segunda-feira, 25 de julho de 2016

Análise interpretativa do romance: Alice no País das Maravilhas (Coerência)




Resumo: Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, é um romance inglês moderno extremamente complexo que propõe as mais variadas interpretações por abordar em seu contexto assuntos de diferentes temáticas. Através deste artigo, por meio de uma pesquisa bibliográfica, pretende-se fazer uma análise de caráter interpretativo do romance Alice no País das Maravilhas.


1. Considerações iniciais
Alice no país das maravilhas é um dos livros mais editados da literatura moderna e influenciou vários grandes escritores, como Jorge Luis Borges, Cortazar, Maria Clara Machado e Guimarães Rosa. Um romance extremamente complexo que propõe as mais variadas interpretações por abordar em seu contexto assuntos de diferentes temáticas.
Os dois romances de Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodson), Alice no país das maravilhas e Alice através do espelho, publicados em 1865 e 1872, são extremamente intrigantes e capazes de mexer muito com a imaginação de seus leitores, porém este artigo detém-se apenas na análise do primeiro.
Os elementos típicos dos contos de fada, animais que falam, reis e rainhas, mudanças de tamanho em um passe de mágica, personagens enigmáticos que aparecem e desaparecem de uma hora para outra, além do fato de a história se passar dentro de um sonho, torna tudo muito complexo e curioso.
Partindo-se dos referidos pressupostos, desenvolvemos uma análise interpretativa da obra Alice no país das maravilhas, buscando compreender um pouco melhor a sua coerência.
2. O autor e sua obra
Charles Lutwidge Dodgson (mais conhecido como Lewis Carroll) nasceu em 27 de janeiro de 1832, em Daresbury, Inglaterra e morreu em Guidford, Inglaterra, em 14 de janeiro de 1898. Filho de um pastor anglicano, Lewis Carroll tinha 10 irmãos e cresceu num ambiente onde aprendeu a contar histórias, cuidar e distrair crianças.
Apaixonado por matemática e fotografia, foi nomeado professor de matemática em Oxford em 1861. Como fotógrafo amador, fotografava invariavelmente meninas entre 8 e 12 anos de idade. Tornou-se famoso por seus dois livros, Alice no país das maravilhas e Alice no país do espelho, que tiveram como inspiradora Alice Liddell, de apenas dez anos, por quem ele tinha uma paixão platônica. Carroll nunca assumiu sua paixão por meninas, que ficou registrada através de várias fotos de nu infantil feitas por ele.
Não se deve afirmar com certeza que os livros Alice no País das Maravilhas e Alice através do espelho, sejam necessariamente livros infantis. “Pois não há nada por trás dos enredos e personagens desses dois livros que não esteja rigorosamente referenciado, seja através de dados da própria existência de Carroll, seja através de inúmeras alusões literárias, científicas, lógico-matemáticas, etc.” (CARROLL, 1980, p. 7).
3. Origem do livro
Em 4 de julho de 1862, um barco a remo transportava o reverendo Charles Lutwidge Dodgson numa excursão pelo rio Tâmisa. Junto a ele, além do amigo Robinson Duckworth, estavam as três irmãs Liddell: Lorina Charlotte, de 13 anos; Alice Pleasence, de 10 anos; e Edith, de 8 anos. Cada uma recebeu um apelido, ao longo da viagem, respeitando a ordem de nascimento. Assim, Lorina foi denominada “Prima”, Alice “Secunda” e Edith “Tertia”. O evento não era algo incomum na vida daquelas pessoas, o reverendo acostumara- se a levar as irmãs Liddell em passeios pelo rio, alternando conversas e contos de fadas inventados em cada ocasião, geralmente esquecidos nos momentos seguintes. Porém, Prima,
Secunda e Tertia foram eternizadas num poema, que alude explicitamente àquela sexta-feira, naquela tarde de verão. E a história que povoou a imaginação das três meninas foi anotada, escrita e reescrita, depois publicada pelo reverendo em 1865, tornando-se um dos maiores clássicos da literatura de todos os tempos. O poema e a história foram dedicados a Alice Pleasence Liddell. Assim, Alice no país das maravilhas e depois Alice através do espelho alçaram o pseudônimo Lewis Carroll à posição de destaque na história da literatura marcada pelo pioneirismo no tratamento das situações e também pelo uso até certo ponto incomum do recurso do nonsense (termo inglês que indica ausência de sentido) para o público infantil.
O nonsense de Carroll continha um elemento extra na formação do texto: a matemática. A obra de Carroll foi constituída através de jogos de linguagem, baseados na Lógica, nos quais os capítulos só terminam quando as proposições se esgotam. Carroll usou de seus conhecimentos matemáticos e lógicos para construir proposições em Alice no País das Maravilhas, sendo muitas vezes o significado particular da frase superado pela forma, sugerindo brincadeiras comuns em sua época.
4. Composição do romance
Os episódios que compõem uma narrativa, localizados no tempo e no espaço desejados pelo escritor, dependem de algum recurso de ligação para garantir a sua coerência interna. Este recurso pode ser estabelecido através do ritmo, do narrador, de um limite de tempo ou até mesmo de um personagem, entre outras possibilidades.
A análise do sumário da obra, observando os títulos dos capítulos, permite ver uma colagem de histórias, casos curtos que poderiam existir independentemente, se não fosse a intenção do autor escrever um verdadeiro conto de fadas, tornando a viagem pelo país das maravilhas um sonho de Alice, e fazendo a correspondência ao episódio inicial em que ela lê um livro enfadonho antes de cair no sono. A Lagoa de Lágrimas (capítulo 2), Um Chá Maluco (capítulo 7) e O Campo de Croqué da Rainha (capítulo 8) são capítulos que remetem o leitor a cenas muito visuais, seja pela descrição nada usual dos acontecimentos ou pelo inusitado dos diálogos.
A concordância entre o início e o final aparece como uma prova de coerência na construção da narrativa, pois os leitores não exigem uma lógica total dos acontecimentos dentro do romance, uma vez que se trata do enredo de um sonho, universo onde as coisas mais incomuns são aceitas como naturais.
5. As diversas alusões dentro da obra
Vários personagens e situações de Alice no país das maravilhas tiveram como inspiração o cotidiano de Lewis Carroll e a comunidade onde viveu. A personagem Alice foi inspirada em Alice Liddell, filha de Liddell, amigo de Carroll. Apesar de a menina e a personagem terem o mesmo nome, ambas eram muito diferentes: Alice Liddell era morena, comum e insípida, ao contrário da Alice de Lewis, que era loira, esperta e agitada. As irmãs Liddell eram muito afeiçoadas aos dois gatos malhados da família, Dinah e Villikens.
