quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Análise: O enfermeiro - Machado de Assis


O Enfermeiro


Machado de Assis


Parece-lhe então que o que se deu comigo em 1860, pode entrar numa página de livro? Vá que seja, com a condição única de que não há de divulgar nada antes da minha morte. Não esperará muito, pode ser que oito dias, se não for menos; estou desenganado.
Olhe, eu podia mesmo contar-lhe a minha vida inteira, em que há outras cousas interessantes, mas para isso era preciso tempo, ânimo e papel, e eu só tenho papel; o ânimo é frouxo, e o tempo assemelha-se à lamparina de madrugada. Não tarda o sol do outro dia, um sol dos diabos, impenetrável como a vida. Adeus, meu caro senhor, leia isto e queira-me bem; perdoe-me o que lhe parecer mau, e não maltrate muito a arruda, se lhe não cheira a rosas. Pediu-me um documento humano, ei-lo aqui. Não me peça também o império do Grão-Mogol, nem a fotografia dos Macabeus; peça, porém, os meus sapatos de defunto e não os dou a ninguém mais.
Já sabe que foi em 1860. No ano anterior, ali pelo mês de agosto, tendo eu quarenta e dois anos, fiz-me teólogo, — quero dizer, copiava os estudos de teologia de um padre de Niterói, antigo companheiro de colégio, que assim me dava, delicadamente, casa, cama e mesa. Naquele mês de agosto de 1859, recebeu ele uma carta de um vigário de certa vila do interior, perguntando se conhecia pessoa entendida, discreta e paciente, que quisesse ir servir de enfermeiro ao coronel Felisberto, mediante um bom ordenado. O padre falou-me, aceitei com ambas as mãos, estava já enfarado de copiar citações latinas e fórmulas eclesiásticas. Vim à Corte despedir-me de um irmão, e segui para a vila.

