de Escobar o vem assombrar diariamente na pessoa de Eliezer.
Desta forma, tomado pela presença fantasmagórica de Escobar encarnada em Eliezer, que o persegue acusando e exigindo reparação, Bentinho tenta aplacá-lo, destruindo sua própria felicidade conjugal e recusando-se as alegrias da paternidade. Afasta-se da mulher e do filho, impondo-lhes um exílio involuntário, não antes de fazer uma tentativa falha de se suicidar ou de envenenar o filho.
Ao atribuir a Escobar a paternidade de Eliezer, ao reencontrar Escobar toda vez que vê o filho, Bentinho condensa vários sentimentos contraditórios. Por um lado, se pune com a presença de seu carrasco, que vem lembrar-lhe do crime cometido. Por outro, nega a morte de Escobar, dá-lhe a vida novamente, ressuscitando-o na figura de Eliezer, que - também por culpa - não pode reconhecer como seu filho.
Como mencionei acima, essa mudança foi anunciada por Bentinho no capítulo 119, quando, assustado com as fantasias eróticas em torno de Sancha, dirige-se diretamente à leitora amiga, pedindo-lhe que não abandone o livro por terem beirado o “abismo”. Diz: “Não faça isso querida; eu mudo o rumo”.
De fato, há uma radical mudança de rumo e é justamente essa - ao invés de ser o traidor, Bentinho passa a ser o traído. Morto Escobar, Bentinho se instala “confortavelmente” na posição de ofendido e não de ofensor.
Se lembrarmos que Escobar, num determinado momento propôs sociedade comercial a Dona Glória e que - pelo menos na opinião de prima Justina - pensara em se casar com ela, tais elementos o fazem ocupar um lugar paterno frente a Bentinho. Sua morte, conseqüentemente, reatualizaria a morte do pai, ocorrida quando tinha 7 anos. Tal acontecimento, que o colocara na posição privilegiada de objeto inconteste do amor materno, poderia ter sido vivenciado como a realização dos desejos parricidas inconscientes. A culpa daí advinda ficaria intensificada com a morte de Escobar, esse outro “pai” que “eliminava”, apossando-se de sua cobiçada mulher, Sancha, tal como antes de apossara da mãe.
Apesar de triunfar sobre o rival paterno, é abatido pela culpa, que o impede de usufruir a vitória.
A tragédia de Bentinho fica ainda mais funda, quando lembramos sua denodada luta para realizar sua vida amorosa com Capitu, fugindo da imposição materna que o condenava ao celibato religioso.
O desejo materno, justificado conscientemente pela promessa feita, poderia ser entendido como a intolerância da mãe em se separar desse filho, castrando-o e mantendo-o ao seu lado.
Inconscientemente, Bentinho sente-se culpado em relação ao pai, sobre quem triunfara edipicamente, e em relação à mãe, cujo acalentado desejo narcísico fusional ele frustrara. Por esse motivo, não se sente legitimamente autorizado a ocupar o lugar de marido e pai. Essa ilegitimidade aparece no embuste que fora realizado para que pudesse exercer sua masculinidade e futura paternidade: a negociata na qual um “órfão” qualquer fora colocado no seminário em seu lugar, como sugerira Escobar.
Poucos autores atentaram para a importância de Sancha no desenrolar da tragédia de DOM CASMURRO. Faoro, cujo cuidadoso estudo lista aqueles que considera personagens importantes de Machado, sequer a menciona. O que não ocorre com Teixeira, que, num capítulo adequadamente chamado de “Dois pormenores: antecipações freudianas”, fareja a relevância do encontro de Sancha e Bentinho nas vésperas da morte de Escobar, sem, entretanto, articulá-la conseqüentemente dentro da trama.