O frasco de remédio vitoriano era arrolhado, com um rótulo de papel amarrado no gargalo assim como a garrafa com o líquido que Alice toma para encolher em sua primeira mudança de tamanho.
Uma chave de ouro que destrancava portas misteriosas era um objeto comum na literatura vitoriana. A portinha para um jardim secreto era para Carroll uma metáfora de eventos que poderiam ter acontecido se tivesse aberto certas “portas”. As doze mudanças de tamanho sofridas por Alice ao longo da história poderiam estar ligadas ao desejo dele de que Alice Liddell fosse adulta para que pudesse se casar com ela. O poema da carta usada como prova pelo Coelho Branco no julgamento é inspirado pela canção Alice Gray, que conta à história do amor não correspondido de um homem por uma moça chamada Alice.
Carroll pode ter pretendido que a “corrida em comitê” simbolizasse o fato de que os membros de comitês políticos geralmente correm muito em círculos, sem chegar a lugar algum, pois todos almejam um mesmo prêmio político. O dedal tomado de Alice e depois devolvido a ela como prêmio pela corrida, pode simbolizar o modo como os governantes tomam dinheiro do bolso dos cidadãos e depois devolvem na forma de projetos políticos.
Mary Ann, na época de Carroll, era um eufemismo britânico para criada. O coelho Branco chama Alice assim em um momento no qual dá ordens a ela. Ele está sempre procurando por suas luvas, peças tão importantes para Lewis quanto para o Coelho, pois em todas as estações do ano o escritor sempre usava um par de luvas de algodão cinzentas ou pretas.
No capítulo “Conselhos de uma Lagarta”, a lagarta lê o pensamento de Alice. “Carroll não acreditava em espiritualismo, mas acreditava na realidade da percepção extrasensorial e no poder da mente mover ou deformar objetos inanimados.”
A Lagarta fora inspirada nos professores que davam conselhos na Universidade de Oxford, onde Lewis estudou.
Em toda a história de Alice são encontrados 24 poemas, entre os quais 10 são paródias de poemas e canções inglesas da época de Lewis Carroll. “Os poemas e os versos que Alice recita, e que parecem não ter sentido nenhum, são sátiras aos poemas enfadonhos que as crianças inglesas daquela época tinham que saber de cor.” (www.educ.fc.ul.pt/docentes/ opombo/seminario/alice/comosurgiu.htm). A posição de Alice, de mãos unidas, ao fazer recitações indica que era exigido das crianças da época saber as lições de cor.
O autor do romance adorava crianças, mas detestava meninos. “Certamente não foi sem malícia que Carroll transformou um bebê do sexo masculino num porco, pois não tinha menininhos em alta conta.” (GARDINER, in: CARROLL, 2002, p. 61).
A nogueira onde aparece o Gato de Cheshire ainda existe nos dias de hoje, no jardim do Colégio de Deanery. O Gato de Cheshire refere-se aos queijos do condado de Cheshire
onde Carroll nasceu) que tinha a forma de um gato sorridente. Ao partir o queijo na forma de gato, a tendência seria começar pela calda até que finalmente só restasse na travessa a cabeça sorridente, o que nos remete ao episódio no qual o gato desaparece a começar pela cauda e termina com o sorriso.
O dia do chá maluco não é uma data qualquer, é o dia do aniversário de Alice Liddell, 4 de maio. Ninguém diria a uma menina vitoriana que seu cabelo estava comprido demais. A observação “seu cabelo está precisando de um corte” dita pelo Chapeleiro Louco, na verdade, era uma frase muito ouvida por Carroll, pois este usava os cabelos mais longos do que era costume. A história que o caxinguelê conta sobre 3 irmãs que vivem em um poço de mel (Elsie, Lacie e Tillie), refere-se às 3 irmãs Liddell: Lorina, Edite e Alice. A parte na qual a Lebre de Março e o Chapeleiro Louco tentam enfiar o Caxinguelê no bule de chá pode estar relacionada ao fato de que crianças vitorianas costumavam ter ratinhos como bichos de estimação e conservavam-nos dentro de bules cheios de capim ou feno.
A Lebre de Março refere-se ao mês do cio das lebres; o Chapeleiro é louco por causa de uma substância alucinógena usada na fabricação de chapéus; o Leirão dorme muito por ser um animal que hiberna no inverno e a Falsa Tartaruga refere-se à sopa de falsa tartaruga, que na verdade é feita com carne de vitela. Na catedral, onde o pai de Lewis era reverendo, existe talhada em madeira a imagem do grifo que inspirou o Grifo, amigo da Falsa Tartaruga. “O grifo é um monstro fabuloso com cabeça e asas de águia e a parte inferior do corpo de leão.” (GARDINER, in: CARROLL, 2002, p. 91).
“A “Quadrilha da Lagosta” pode ter sido pensada como uma brincadeira com a “Lancers Quadrille”, dança para 6 a 8 pares que era imensamente popular nos salões de baile ingleses na época em que Carroll escreveu seus livros de Alice.” (idem, 2002, p. 97).
Carroll dedicava muito tempo à invenção de maneiras inusitadas de jogar jogos conhecidos, e talvez por isso, o jogo de croqué da Rainha possuísse elementos vivos. Camomila mera um medicamento extremamente amargo, muito usado na Inglaterra Vitoriana, e era extraído da planta de mesmo nome, por isso, Alice afirma que a camomila torna as pessoas amargas.
Durante uma conversa com a duquesa, Alice fica indecisa entre classificar mostarda como animal, mineral ou vegetal. Trata-se de uma referência ao popular jogo de salão vitoriano “animal, vegetal, mineral”, em que os jogadores tentavam adivinhar o que alguém tinha em mente. As primeiras perguntas feitas eram tradicionalmente: É um animal? É um vegetal? É um mineral? As respostas tinham de ser sim ou não, e o objetivo era adivinhar corretamente em 20 perguntas ou menos.
Devido às semelhanças no comprimento dos nomes, e às posições das vogais, consoantes e letras duplas no último nome, acredita-se que Charles tenha se inspirado na formação do nome de Alice Liddell para criar seu pseudônimo Lewis Carroll.
6. Alice e o tamanho
6.1 O tamanho e o caminho para a maturidade
Alice no país das maravilhas é a narrativa do sonho de uma garotinha. Como é comum em todos os sonhos, as regras da realidade são quebradas, e isso é analisado pela própria personagem como em um jogo. A garotinha precisa entender e resolver o jogo, antes que sua irmã a acorde e a traga de volta ao mundo real e normal.
Alice é uma obra que permite várias interpretações. Uma delas é a de que as mudanças, conflitos e aprendizados da adolescência podem estar representados na obra. Alice entra na aventura sem pensar em nada, de repente, como se entra na adolescência. A questão do tamanho nos lembra que a adolescência está presente em todos os episódios da história:
“Alice está sempre crescendo e diminuindo dependendo da situação e isso certas vezes é conveniente ou não para ela.” No primeiro capítulo, Alice reduz de tamanho e parece se tornar insignificante. Essa transformação faz com que ela tenha medo de encolher até desaparecer. Em alguns episódios, Alice cresce de forma desenfreada. O adolescente se sente insatisfeito, ao perceber que
crescer traz consigo inúmeras responsabilidades.
Em várias circunstâncias o tamanho representa novas possibilidades. Pequena, Alice pode entrar no jardim, mas grande, pode pegar a chave. Grande, sente-se mais confiante no julgamento no final do livro.
Na passagem em que o pescoço de Alice cresce, sua capacidade de observação se torna mais ampla. Depois de experiências vividas na adolescência passamos a ter uma nova visão do mundo. Alice considera o país das maravilhas mais divertido, mas sente saudades do mundo real. O adolescente adora as novas possibilidades dessa fase, mas sente saudade das facilidades da vida enquanto criança.
No país das maravilhas, Alice sente que pode usar a mágica como recurso para tornar-se invencível. Ao afirmar que quando for adulta vai escrever um conto de fadas, revela o desejo de controlar tudo que acontece no mundo a sua volta.
Quando Alice fala sobre a dúvida de quem realmente é, no diálogo com a cigarra, a personagem demonstra um estado confuso típico da adolescência diante da rapidez com que as mudanças acontecem.
Ao final do livro, Alice recupera seu tamanho normal, porém a maturidade vinda das experiências vividas ao longo da história a investe de uma grande coragem para enfrentar o julgamento. Quando Alice acorda, sua irmã pensa se ao crescer ela conservará o coração simples e amoroso da infância. Lembra alguém que passou pela adolescência e se lembra dela com saudades. Nesse momento, a irmã de Alice percebe que ela despertou do sonho muito mais madura.
6.2 Alice e o problema do tamanho
As mudanças de tamanho mexem com o psicológico da personagem, levando-a a explorar suas capacidades, enquanto impõe novas circunstâncias a cada capítulo, fazendo o romance progredir.
Tome-se por exemplo um dos episódios iniciais em que Alice está num grande salão e identifica uma porta pequena na parede, antes escondida por uma cortina. A menina então encontra uma chave minúscula, sobre a mesa de vidro, e abre a portinha, revelando um belo jardim. Sua intenção é chegar àquele novo lugar. E a necessidade de Carroll é avançar no romance, criando novas peripécias para a protagonista. A transformação do tamanho aparece, pois, como uma solução para o desejo de Alice (e de Carroll).
O problema do tamanho lida com o crescimento e os obstáculos encontrados no caminho para a maturidade. A personagem busca se superar diante de cada obstáculo desenvolvendo a postura de uma heroína, e nem mesmo a sua constante crise de identidade a impede de continuar questionando e desejando mudar seu tamanho para ultrapassar portas e adentrar recintos novos. A última mudança acontece espontaneamente, talvez porque Alice estivesse prestes a voltar à realidade.
7. Teorias científicas presentes na obra
Na época de Carroll, era uma curiosidade comum desejar saber o que aconteceria se alguém caísse em um buraco que passe pelo centro da terra. Estudando sobre a travessia até o centro da terra feita pela toca do coelho, percebe-se a referência feita à teoria de Galileu sobre a relação entre velocidade e aceleração. Em alguns trechos nos quais ocorre queda livre, ele teria, de certa forma, antecipado a “experiência de pensamento” em que Einstein usou um elevador imaginário em queda para explicar certos aspectos da teoria da relatividade.
As mudanças de tamanho sofridas por Alice também fazem alusão ao princípio do telescópio, o qual fascinava Carroll imensamente. Estudiosos da obra de Lewis, usando a teoria da relatividade, comparam o chá maluco, em que são sempre 6 horas, com a porção do modelo do cosmo de De Sitter, em que o tempo permanece eternamente imóvel.
8. Referências histórico-lingüísticas e socioculturais
As histórias de Carroll possuem referências histórico-lingüísticas, e muitas vezes, é necessária a decodificação para uma compreensão perfeita de sentido do que é dito.
Carroll usou elementos típicos dos contos de fadas para chamar a atenção das crianças, como animais que falam e a presença de reis e rainhas, além da cronologia indefinida.
Porém, as histórias de Alice não podem ser consideradas contos de fadas, pois abordam questões históricas em suas narrativas, como por exemplo, críticas à sociedade inglesa do período vitoriano.
A obra reproduz vários aspectos comuns à cultura inglesa da época vitoriana. Até mesmo na Inglaterra é provável que o leitor de Alice não seja capaz de compreender todos os significados propostos por Carroll, considerando os costumes do século XIX, as menções ao folclore regional, as piadas que só eram entendidas em Oxford e as alusões à sociedade daquele período. A inversão do sentido presente na obra pode ser caracterizada como crítica, considerando-se a Inglaterra de meados do século XIX como um dos países onde mais se afirmava a racionalidade, ou ao menos um princípio lógico para justificar tudo na sociedade, até mesmo questões difíceis de serem justificadas, como os privilégios e a miséria.
9. Considerações Finais
Para uma interpretação mais satisfatória do romance Alice no País da Maravilhas, foi necessária uma pesquisa sobre os diferentes temas abordados de forma direta e indireta dentro da obra, pois o autor Lewis Carroll utilizou-se de vários fatores de seu cotidiano como também de conhecimentos matemáticos e científicos para criar os episódios que compõem o livro.
A composição da história criada durante um passeio de Carroll e das irmãs Liddell pelo rio Tâmisa sofreu influência das várias lembranças da infância do autor no Condado de Cheshire e também dos conhecimentos por assuntos que muito interessavam a ele, como a matemática e as diversas teorias científicas, que determinaram todo o desenvolvimento da trama de Alice, principalmente no que diz respeito à ligação dos capítulos pelas inúmeras mudanças de tamanho sofridas pela personagem principal.
As críticas e alusões a costumes da sociedade inglesa do período vitoriano também tiveram imensa importância na construção do romance, o que de certa forma, torna a compreensão para leitores externos a este contexto um tanto complicada, pois o livro traz informações em que a compreenção ficaria limitada, até mesmo, a determinadas regiões da Inglaterra.
Assim, fizemos uma leitura do romance tão profunda quanto nos foi possível com o objetivo de compreender um pouco melhor o enredo do mesmo, desvendando o universo dessa trama que mistura “sonho” e “realidade”, seduzindo os leitores através do fantástico.
10. Outras Informações:

A essa altura, Alice começou a ficar com muito sono, e começou a dizer coisas, como se estivesse sonhando:
- Será que gatos comem morcegos? Será que gatos comem morcegos? E às vezes:
-Será que morcegos comem gatos?

Aqui temos um dos múltiplos exemplos de como Lewis Carroll propõe uma inversão/questionamento de valores - tanto lógicos quanto semânticos -, assim como de conceitos num âmbito geral. Nesse caso em específico, a relatividade conferida pelos pontos de vista e pela indagação perante o desconhecido - afinal como saber quem come quem, se ainda não nos deparamos com a situação concreta?
Também se encaixaria perfeitamente aqui o impasse que Alice tem com um rato, ao falar de sua gatinha Dinah: ele morre de medo de gatos, obviamente, e sente-se ofendido, retrucando com uma provocativa: se ela estivesse no lugar dele, também gostaria de gatos? Isso é empatia, algo que anda se perdendo muito atualmente.
Alice constantemente se questiona acerca do mundo, sobretudo das concepções vigentes e da lógica, impulsionada pelas situações surreais em que se vê presa constantemente. A aparente ausência de lógica do mundo subterrâneo em que ela cai definiria apenas um universo paralelo onde o que é impossível no nosso tornar-se-ia possível (e cujos fatos não seguem uma estrutura bem definida de causa-e-efeito, onde tudo parece ocorrer por acaso ou consequências dos atos mais absurdos e inverossímeis) ou denunciariam a verdadeira lógica subjacente do mundo, que geralmente não se percebe pela alienação e pela insensibilidade? Talvez não chegue a essa amplitude, mas certamente Alice no País das Maravilhas propõe uma revisão conceitual do mundo e se prestarmos atenção nas sutilezas, a perceber que tal lógica está sim correta, se vista sob outro ângulo - há passagens diversas no livro em que Alice começa a desenvolver novos olhares -, sob outro ponto de vista, ou que mesmo em algumas situações não se deve procurar uma lógica convencional, pois são definidas por outras leis, e o acaso não deve ser subestimado.
Outro aspecto é que muitas vezes em Alice o transtorno provém mais da linguagem, repleta de contradições, trocadilhos e outras figuras de linguagem: o Carrol é mestre em (re)inventar/adaptar palavras. Atentemos bem para a origem das palavras e para o processo de estilismo linguístico, que muitas coisas tornam-se perfeitamente inteligíveis, grande exemplo é o episódio dos discursos melancólicos da Tartaruga Falsa em parceria com o Grifo, recheada de vocábulos inventados.
Há diversas passagens em que Alice se acerca de uma falta de coerência em atitudes dos personagens, e que simbolizariam a própria incoerência de tantos atos do ser humano. Frequentemente agimos como loucos, daí a afirmação do Gato de Cheshire de que "somos todos loucos" e de que se Alice não a fosse, não teria parado no seu mundo. E a loucura é relativa, depende de padrões de comportamento vigentes, estabelecidos como os "corretos" ou convencionais de uma sociedade, tendo como eixo de sustentação um certo modelo. O Gato de Cheshire aborda essa relatividade - embora incosciente dela - de que é louco porque, ao contrário do cão, abana o rabo quando está irritado e rosna (no seu caso, particularmente, ronrona) quando está alegre; mas aqui o modelo é o cão, e estamos falando de um gato, com sua essência inerente a um gato, e individualidade que deve ser respeitada. E sabemos como o conceito relativo e mutável de loucura no percurso histórico fora - e sob certas circunstâncias e em alguns países ainda continua sendo - instrumento de repressão.

1. A aparente ausência de lógica de tantos fatos, na verdade "obedientes" a uma lógica que foge ao convencional do qual estamos acostumados, ou determinados pelo acaso.

2. A descoberta da lógica sutil e não-convencional que permeia tantas situações surreais.

3. O caráter humano, relativizador ou absolutista de acordo com as circunstâncias. A obsessão de muitos em extrair uma lição moral uniforme de todas as situações, ideal encarnado pela Duquesa, em detrimento da verdade múltipla e potencialmente reinterpretativa que podemos apreender de qualquer experiência; a moral ambígua.

4. A ressignificação do discurso e o discurso através de símbolos e de alegorias.

5. A entrada na adolescência, com todos os questionamentos recorrentes, crises de identidade e instabilidade emocional que ela representa, representada por Alice (ela frequentemente se vê presa dessas três peculiaridades mais comuns, psicossocialmente, à época da consolidação da personalidade e da construção de novos olhares, a "aborrescência"). EDIT: Carroll critica o posicionamento simplista de pessoas que buscam uma moral convencional/moralista/absoluta e supostamente apreensível de quaisquer situações, experiências humanas e obras artísticas que sejam, desconsiderando a relatividade dos valores, os significados implícitos e/ou ambíguos, o caráter naturalmente dinâmico e polissêmico de qualquer moralidade, concepções estas representadas pela figura da Duquesa - sempre atribuindo uma moral tradicional a tudo, como nas fábulas. Lewis Carroll, então, partindo dessa premissa, a meu ver, também põe em xeque as convenções e o moralismo (e num cenário tão conservador como o da Inglaterra vitoriana) que se pressupõem inquestionáveis - ou hipócritas - de tantos, constituindo assim um convite sutil ao questionamento da moral vigente e da (re)construção "orgânica" de uma, através da nossa existência concreta - embora ele não vá tão além quanto outros escritores e tampouco pregue a dissolução radical de valores, longe disso em vista de sua posição religiosa. Não é a toa que Alice se impõe à Duquesa: "Tenho todo o direito de pensar", contestando ou revisando as morais pretensamente irrefutáveis e lógicas que esta arranja para toda situação.
Carroll também instiga o leitor infantil, jamais subestimando-o, a procurar construir seus próprios valores baseados na sua percepção de mundo, no confronto entre as opiniões/convicções suas e as alheias - respeitável ou irreverentemente, dependendo das circunstâncias -, em suas reflexões e na melhor maneira de lidar com os obstáculos que a vida impõe, porém nunca transgredindo o bom senso.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Mário de Andrade: Reinventando o Brasil (1893/1945)




“– Ai! que preguiça! ... que o herói suspirava enfarado. E dando as costas pra ela adormecia bem. Mas Ci queria brincar inda mais ... Convidava convidava... O herói ferrado no sono. Então a mãe do mato pegava na txara e cotucava o companheiro. Macunaíma se acordava dando grandes gargalhadas estorcegando de cócegas
- Faz isso não, oferecida!
- Faço!
- Deixa a gente dormir, seu bem...
- Vamos brincar.
- Ai! que preguiça!...”