Chegando à vila, tive más notícias do coronel. Era homem insuportável, estúrdio, exigente, ninguém o aturava, nem os próprios amigos. Gastava mais enfermeiros que remédios. A dous deles quebrou a cara. Respondi que não tinha medo de gente sã, menos ainda de doentes; e depois de entenderme com o vigário, que me confirmou as notícias recebidas, e me recomendou mansidão e caridade, segui para a residência do coronel.
Achei-o na varanda da casa estirado numa cadeira, bufando muito. Não me recebeu mal. Começou por não dizer nada; pôs em mim dous olhos de gato que observa; depois, uma espécie de riso maligno alumiou-lhe as feições, que eram duras. Afinal, disse-me que nenhum dos enfermeiros que tivera, prestava para nada, dormiam muito, eram respondões e andavam ao faro das escravas; dous eram até gatunos!
— Você é gatuno?
— Não, senhor.
Em seguida, perguntou-me pelo nome: disse-lho e ele fez um gesto de espanto. Colombo? Não, senhor: Procópio José Gomes Valongo. Valongo? achou que não era nome de gente, e propôs chamar-me tão-somente Procópio, ao que respondi que estaria pelo que fosse de seu agrado. Contolhe esta particularidade, não só porque me parece pintá-lo bem, como porque a minha resposta deu de mim a melhor idéia ao coronel. Ele mesmo o declarou ao vigário, acrescentando que eu era o mais simpático dos enfermeiros que tivera. A verdade é que vivemos uma lua-de-mel de sete dias.
No oitavo dia, entrei na vida dos meus predecessores, uma vida de cão, não dormir, não pensar em mais nada, recolher injúrias, e, às vezes, rir delas, com um ar de resignação e conformidade; reparei que era um modo de lhe fazer corte. Tudo impertinências de moléstia e do temperamento. A moléstia era um rosário delas, padecia de aneurisma, de reumatismo e de três ou quatro afecções menores. Tinha perto de sessenta anos, e desde os cinco toda a gente lhe fazia a vontade. Se fosse só rabugento, vá; mas ele era também mau, deleitava-se com a dor e a humilhação dos outros. No fim de três meses estava farto de o aturar; determinei vir embora; só esperei ocasião.
Não tardou a ocasião. Um dia, como lhe não desse a tempo uma fomentação, pegou da bengala e atirou-me dous ou três golpes. Não era preciso mais; despedi-me imediatamente, e fui aprontar a mala. Ele foi ter comigo, ao quarto, pediu-me que ficasse, que não valia a pena zangar por uma rabugice de velho. Instou tanto que fiquei.
— Estou na dependura, Procópio, dizia-me ele à noite; não posso viver muito tempo. Estou aqui, estou na cova. Você há de ir ao meu enterro, Procópio; não o dispenso por nada. Há de ir, há de rezar ao pé da minha sepultura. Se não for, acrescentou rindo, eu voltarei de noite para lhe puxar as pernas. Você crê em almas de outro mundo, Procópio?
— Qual o quê!
— E por que é que não há de crer, seu burro? redargüiu vivamente, arregalando os olhos.
Eram assim as pazes; imagine a guerra. Coibiu-se das bengaladas; mas as injúrias ficaram as mesmas, se não piores. Eu, com o tempo, fui calejando, e não dava mais por nada; era burro, camelo, pedaço d’asno, idiota, moleirão, era tudo. Nem, ao menos, havia mais gente que recolhesse uma parte desses nomes. Não tinha parentes; tinha um sobrinho que morreu tísico, em fins de maio ou princípios de julho, em Minas. Os amigos iam por lá às vezes aprová-lo, aplaudi-lo, e nada mais; cinco, dez minutos de visita. Restava eu; era eu sozinho para um dicionário inteiro.
Mais de uma vez resolvi sair; mas, instado pelo vigário, ia ficando. Não só as relações foram-se tornando melindrosas, mas eu estava ansioso por tornar à Corte. Aos quarenta e dois anos não é que havia de acostumarme à reclusão constante, ao pé de um doente bravio, no interior. Para avaliar o meu isolamento, basta saber que eu nem lia os jornais; salvo alguma notícia mais importante que levavam ao coronel, eu nada sabia do resto do mundo. Entendi, portanto, voltar para a Corte, na primeira ocasião, ainda que tivesse de brigar com o vigário. Bom é dizer (visto que faço uma confissão geral) que, nada gastando e tendo guardado integralmente os ordenados, estava ansioso por vir dissipá-los aqui.
Era provável que a ocasião aparecesse. O coronel estava pior, fez testamento, descompondo o tabelião, quase tanto como a mim. O trato era mais duro, os breves lapsos de sossego e brandura faziam-se raros. Já por esse tempo tinha eu perdido a escassa dose de piedade que me fazia esquecer os excessos do doente; trazia dentro de mim um fermento de ódio e aversão.
No princípio de agosto resolvi definitivamente sair; o vigário e o médico, aceitando as razões, pediram-me que ficasse algum tempo mais. Concedilhes um mês; no fim de um mês viria embora, qualquer que fosse o estado do doente. O vigário tratou de procurar-me substituto.
Vai ver o que aconteceu.