Santiago, Silviano - Retórica da Verossimilhança in “Uma literatura nos trópicos” - Rocco - Rio de Janeiro, 2000
Faoro, Raymundo - Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio - Editora Globo - São Paulo, 2001 - p.438-9
Machado de Assis - Dom Casmurro - Abril Cultural, São Paulo, 1971, p.297
Machado de Assis, op. cit. , p. 320/1
Machado de Assis, op. cit., p.322
Pinheiro de Freitas, Luis Alberto - Freud e Machado de Assis - uma interseção entre psicanálise e literatura - Mauad Editora - Rio de Janeiro - 2001
Machado de Assis, op. cit., p. 219
Op.cit.
Teixeira, Ivan - Apresentação de Machado de Assis - Livraria Martins Fontes Editora - São Paulo, 1987, p.129


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Análise do Conto: Pai contra Mãe

       


           1.  Introdução

A
produção do contista Machado de Assis se inicia em 1858 (com Três tesouros perdidos) e estende-se aos inícios do século XX, com a produção de quase 300 contos, publicados nos jornais e revistas da época. “O conto se tornou em suas mãos matéria dúctil, com fisionomia reconhecível, na qual [...] exercia a magia encantatória de suas variações sobre o tema predileto: a humanidade com seus vícios intemporais.
Embora o conto literário já viesse se firmando no Brasil a partir de meados do século XIX, com Álvares de Azevedo e Bernardo Guimarães, é com Machado de Assis que essa forma ficcional revela todas as suas possibilidades. Reconhecido como o maior prosador da literatura brasileira, a produção de seus romances marcada pela habilidade de construir textos mesclados da ironia nascida da observação da sociedade em que vivia, é principalmente como contista que se revela um narrador capaz de prender e conduzir a atenção de seu leitor.
Nos contos machadianos, revela-se uma sociedade habitada por seres solitários capazes de alcançar tão somente uma felicidade mesquinha. A vida desenrola-se como alguma coisa que escapa ao controle dos personagens, alheia a suas vontades. A sociedade de convenções a todos esmaga e a eles impõe vidas inautênticas, vazias.
O contador de casos, que se distancia, numa postura literária de observador, e revela uma visão abrangente da sociedade do Segundo Império e da Primeira República, faz do leitor uma presença constante em suas narrativas. É como se a ironia que destila em seus períodos curtos e marcantes fosse resultante do distanciamento procurado para a observação e devesse ser partilhada com o leitor, com o qual divide observações e do qual cobra o mesmo não-envolvimento. 
Sobre a ironia, podemos afirmar que está uma das vigas mestras da arte de escrever contos, ressaltada pela urgência do pouco espaço.
Machado de Assis mostra extrema habilidade na elaboração de seus contos de observação e psicológicos, com foco narrativo autobiográfico, em que o ponto de vista da personagem narrador e suas motivações tornam-se exclusivas. A ironia vai-se expandindo não só na análise dos hábitos sócio-culturais da sociedade do Rio de Janeiro, mas na observação da própria natureza humana, apresentada em seus vícios e limitações permanentes. A apresentação dos personagens atende ao desenvolvimento desta que foi a sua temática mais constante e se projeta no aspecto psicológico que os revela.
Senso de observação, pessimismo, ironia, sensualidade e um inegável senso de humor com que equilibra o pessimismo são aspectos enfeixados em sua arte combinatória capazes de fazer de seus contos o que Alfredo Bosi chama de “um dos caminhos permanentes da prosa brasileira na direção da profundidade e da universalidade”.
Neste conto, Pai contra mãe, avulta um Machado quase desconhecido: o ficcionista social, capaz de interrogar, na ação concreta dos homens, o que nelas é reflexo brutal da ordem vigente. Tudo isso sem panfletarismo, sem populismo, sem concessões demagógicas. A cena do aborto da escrava, em Pai contra mãe, vale por mil discursos contra a escravidão.