Macunaíma (p.19)


Mario Raul Morais de Andrade


Filiação : Carlos Augusto de Morais Andrade e Maria Luísa Leite Morais Andrade
Nascimento : 09/10/1893 – São Paulo. Morte - 25/02/1945 – São Paulo.
Mario Raul Morais de Andrade nasceu em São Paulo em 09 de outubro de 1893. Iniciou seus estudos de piano em 1911. Apreciador de música, formou-se no Conservatório Dramático e Musical, onde tornou-se professor de História da Música. No ano de 1917, publicou seu primeiro livro de poema Há uma gota de sangue em cada poema, no qual criticava o derramamento de sangue, causado pela Primeira Guerra Mundial. Foi um dos líderes do grupo de intelectuais participantes da Semana de Arte Moderna em São Paulo.
Em 1924, foi com um grupo de amigos para Minas Gerais. Em 1927, viajou pelo Norte e Nordeste do Brasil para colher histórias. As viagens pelo Brasil foram descritas pelo próprio Mário como viagens etnográficas. Portanto, além de um pesquisador e estudioso da cultura e folclore brasileiros, conhecia música, festas, modinhas do Brasil.
Em 1928, publicou Macunaíma. Exerceu várias funções de estudos da cultura brasileira, dentre elas, foi diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo.
Foi um dos escritores mais multifacetados da literatura brasileira. Ele mesmo ecoou: “Eu sou trezentos, sou trezentos e cincoenta” (Remate dos Males).


Principais obras de Mario de Andrade

Poesia:

Há uma gota de sangue em cada poema (1917)
Paulicéia desvairada (1922 )
Losango cáqui (1926 )
Clã do jabuti (1927)
Remate de Males ( 1930 )
Poesia (1941)
Lira Paulistana, seguida de O carro da miséria (1946)

Contos:

Primeiro andar (1926)
Belazarte (1934)
Contos Novos (1946)

Romance:

Amar, verbo intransitivo (1927)
Macunaíma (1928)

Ensaios:

A escrava que não é Isaura (1925)
Música do Brasil (1941)
O movimento modernista (1942)
O Baile das quatro Artes (1943)
O empalhador de passarinhos (1944)



Os dois Andrades

Mario de Andrade e Oswald de Andrade não eram parentes. Aproximaram-se em 1917. Os dois encontravam-se freqüentemente com os outros artistas modernistas. No Jornal do Commercio, em 1921, Oswald escreveu um artigo sobre Mario de Andrade, intitulado O Meu Poeta Futurista. Em 1922, finalmente, essa amizade definiu novas bases para a Literatura Brasileira. Diferentes na postura artística e estilo literário, foram as lideranças do Modernismo brasileiro.
Afastaram-se em 1929. Segundo Paulo Mendes de Almeida, crítico de Arte e amigo de ambos, “ foram eles o elemento de coesão de todo o grupo, ao qual transfundiam audácia, segurança e entusiasmo.”

Linha do tempo

1888 – Abolição da escravatura no Brasil
1889 – Proclamação da República no Brasil
1893 – Nasce Mário de Andrade
1893- Assentamento do grupo de Antonio Conselheiro em Belo Monte
1902 – Publicação de Os Sertões de Euclides da Cunha
1904 – Revolta da Vacina no Rio de Janeiro
1905 – Albert Einstein anuncia a teoria da relatividade
1906 – Santos Dumont realiza em Paris o primeiro vôo
1906 – Várias greves operárias eclodem no Brasil
1912 – Naufrágio do Titanic, o maior e mais luxuoso navio do mundo
1913 – Ano em que o Brasil recebe o maior número de imigrantes: 192.683
1914- Início da Primeira Guerra Mundial
1915 – Início do Modernismo em Portugal com a publicação da revista Orfheu
1917 – Exposição de Anita Malfatti
1917 – Greve geral no Rio de Janeiro e São Paulo
1917 – Revolução Russa
1917 – O Brasil entra na Primeira Guerra Mundial
1922 – Semana de Arte Moderna
1928 – Publicação de Macunaíma
1929 - Quebra da Bolsa de Nova Iorque
1930 – Uma junta militar depõe o presidente Washington Luís
1931 – Inauguração da estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro
1933- Hitler assume o governo da Alemanha como chefe do nazismo
1937 – O presidente Getúlio Vargas decreta O Estado Novo no Brasil
1939 - Início da Segunda Guerra Mundial
1942- O Brasil entra na Segunda Guerra Mundial
1945 – Morre Mario de Andrade
1945 – Término da Segunda Guerra Mundial
1945 – Aprovada a carta mundial que cria a Organização das Nações Unidas ( ONU )


Macunaíma – Quem é esse brasileiro?

Nos mitos e lendas Vom Roraima Zum Orinoco, coligidos na Amazônia pelo naturalista alemão, Koch – Grunberg, Mario de Andrade conheceu o deus Makunaima. Figura intrigante do folclore brasileiro, astuto, zombeteiro e alegre.
Ele criou vida própria em 1928 na rapsódia modernista do autor. Nasceu da mistura de três etnias : negro, índio e branco. Nasceu da mistura dos textos do folclore brasileiro. Nasceu dos mitos e lendas do Brasil. Vive na multiplicidade de se tornar vários seres, em todos os tempos, o tempo todo, em todos os lugares. Como mote no caminhar de suas aventuras, não havia a salvação de uma dama ou de um ideal, mas a busca de um amuleto: muiraquitã.
Como companheiros fiéis e inseparáveis, seus irmãos Maanape e Jiguê. Como amores, todas as mulheres, deusas, semi-deusas, simples mortais.
Transpôs obstáculos para reaver sua muiraquitã. Encontrou-a às margens do Tietê, na cidade de São Paulo. Lutou contra o vilão, Venceslau Pietro Pietra . Terminou seus dias sem a consagração que merece todo o herói, mas narrando suas glórias a um papagaio.

Rapsódia - designava na Grécia antiga, a recitação de fragmentos de poemas épicos, notadamente homéricos pelos rapsodos, poetas ou declamadores ambulantes, que saíam de cidade em cidade, propagando a Ilíada e a Odisséia. Surgidos provavelmente no século VII a C (...) Nos domínios literários o vocábulo rapsódia equivale para compilação, numa mesma obra, de temas ou assuntos heterogêneos e de várias origens. Macunaíma, de Mario de Andrade, constitui a rapsódia das principais lendas afro-indígenas que compõem o substrato folclórico nacional.


Massaud MOISÉS. Dicionário de termos literários.


Macunaima - E não Macunaíma, entidade divina para os macuxis, acavis, arecunas, taulipangues, indígenas caraíbas, a oeste de “ plateau” da serra Roraima e Alto Rio Branco, na Guiana Brasileira. (...) A tradução da Bíblia para o idioma caraíba divulgou Macunaima como sinônimo de deus. (...) Com o passar dos tempos e convergência de tradições orais entre as tribos, interdependência cultural, decorrentes de guerras, viagens, permutas de produtos, Macunaíma foi-se tornando herói, centro de um ciclo etiológico, zoológico, personagem essencial de aventuras e episódios reveladores de seu espírito inventivo, inesgotável de recursos mágicos (...) Tornou-se um mito de astúcia, maldade instintiva e natural, de alegria zombeteira e feliz. É o herói das estórias populares contadas nos acampamentos e aldeados indígenas, fazendo rir e pensar, um pouco despido dos atributos de deus olímpico, poderoso e sisudo. Theodor Koch- Grunberg (1872-1924) reuniu a melhor e maior coleção de aventuras de Mcuanaima nessa fase popularesca, no Vom Roroima Zum Orinoco ( Berlin, 1917 ). (...) Algumas dessas histórias foram traduzidas pelo doutor Clemente Brandenburger e publicadas na revista de Arte e Ciência nº 9, em março de 1925 no Rio de Janeiro Lendas índias da Guiana Brasileira. Denominou um romance de Mário de Andrade de Macunaíma.


O herói sem nenhum caráter. Rapsódia. São Paulo, 1928.
Luís da Câmara CASCUDO. Dicionário do Folclore Brasileiro.



Muiraquitã -Artefato de Jade, que se tem encontrado no Baixo Amazonas e principalmente nos arredores de Óbidos (...) a que se atribuem qualidades de amuleto. Segundo uma tradição ainda viva, o muiraquitã teria sido presente que as amazonas davam aos homens em lembrança de sua visita anual. Conta-se que para isso, nas noites de Lua cheia, elas extraíam a pedra ainda mole do fundo do lago em cuja margem viviam, dando-lhes a forma que entendiam, antes de ficarem duras com a exposição ao sol (...)



Luís da Câmara CASCUDO. Dicionário do Folclore Brasileiro.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O Primo Basílio - Eça de Queiroz




1. A Evolução do Artista


P
ara melhor análise das obras de Eça de Queiróz podemos dividi-la em três partes, que acompanham a evolução temática-estilística do escritor.
Quanto à primeira fase, sua obra de mocidade, coligida sob o título de Prosas Bárbaras, apresenta influência romântica.
A segunda fase, em 1875, é destacada pela publicação de O Crime do Padre Amaro, abre-se nova fase do escritor, combativa, de ataques às instituições. Com outros dois romances – O Primo Basílio e Os Maias – compõem a tríade dos romances de orientação realista-naturalista. Configura-se aí o crítico impiedoso da sociedade portuguesa. Eça tem a intenção de realizar um vasto inquérito analítico da sociedade de seu tempo.
Em 1878, em O Primo Basílio, obra em que passa analisar a construção moral da família pequeno-burguesa urbana, tendo como motivo o adultério que, segundo o autor, é fruto da má-formação que a mulher recebe, moldada em dois pólos básicos: a ociosa e o romantismo de sua educação.
Estas obras, da segunda fase são: marcantes pela ironia do narrador e pelo tom crítico na abordagem a setores da sociedade portuguesa. No entanto, pela falta de contato do escritor com os extratos inferiores do povo, as personagens populares são escassas em suas obras (exceção de Juliana em O Primo Basílio) e somente aparecem de forma rápida, enquadradas no meio burguês, que conhecia melhor e de onde extrai suas melhores personagens.
Já a terceira fase é marcada por A Ilustre Casa de Ramires (1900) até A Cidade e as Serras (1901).

2. A Personagem Luísa


C
om base na leitura de O Primo Basílio e em nossos conhecimentos sobre o realismo-naturalismo, comentaremos, a seguir, as críticas feitas por Machado de Assis à obra de Eça de Queiróz.
Iremos agora apontar as características de um doa personagens de O Primo Basílio, por nome Luísa; ela é uma jovem de cabelos loiros e muito asseada, encontrou no casamento uma forma de “segurança” e no adultério uma maneira de dar vazão a seus sonhos e idealizações. Vive no ócio e preenche seu tempo com leituras românticas que excitam sua fantasia. Frágil, não consegue lidar com a situação de chantagem em que se viu envolvida, acaba adoentada e morre prematuramente.
Para Machado de Assis a personagem Luísa não passa de “um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral (...) não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência (...). Luísa revela no lodo, sem vontade, sem repulsa, sem consciência”.
Realmente, Eça de Queiroz quis criar uma personagem assim, como Machado de Assis descreve. O que realmente não concordamos é que Machado se refere que: “E aqui chegamos ao defeito capital da concepção do Sr. Eça de Queiroz”.
Eça de Queiroz quis criar uma personagem sem atitudes, perdida, com personalidade fraca, para assim, criticar a sociedade burguesa, ao qual tinham uma vida ociosa e que se iludem ao lerem romances românticos, criando um mundo de fantasias, ao qual não existe. Como já citamos anteriormente, a obra de Eça de Queiróz é marcada pela ironia do narrador e pelo tom crítico na abordagem a setores da sociedade portuguesa. Essa tal ironia não foi vista por Machado de Assis, em sua crítica ao romance.
Assim, o romance tem como motivo o adultério que, segundo o autor, é fruto da má-formação que a mulher recebe, moldada em dois pólos básicos: a ociosa e o romantismo de sua educação.
Podemos dizer que sobre alicerces perfeitos estão construídos os personagens principais, destacando-se a protagonista Luísa, mulher que espelha a educação recebida, as ilusões acumuladas durante anos de juventude, a imaturidade diante do casamento, a vida ociosa pela falta de filhos ou de afazeres, enfim, uma personagem – ao contrário que relata Machado –que está entre as ilusões criadas pelas sua leituras e personalidade instável, imatura e, portanto, capaz de ficar à mercê de homens aproveitadores e de chantagens de criadas, como citaremos mais à seguir.

3. Os Conflitos entre Luísa e Juliana

J
uliana, empregada de quarto de Luísa, odiava seus patrões, era rancorosa e invejosa, além de nutrir um despeito profundo por sua condição solteirona disponível. É exemplo de tese de que os fins justificam os meios, isto é, não hesita em fazer chantagens para livrar-se da pobreza.
Percebe-se que os patrões chegavam a dar mais importância para os bens materiais do que para o bem-estar de seus empregados, revelando-se assim bastante insensíveis. Não é à toa que Juliana se revoltou contra Luísa.
Juliana sabe que é um exemplo do que a injustiça social pode produzir. Ela aspira a valores burgueses –ser patroa -, mas não tem a chance de “melhorar de vida”, do ponto de vista burguês, apenas com seu trabalho, já que este lhe proporciona um rendimento muito aquém do necessário.
Juliana começa a se ver como uma escrava e se rebela contra tal condição. Sua revolta prossegue a seguir:

“(...) Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de vinho, quem mo dá? Tenho certeza de o comprar! A senhora já foi ao meu quarto? É uma enxovia! A percevejada é tanta que tenho de dormir quase vestida. (...) Uma criada! Uma criada é o animal. Trabalha se podes, senão nua, para o hospital. Mas chegou me a minha vez (...) Quem manda agora sou eu!
Para Machado de Assis, Julia é “o caráter mais complexo e verdadeiro do livro”. Em parte concordamos, mas por outro lado não, pois todos os personagens em O Primo Basílio são verdadeiros e de caráter complexo. Até Luísa, que parece uma “mosca morta” tem razão por ser assim, não sendo menos complexa e verdadeira do que Juliana.
Machado de Assis se opõe totalmente a personagem Luísa e diz que “um leitor perspicaz terá visto a incongruência do Sr. Eça de Queiróz, e a inanidade do caráter da heroína”.
Machado critica o episódio das cartas, onde Juliana procura-as até as encontrar e chantageia a Luísa, e relata que: “Como é que um espírito tão esclarecido, como o do autor, não viu que semelhante concepção era a coisa menos congruente e interessante do mundo?”.