2. O escritor: Machado

Escritor acostumado a tratar de temas graves e problemáticos com a ligeireza e a leveza de operetas, Machado de Assis não possui muitos momentos como esse final - e se poderia incluir também o início - em sua obra. O embate cru de interesses e a narrativa realista de um aborto, provocado por violências, não são comuns na pena machadiana. Acreditamos ser este inclusive, um dos fatores que levam tantos leitores a ver nesse conto a escravidão como grande tema.
Assim, segundo Cândido[1]: “Na razão inversa da sua prosa elegente e discreta, do seu tom humorístico e ao mesmo tempo acadêmico, avultam para o leitor atento as mais as desmedidas surpresas. A sua atualidade vem do encanto quase intemporal de seu estilo e desse universo oculto que sugere os abismos prezados pela literatura do século XX”.
Machado, através de "Pai contra mãe", mostra como o negro livre e, no caso, o trabalhador branco e pobre, ao qual estão em situação muito semelhante ao negro escravo. Ganha a liberdade, ou mesmo já a possuindo por uma questão de origem, o trabalhador livre possuía pouca perspectiva num país em que a bipolaridade social e econômica era, ainda, a principal característica. Ou seja, de um lado o senhor branco, rico, nesse momento não mais escravagista, e do outro o negro livre e o branco em estado pleno de miséria, vivendo numa sociedade em que as possibilidades de mudança são remotas. É esta a situação que Machado anuncia dentro de "Pai contra mãe". A figura central do conto é de um trabalhador miserável que forma uma família também miserável. Parece-me que Machado já antevia o que seria a realidade do Brasil durante muitos anos - e sabemos que pouco mudou até hoje.
 Agora, com essa perspectiva de leitura em mente, podemos entender o porquê de Machado voltar a escrever sobre a escravidão após seu término. Não é mais o seu alvo, mas sim o fruto de seu fim: o trabalhador livre. Fácil entender o porquê do início e do fim do conto terem a escravidão e seus processos tão ressaltados e também o tempo escolhido para a narração da história. Não podia Machado falar de uma classe – se pode denominá-la como tal - que mal começava a emergir na sociedade brasileira. Não se pode esquecer que não se está falando do operário, figura que só será realidade no Brasil a partir de nossa "revolução industrial", iniciada na década de vinte de século XX. Machado só poderia tratar daquela espécie de trabalhador, nunca do operário: são caixeiros, quitandeiros, contínuos, tipógrafos, caçador de escravos...
Assim, por fim, podemos dizer que Antonio Candido escreveu que a essência do pensamento machadiano é "a transformação do homem em objeto do homem, que é uma das maldições ligadas à falta de liberdade verdadeira, econômica e espiritual."

3. Análise do Conto

3.1. Apresentação do conto

O conto Pai contra Mãe, de Machado de Assis, publicado em 1906, no livro Relíquias da Casa Velha, insere-se na fase “madura” do autor, de características marcadamente Realistas. Ambienta-se no Rio de Janeiro do século XIX antes da abolição da escravatura, que serve de pano de fundo para a narrativa, não se configurando, porém, como a questão principal. Os aspectos sócio-econômicos das personagens beiram a miséria, com dificuldades muito grandes, dependência e escassez. O pensamento predominante é maquiavélico e capitalista, com destaque para a “coisificação” do ser humano, resumindo os escravos a mercadorias.

3.2. A Escravidão: centro da história

Narrado em 3ª pessoa, é um dos contos em que o autor apresenta a escravidão da maneira mais impressionante e brutal. A instituição forma uma tela de fundo, um elemento do cenário em que se desenrola a trama. Nesse conto a escravidão é o próprio centro da história. Aliás, na primeira linha do conto, o autor escreve: "A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais".
Temos, então, inserido no conto uma contra-ideologia que, segundo Bosi[2]: “só pode ser apanhada, no texto de Machado, quando ele tenta escondê-la. O seu modo principal é o tom pseudoconformista, na verdade escarninho, com que discorre sobre a normalidade burguesa. Falando do ofício de perseguir escravos”.
Quando Machado escreveu este conto, a escravidão havia sido abolida há mais de uma década e já parecia algo do passado. Como quem não quer nada, Machado começou o conto como se fosse escrever uma anedotinha sobre uma profissão desaparecida devido ao progresso. O personagem do qual ele fala, Cândido, era um caçador de escravos fugidos que os capturava para entregá-los aos seus senhores. Mas ele não andava por montes e vales, vestido de botas, capa e chapéu grande, seguido por cachorros, como os caçadores de escravos que trabalhavam para os senhores das zonas rurais. Cândido trabalhava na cidade. Seu território de caça eram as ruelas, as espeluncas, os mercados, as saídas das igrejas, as procissões, as aglomerações do porto.
Assim, como afirma Alfredo Bosi: “o mal se causa nas junturas do sistema escravocrata do Império brasileiro: nasce e cresce dentro de uma estrutura de opressão”.