Em nosso ver, essa foi a estratégia encontrada por Eça de Queiróz para dar um ar de mistério ao romance. Notamos, sim, quanto ao enredo, que fora construído em um clima de crescente tensão. Este está norteado por uma lógica invulgar, por uma capacidade de situar cenas e articular personagens de forma plena e concreta.
O mérito maior da obra está na elaboração dos tipos secundários, dentre os quais se destaca a criada Juliana, personagem de padrões naturalistas, desenvolvida para provar a tese de que os fins justificam os meios, como já fora dito antes.

4. Considerações Finais

C
oncluímos, assim, que O Primo Basílio faz um retrato da burguesia lisboeta do século XIX demonstrando como essa sociedade estava alicerçada em bases inconsistentes, visto que alimentava-se de uma ideologia de aparências. Estas, mantidas a qualquer preço, fazem com que surja uma sociedade de dupla moralidade, que se poderia resumir numa expressão bastante conhecida: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Eis um dos motivos para que o tema do adultério seja nuclear na obra.
A casa em que vivem Luísa e Jorge reproduz a ordem social da época. Trata-se de um espaço pelo qual os papéis sociais se distribuem: há sala – platéia para a representação social; há os quartos dos patrões – templo da privacidade burguesa; e há as “traseiras”, onde fica a plebe, isto é, a criadagem.
Percebe-se que os patrões chegavam a dar mais importância para os bens materiais do que para o bem-estar de seus empregados, revelando-se assim bastante insensíveis. Não é à toa que Juliana se revoltou contra Luísa.
Geralmente, o escritor realista busca ser objetivo e neutro na construção de seu enredo. É certo que a neutralidade total é utopia, mas no casa de O Primo Basílio a preocupação em alcançá-la é simplesmente abandonada: muitas vezes o narrador faz comentários subjetivos sobre suas personagens e suas atitudes, ou até mesmo funde sua voz à dos personagens, praticando o discurso indireto livre.
O mundo burguês é marcado pelo jogo das aparências, isto é, as pessoas não são valorizadas pelo que são, mas pelo que apresentam ser.
Percebemos que, numa sociedade assim, como no século XIX, os indivíduos mantêm falhas, pequenos pecados, desejos profundos, enfim, suas verdades em segredo. Mais: muitas vezes, os indivíduos compactuam com tudo isso, mesmo se sentindo incomodados, na esperança de obter alguma vantagem no futuro ou para manter de pé uma visão de mundo que crêem ser a mais correta.