3.3. A escrita do conto

O início de "Pai contra mãe" é bastante atípico na escrita machadiana: quatro grandes parágrafos descritivos. Entretanto, sabemos que a descrição não aprazia a Machado. Seu interesse estava nos fatos, nos acontecimentos, nas ações, enfim, era agindo que o homem se revelava para nosso autor. Então, qual o sentido dessa considerável descrição iniciando um conto?
Podemos somar a essa questão, ainda, a importância da introdução em qualquer texto, pelo seu caráter de apresentação da obra e conquista do leitor. Porém, antes de buscarmos resposta para essa pergunta, vejamos o que descreve o narrador.
O primeiro período do primeiro parágrafo é bastante revelador. Diz ele: "A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais". Tem-se qui alguns dados para os quais vale a pena chamar atenção. Primeiro, para a questão temporal. O tempo verbal usado na primeira oração é o pretérito perfeito - "levou". Isto indica que o assunto de que se tratará é passado e findo.
Entretanto, outra informação que nos chama atenção no referido período é o reconhecimento da escravidão como uma instituição social. Aquela inicia o período, esta o fecha. As duas são complementares e definidoras uma da outra. Será justamente a escravidão como instituição social que dará “status” de ofício à atividade descrita no quinto parágrafo e que será também o ofício do personagem principal: pegar escravos fugidos.
A seguir àquele período, o narrador parte para a descrição dos aparelhos "por se ligarem àquele ofício". O "ferro ao pescoço", o "ferro ao pé" e a "máscara de folha-deflandres" são alguns desses aparelhos. As descrições são também bastante peculiares. O narrador não se limita à simples descrição do objeto: "a máscara de folha-de-flandres tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado"; mas também descreve sua função e utilidade social: "a máscara fazia perder o vício da embriaguez dos escravos, por lhes tapar a boca (...) com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos (...) Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel".
Escritor acostumado a tratar de temas graves e problemáticos com a ligeireza e a leveza de operetas, Machado de Assis não possui muitos momentos como esse final - e se poderia incluir também o início - em sua obra. O embate cru de interesses e a narrativa realista de um aborto, provocado por violências, não são comuns na pena machadiana. Acredito ser esse inclusive, um dos fatores que levam tantos leitores a ver nesse conto a escravidão como grande tema.

3.4. Narrador, tempo e espaço

O narrador do texto é outro elemento importante para a construção da ironia nesta narrativa. Em terceira pessoa, a sua perspectiva aproxima o leitor do tempo e do espaço através de relatos históricos sobre os fatos que envolviam a escravidão, como na descrição das crueldades das quais os escravos eram vítimas. Pareciam ser transformados em coisas, deixando de ser humanos. Por exemplo, quando fugiam “grande parte era apenas repreendida; havia alguém em casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, por que dinheiro também dói”. O escravo, essa coisa, objeto, mesmo quando fugisse, não poderia sofrer muitos castigos, já que estes poderiam impedi-lo de prestar os serviços necessários a seu senhor, inutilizando-o, causando assim, grande prejuízo.
Quando o narrador comenta “nem todos gostavam da escravidão” e “nem todos gostavam de apanhar pancadas”, qual pessoa gostaria de viver em completa escravidão, à mercê dos mandos e desmandos de alguém e, ainda por cima, levar algumas pancadas? Com sua ironia, parece que é ele, quem dá uma pancada nesse sistema de escravatura.

3.5. Personagens

O seu caráter é o reflexo de sua alma, é sensível, apaziguador e sensato: o seu rosto era o espelho da alma. Era de entendimento claro e espírito simples; e foi essa a razão por que lhe deram o nome de Cândido.
Como afirma Bosi que: “Cândido Neves, pobre mas branquíssimo até no nome”. Aqui, pode-se dizer que, reside a ironia do Cândido machadiano, pois seu caráter não revela nenhuma candura, antes pelo contrário mostra-se insensível ao aborto da escrava, é extremamente desumano arrastando-a pelas ruas até a casa do seu senhor, pois o que realmente importa para ele é conseguir alcançar o seu propósito, que é ficar com o seu filho. O egoísmo é sua marca principal.
Extremamente irônico, Machado, constrói um Cândido que tem uma aversão ao trabalho, para ele todo oficio é custoso, além disso, muitas vezes, quem trabalha não recebe o que merece. Assim seus “empregos foram deixados pouco depois de obtidos". Então lhe restou o oficio de pegar escravos fugidos, já que este estava destinado aos inaptos para outros trabalhos, como era o seu caso. Segundo afirma Bosi, que “capturar escravos fugidos era um ofício do tempo”.
Ele, porém, tinha necessidade de estabilidade, e considerava isso má sorte ou infelicidade constante. Este, todavia, no fim da obra, aceita que é mais importante a ação sobre a reflexão filosófica.
É conveniente também citar a ironia presente na construção de duas personagens do conto. Clara, cujo nome do latim significa “brilhante”, “luzente”, “ilustre”, além da tonalidade, seu nome é ligado ao brilho (de distinção). Distinção essa não revelada por sua personalidade que mesmo em meio à perda de seu filho, não esboça nenhuma reação e é sempre submissa aos desmandos da tia. Mônica, a tia, significa só, sozinha, viúva, o que não acontece no texto, pois está, geralmente, perto do casal, abrigando-os, participando de suas decisões, opinando, não fica sozinha, vive em companhia dos dois.
Assim, segundo Alfredo Bosi, o conto estudado dá: “testemunho tanto da vigência dos protagonistas quanto da lógica que rege os seus atos. As ‘tendências da alma’ e os ‘cálculos da vida’ somam-se na luta pela autoconcervação. Ambos têm em comum a situação do homem juridicamente livre, mas pobre e dependente, que está um degrau, mas só um degrau, acima do escravo. A essa condição ainda lhe resta usar do escravo, não diretamente, pois não pode comprá-lo, mas por vias transversas, entregando-o à fúria do senhor, delatando-o ou capturando-o quando se rebela e foge. O poder desdobra-se em duas frentes: ele não é só dono do cativo, é também dono do livre na medida em que o reduz a polícia de escravo”.   




3.5.1. Perfil psicológico: personagens

Uma das maiores inovações de Machado de Assis foi abandonar o gosto pela descrição, tanto da natureza, ao estilo romântico, quanto dos costumes e do ambiente, à moda naturalista. A Machado sempre interessou o contraste de caracteres e a sondagem dos sentimentos e idéias íntimas de seus protagonistas. Os acontecimentos e o cenário só têm relevância quando provocam reações psicológicas. Claro que a densidade de sua análise resulta de um formidável senso de observação dos indivíduos e de um não menos vibrante conhecimento da vida social. Ambos lhe permitiram concluir que há uma descontinuidade, se não uma ruptura completa, entre as aparências exigidas pelo mundo exterior, e a interioridade dos sujeitos.
Fazendo uma análise do perfil psicológico das personagens, ele traz à tona o problema do egoísmo humano e da tibieza de caráter que subjuga o discernimento. A sociedade hipócrita em que se ambienta a narrativa é constantemente ironizada pelo narrador que vê em seus mandos e desmandos uma tentativa de impor a ordem social aos dominados, como se pudesse colocar-lhes uma máscara de folha-de-flandres para impedir seus excessos. A oposição em que se apresentam as personagens é uma briga de iguais que legitima o poder da classe dominante e da qual sai vencedor o mais forte, apesar de sua fraqueza moral e instabilidade emocional.
Assim, o conto “Pai contra Mãe” vem somar-se à imensa obra realista de Machado de Assis, a qual prima pela característica que o diferencia de outros escritores de sua época: sua habilidade incrível de delinear o perfil psicológico humano a partir de elementos que, a priori soariam secundários, mas que adquirem função primordial em suas narrativas.
E esse foi o grande legado deixado por Machado de Assis para humanidade: obras que desvendam a psique humana e que expõem suas mazelas e suas propriedades inconfessáveis.

3.6. Características: verossimilhança e pessimismo

Para dar verossimilhança aos fatos e reforçar a ironia à escravatura e à diminuição dos seres, o espaço ambiente, na cidade do Rio de Janeiro, é fundamental, pois sabemos que os nomes das ruas em que se desenrola a ação, são nomes reais, e que muitos são os mesmos até hoje. Fato que torna essa narrativa extremamente passível de verossimilhança externa.
Machado de Assis apresenta um pessimismo, cuja fonte está em Schopenhauer, pensador alemão, que afirmava que a essência do universo é a vontade ou o querer, entidade da qual emana a parte verdadeira dos indivíduos. Mas a vontade, tanto em estado cósmico quanto individual, é má, pois provoca a agitação, o egoísmo, o ciúme. Por isso a nossa personagem principal age como age, coloca a sua vontade de continuar com o filho acima de qualquer outra coisa, por isso é levado a agir com egoísmo, luta corpo a corpo com a escrava para poder entregá-la a seu senhor, e receber o dinheiro da recompensa, sem ao menos pensar que poderia agir de outra forma para não maltratá-la, já que estava grávida.