domingo, 8 de maio de 2016

Leitura: Menina de Lá - João Guimarães Rosa

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Sua casa ficava para trás da Serra do Mim, quase no meio de um brejo de água limpa, lugar chamado o Temor-de-Deus. O Pai, pequeno sitiante, lidava com vacas e arroz; a Mãe, urucuiana, nunca tirava o terço da mão, mesmo quando matando galinhas ou passando descompostura em alguém. E ela, menininha, por nome Maria, Nhinhinha dita, nascera já muito para miúda, cabeçudota e com olhos enormes.
Não que parecesse olhar ou enxergar de propósito. Parava quieta, não queria bruxas de pano, brinquedo nenhum, sempre sentadinha onde se achasse, pouco se mexia. – "Ninguém entende muita coisa que ela fala..." – dizia o Pai, com certo espanto. Menos pela estranhez das palavras, pois só em raro ela perguntava, por exemplo: - "Ele xurugou?" – e, vai ver, quem e o quê, jamais se saberia. Mas, pelo esquisito do juízo ou enfeitado do sentido. Com riso imprevisto: - "Tatu não vê a lua..." – ela falasse. Ou referia estórias, absurdas, vagas, tudo muito curto: da abelha que se voou para uma nuvem; de uma porção de meninas e meninos sentados a uma mesa de doces, comprida, comprida, por tempo que nem se acabava; ou da precisão de se fazer lista das coisas todas que no dia por dia a gente vem perdendo. Só a pura vida.
Em geral, porém, Nhinhinha, com seus nem quatro anos, não incomodava ninguém, e não se fazia notada, a não ser pela perfeita calma, imobilidade e silêncios. Nem parecia gostar ou desgostar especialmente de coisa ou pessoa nenhuma. Botavam para ela a comida, ela continuava sentada, o prato de folha no colo, comia logo a carne ou o ovo, os torresmos, o do que fosse mais gostoso e atraente, e ia consumindo depois o resto, feijão, angu, ou arroz, abóbora, com artística lentidão. De vê-la tão perpétua e imperturbada, a gente se assustava de repente. – "Nhinhinha, que é que você está fazendo?" – perguntava-se. E ela respondia, alongada, sorrida, moduladamente: - "Eu... to-u... fa-a-zendo". Fazia vácuos. Seria mesmo seu tanto tolinha?
Nada a intimidava. Ouvia o Pai querendo que a Mãe coasse um café forte, e comentava, se sorrindo: - "Menino pidão... Menino pidão..." Costumava também dirigir-se à Mãe desse jeito: - "Menina grande... Menina grande..." Com isso Pai e Mãe davam de zangar-se. Em vão. Nhinhinha murmurava só: - "Deixa... Deixa..." – suasibilíssima, inábil como uma flor. O mesmo dizia quando vinham chamá-la para qualquer novidade, dessas de entusiasmar adultos e crianças. Não se importava com os acontecimentos. Tranqüila, mas viçosa em saúde. Ninguém tinha real poder sobre ela, não se sabiam suas preferências. Como puni-la? E, bater-lhe, não ousassem; nem havia motivo. Mas, o respeito que tinha por Mãe e Pai, parecia mais uma engraças espécie de tolerância. E Nhinhinha gostava de mim.
Conversávamos, agora. Ela apreciava o casacão da noite. – "Cheiinhas!" – olhava as estrelas, deléveis, sobrehumanas. Chamava-as de "estrelinhas pia-pia". Repetia: - "Tudo nascendo!" – essa sua exclamação dileta, em muitas ocasiões, com o deferir de um sorriso. E o ar. Dizia que o ar estava com cheiro de lembrança. – "A gente não vê quando o vento se acaba..." Estava no quintal, vestidinha de amarelo. O que falava, às vezes era comum, a gente é que ouvia exagerado: - "Alturas de urubuir..." Não, dissera só: - "... altura de urubu não ir." O dedinho chegava quase no céu. Lembrou-se de: - "Jabuticaba de vem-mever..." Suspirava, depois: - "Eu quero ir para lá." – Aonde? – "Não sei" Aí, observou: - "O passarinho desapareceu de cantar..." De fato, o passarinho tinha estado cantando, e, no escorregar do tempo, eu pensava que não estivesse ouvindo; agora, ele se interrompera. Eu disse: - "A Avezinha." De por diante, Nhinhinha passou a chamar o sabiá de "Senhora Vizinha..." E tinha respostas mais longas: - "Eeu? Tou fazendo saudade." Outra hora falava-se de parentes já mortos, ela riu: - "Vou visitar eles..." Ralhei, dei conselhos, disse que ela estava com a lua. Olhou-me, zombaz, seus olhos muito perspectivos: - "Ele te xurugou?" Nunca mais vi Nhinhinha.
Sei, porém, que foi por aí que ela começou a fazer milagres.
Nem Mãe nem Pai acharam logo a maravilha, repentina. Mas Tiantônia. Parece que foi de manhã. Nhinhinha, só, sentada, olhando o nada diante das pessoas: - "Eu queria o sapo vir aqui" Se bem a ouviram, pensaram fosse um patranhar, o de seus disparates, de sempre. Tiantônia, por vezo, acenou-lhe com o dedo. Mas, aí, reto, aos pulinhos, o ser entrava na sala, para aos pés de Nhinhinha – e não o sapo de papo, mas uma bela rã brejeira, vinda do verduroso, a rã verdíssima. Visita dessas jamais acontecera. E ela riu: - "Está trabalhando um feitiço..." Os outros se pasmaram; silenciaram demais.
Dias depois, com o mesmo sossego: - "Eu queria uma pamonhinha de goiabada" – sussurrou; e, nem bem meia hora, chegou uma dona, de longe, que trazia os pãezinhos da goiabada enrolada na palha. Aquilo, quem entendia? Nem os outros prodígios, que vieram se seguindo. O que ela queria, que falava, súbito acontecia. Só que queria muito pouco, e sempre as coisas levianas e descuidosas, o que não põe nem quita. Assim, quando a Mãe adoeceu de dores, que eram de nenhum remédio, não houve fazer com que Nhinhinha lhe falasse a cura. Sorria apenas, segredando seu – "Deixa... Deixa..." – não a podiam despersuadir. Mas veio vagarosa, abraçou a Mãe e a beijou , quentinha. A Mãe, que a olhava com estarrecida fé, sarou-se então, num minuto. Souberam que ela tinha também outros modos.
Decidiram de guardar segredo. Não viessem ali os curiosos, gente maldosa e interesseira, com escândalos. Ou os padres, o bispo, quisessem tomar conta da menina, levá-la para sério convento. Ninguém, nem os parentes de mais perto, devia saber. Também, o Pai, Tiantônia e a Mãe, nem queria versar conversas, sentiam um medo extraordinário da coisa. Achavam ilusão.
O que ao Pai, aos poucos, pegava a aborrecer, era que de tudo não se tirasse o sensato proveito. Veio a seca, maior, até o brejo ameaçava se estorricar. Experimentaram pedir a Nhinhinha: que quisesse a chuva. – "Mas, não pode, ué..." – ela sacudiu a cabecinha. Instaram-na: que, se não, se acabava tudo, o leito, o arroz, a carne, os doces, frutas, o melado. – "Deixa... Deixa..." – se sorria, repousada, chegou a fechar os olhos, ao insistirem, no súbito adormecer das andorinhas.
Daí a duas manhãs quis: queria o arco-íris. Choveu. E logo aparecia o arco-da-velha, sobressaído em verde e o vermelho – que era mais um vivo cor-de-rosa. Nhinhinha se alegrou, fora do sério, à tarde do dia, com a refrescação. Fez o que nunca lhe vira, pular e correr por casa e quintal.
- "Adivinhou passarinho verde?" – Pai e Mãe se perguntavam. Esses, os passarinhos, cantavam, deputados de um reino. Mas houve que, a certo momento, Tiantônia repreendesse a menina, muito brava, muito forte, sem usos, até a Mãe e o Pai não entenderam aquilo, não gostaram. E Nhinhinha, branda, tornou a ficar sentadinha, inalterada que nem se sonhasse, ainda mais imóvel, com seu passarinho-verde pensamento. Pai e Mãe cochichavam, contentes: que, quando ela crescesse e tomasse juízo, ia poder ajudar muito a eles, conforme à Providência decerto prazia que fosse.
E, vai, Nhinhinha adoeceu e morreu. Diz-se que da má água desses ares. Todos os vivos atos se passam longe demais.
Desabado aquele feito, houve muitas diversas dores, de todos, dos de casa: um de-repente enorme. A Mãe, o Pai e Tiantônia davam conta de que era a mesma coisa que se cada um deles tivesse morrido por metade. E mais para repassar o coração, de se ver quando a Mãe desfiava o terço, mas em vez das ave-marias podendo só gemer aquilo de – "Menina grande... Menina grande..." – com toda ferocidade. E o Pai alisava com as mãos o tamboretinho em que Nhinhinha se sentava tanto, e em que ele mesmo se sentar não podia, que com o peso de seu corpo de homem o tamboretinho se quebrava.
Agora, precisavam de mandar um recado, ao arraial, para fazerem o caixão e aprontarem o enterro, com acompanhantes de virgens e anjos. Aí, Tiantônia tomou coragem, carecia de contar: que, naquele dia, do arco-íris da chuva, do passarinho, Nhinhinha tinha falado despropositado de satino, por isso com ela ralhara. O que fora: que queria um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites de verdes brilhantes... A agouraria! Agora, era para se encomendar o caixãozinho assim, sua vontade?
O Pai, em bruscas lágrimas, esbravejou: que não! Ah, que, se consentisse nisso, era como tomar culpa, estar ajudando ainda Nhinhinha a morrer...
A Mãe queria, ela começou a discutir com o Pai. Mas, no mais choro, se serenou – o sorriso tão bom, tão grande – suspensão num pensamento: que não era preciso encomendar, nem explicar, pois havia de sair bem assim, do jeito, cor-de-rosa com verdes funebrilhos, porque era, tinha de ser! – pelo milagre, o de sua filhinha em glória, Santa Nhinhinha.