4.      Considerações Gerais

Tendo em vista os aspectos observados, acredita-se que Machado ao construir este conto utilizou elementos que acentuam o tom irônico de suas palavras.
Os aspectos sócio-econômicos das personagens beiram a miséria, com dificuldades muito grandes, dependência e escassez. O pensamento predominante é maquiavélico e capitalista, com destaque para a “coisificação” do ser humano, resumindo os escravos a mercadorias.
Fazendo um descortinamento do perfil psicológico das personagens, ele traz à tona o problema do egoísmo humano e da tibieza de caráter que subjuga o discernimento. A sociedade hipócrita em que se ambienta a narrativa é constantemente ironizada pelo narrador que vê em seus mandos e desmandos uma tentativa de impor a ordem social aos dominados, como se pudesse colocar-lhes uma máscara de folha-de-flandres para impedir seus excessos.
A oposição em que se apresentam as personagens é uma briga de iguais que legitima o poder da classe dominante e da qual sai vencedor o mais forte, apesar de sua fraqueza moral e instabilidade emocional.
Dentro do universo narrativo, Machado deixa entrever claramente a contemplação irônica dada às personagens por meio de nomes que não correspondem à realidade de suas personalidades. Por exemplo, o nome “Cândido” que nos remete a uma relação de pureza e inocência, opondo-se às características que predominam no protagonista, sendo ele rude e de caráter duvidoso. Por sua vez, Clara, nome da mulher de Cândido, além da tonalidade poderia pressupor brilho, luz; o que não se confirma na realidade da narrativa, apresentando-se ela como submissa e “apagada”.
O casamento de Cândido também pode ser visto como algo que merece destaque. Apesar de ser ele alguém sem grandes ambições e gostar de vida fácil, questiona-se porque se casaria com alguém que não poderia dar-lhe boa vida?
Sendo ela submissa e influenciável, infere-se que Clara legitimaria a vida medíocre ambicionada por Cândido Neves.
O final dramático, o descaso de Candinho e de todos para com o aborto de Arminda, a denúncia vigorosa do sistema escravista e a linguagem cruelmente irônica são características deste conto, representativo dos melhores momentos de Machado de Assis.
Por conseguinte, ele não se contenta apenas em narrar histórias, ele é capaz de transformá-las em verdadeiras bandeiras ideológicas, revelando em suas personagens os traços mais irreveláveis e também os mais desprezíveis.





[1] Antonio Cândido em Esquema de Machado de Assis
[2]  Alfredo Bosi em, A máscara e a fenda

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Chico Boarque de Holanda: CHAPEUZINHO AMARELO


Era a chapeuzinho amarelo.
Amarelada de medo.
Tinha medo de tudo,aquela chapeuzinho.
Já não ria.
Em festa não aparecia.
Não subia escada,
Nem descia.,
Não estava resfriada,
mas tossia.
Ouvia conto de fada e estremecia.
Não brincava mais de nada,
nem amarelinha.
Tinha medo de trovão.
Minhoca,pra ela,era cobra.
E nunca apanhava sol,
porque tinha medo de sombra.
Não ia pra fora pra não se sujar.
Não tomava banho pra não descolar.
Não falava nada pra não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada,
deitada ,mas sem dormir,
com medo de pesadelo.
Era a chapeuzinho amarelo.



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Resumo sobre: Figuras de Linguagem


1. Denotação e Conotação

Uma palavra ou signo compreende duas polaridades: o significado ( aspecto conceitual, a imagem mental abstrata) e o significante (aspecto concreto, gráfico, a imagem acústica). Assim, todas as palavras são signos, desde que apresentem essas duas faces.
Um mesmo signo pode apresentar significados diversos, conforme o contexto em que empregamos. O significado de uma palavra não é somente aquele dado pelo dicionário (denotativo), mas pode adquirir outros significados mais criativos (conotativo). A essa pluralidade de significados dá-se o nome de polissemia.
Por fim, se queremos ser objetivos no que redigimos, precisamos utilizar a linguagem denotativa – essa é a linguagem ao qual encontramos no dicionário. Já, quando queremos evocar ideias através do filtro da nossa emoção, da nossa subjetividade, temos a conotação, que corresponde a uma transferência do significado usual para um sentido figurado.



2. Figuras de Linguagem




Figuras de linguagem ou de estilo são sempre empregadas para valorizar o texto, tornando a linguagem mais expressiva.
As figuras revelam muito da sensibilidade de quem as produz, traduzindo particularidades estilísticas do autor.
A palavra empregada em sentido figurado, não denotativo, passa a pertencer a outro campo de significação mais amplo e criativo.
As figuras de linguagem classificam-se em:

ü  Figuras de palavra;
ü  Figuras sonoras ou de harmonia;
ü  Figuras de pensamento;
ü  Figuras de construção/sintaxe.




3. Figuras de Palavra



Consistem na utilização de um termo com sentido diferente daquele convencionalmente empregado, a fim de se conseguir um efeito mais expressivo na comunicação. São elas:

Comparação: Aproximação, entre dois seres semelhantes, ligados por conectivos (feito, assim como, tal qual, tal como, qual, que nem /e alguns verbos: parecer; assemelhar-se, etc.).

Metáfora: Comparação implícita, subjetiva (sem conectivos).

Metonímia: Substituição de uma palavra por outra, por haver entre ambas alguma semelhança.

Sinédoque: Substituição de um termo por outra com ampliação ou redução do sentido usual da palavra.

Catacrese: Metáfora desgastada.

Sinestesia: Combinação de sensações diferentes numa só impressão.

Antonomásia: designação de pessoas por uma qualidade, fato ou característica (ideia de aposto do nome próprio – apelido).

Alegoria: Acumulo de metáforas referindo-se ao mesmo objeto, intensificando seu significado.



4. Figuras Sonoras ou de Harmonia



São elas as quais os efeitos produzidos na linguagem quando há repetições de sons, ou, ainda, quando se procura imitar sons produzidos por coisas ou seres. São elas:

Aliteração: Repetição de fonemas consonantais idênticos ou semelhantes.

Assonância: Repetição de fonemas vocálicos idênticos ou semelhantes.

Paronomásia: Reprodução de sons semelhantes em palavras de significados diferentes.

Onomatopeia: Reprodução aproximada de um som.



5. Figuras de Pensamento

As figuras de pensamento são recursos de linguagem que se referem ai significado das palavras, ao seu aspecto semântico. São elas:



Antítese: Aproximação de palavras de sentido contrário.

Apóstrofe: Invocação de um ser real ou imaginário.

Paradoxo: Verdade enunciada com aparência de mentira.

Eufemismo: Expressão que suaviza uma verdade considerada penosa ou desagradável.

Gradação: Sequencia de palavras intensificando a mesma ideia.

 Hipérbole: Exagero de uma ideia.

Ironia: Pelo contexto, sugere-se o contrário do que os termos expressam.

Prosopopeia: Expressão que suaviza uma verdade considerada penosa ou desagradável.

Perífrase: Torneio de palavras para nomear acidentes geográficos, objetos, situações.

6. Figuras de construção/sintaxe

Dizem respeito a desvios em relação à concordância entre os termos da oração, sua ordem, possíveis repetições ou omissões. São elas:



Assíndeto: Palavras ou orações justapostas, sem conjunção.

Elipse: Omissão de um termo, expressão ou oração facilmente identificável.

Zeugma: Supressão de um termo já expresso na frase.

Anáfora: Repetição de palavras no início de frase ou verso.

Pleonasmo: Redundância de termos de mesmo significado.

Polissíndeto: Repetição enfática de conjunção coordenativa.

Anástrofe: Inversão simples de palavras vizinhas.

Hipérbato: Inversão complexa de membros da frase.

Sínquise: Inversão violenta dos termos da oração.

Hipálage: Inversão da posição do adjetivo (a qualidade de um objeto é atribuída a outro).

Anacoluto: Interrupção sintática da frase, deixando um ou mais termos soltos, sem função.

Silepse: Concordância com a ideia associada às palavras e não com estas.