Na noite de vinte e quatro de agosto, o coronel teve um acesso de raiva, atropelou-me, disse-me muito nome cru, ameaçoume de um tiro, e acabou atirando-me um prato de mingau, que achou frio, o prato foi cair na parede onde se fez em pedaços.
— Hás de pagá-lo, ladrão! bradou ele.
Resmungou ainda muito tempo. Às onze horas passou pelo sono. Enquanto ele dormia, saquei um livro do bolso, um velho romance de d’Arlincourt, traduzido, que lá achei, e pus-me a lê-lo, no mesmo quarto, a pequena distância da cama; tinha de acordá-lo à meia-noite para lhe dar o remédio. Ou fosse de cansaço, ou do livro, antes de chegar ao fim da segunda página adormeci também. Acordei aos gritos do coronel, e levantei-me estremunhado. Ele, que parecia delirar, continuou nos mesmos gritos, e acabou por lançar mão da moringa e arremessá-la contra mim. Não tive tempo de desviar-me; a moringa bateu-me na face esquerda, e tal foi a dor que não vi mais nada; atirei-me ao doente, pus-lhe as mãos ao pescoço, lutamos, e esganei-o.
Quando percebi que o doente expirava, recuei aterrado, e dei um grito; mas ninguém me ouviu. Voltei à cama, agitei-o para chamá-lo à vida, era tarde; arrebentara o aneurisma, e o coronel morreu. Passei à sala contígua, e durante duas horas não ousei voltar ao quarto. Não posso mesmo dizer tudo o que passei, durante esse tempo. Era um atordoamento, um delírio vago e estúpido. Parecia-me que as paredes tinham vultos; escutava umas vozes surdas. Os gritos da vítima, antes da luta e durante a luta, continuavam a repercutir dentro de mim, e o ar, para onde quer que me voltasse, aparecia recortado de convulsões. Não creia que esteja fazendo imagens nem estilo; digo-lhe que eu ouvia distintamente umas vozes que me bradavam: assassino! assassino!
Tudo o mais estava calado. O mesmo som do relógio, lento, igual e seco, sublinhava o silêncio e a solidão. Colava a orelha à porta do quarto na esperança de ouvir um gemido, uma palavra, uma injúria, qualquer coisa que significasse a vida, e me restituísse a paz à consciência. Estaria pronto a apanhar das mãos do coronel, dez, vinte, cem vezes. Mas nada, nada; tudo calado. Voltava a andar à toa na sala, sentava-me, punha as mãos na cabeça; arrependia-me de ter vindo. — "Maldita a hora em que aceitei semelhante coisa!" exclamava. E descompunha o padre de Niterói, o médico, o vigário, os que me arranjaram um lugar, e os que me pediram para ficar mais algum tempo. Agarrava-me à cumplicidade dos outros homens.
Como o silêncio acabasse por aterrar-me, abri uma das janelas, para escutar o som do vento, se ventasse. Não ventava. A noite ia tranqüila, as estrelas fulguravam, com a indiferença de pessoas que tiram o chapéu a um enterro que passa, e continuam a falar de outra coisa. Encostei-me ali por algum tempo, fitando a noite, deixando-me ir a uma recapitulação da vida, a ver se descansava da dor presente. Só então posso dizer que pensei claramente no castigo. Achei-me com um crime às costas e vi a punição certa. Aqui o temor complicou o remorso. Senti que os cabelos me ficavam de pé. Minutos depois, vi três ou quatro vultos de pessoas, no terreiro espiando, com um ar de emboscada; recuei, os vultos esvaíram-se no ar; era uma alucinação.
Antes do alvorecer curei a contusão da face. Só então ousei voltar ao quarto. Recuei duas vezes, mas era preciso e entrei; ainda assim, não cheguei logo à cama. Tremiam-me as pernas, o coração batia-me; cheguei a pensar na fuga; mas era confessar o crime, e, ao contrário, urgia fazer desaparecer os vestígios dele. Fui até a cama; vi o cadáver, com os olhos arregalados e a boca aberta, como deixando passar a eterna palavra dos séculos: "Caim, que fizeste de teu irmão?" Vi no pescoço o sinal das minhas unhas; abotoei alto a camisa e cheguei ao queixo a ponta do lençol. Em seguida, chamei um escravo, disse-lhe que o coronel amanhecera morto; mandei recado ao vigário e ao médico.
A primeira idéia foi retirar-me logo cedo, a pretexto de ter meu irmão doente, e, na verdade, recebera carta dele, alguns dias antes, dizendo-me que se sentia mal. Mas adverti que a retirada imediata poderia fazer despertar suspeitas, e fiquei. Eu mesmo amortalhei o cadáver, com o auxílio de um preto velho e míope. Não saí da sala mortuária; tinha medo de que descobrissem alguma cousa. Queria ver no rosto dos outros se desconfiavam; mas não ousava fitar ninguém. Tudo me dava impaciências: os passos de ladrão com que entravam na sala, os cochichos, as cerimônias e as rezas do vigário. Vindo a hora, fechei o caixão, com as mãos trêmulas, tão trêmulas que uma pessoa, que reparou nelas, disse a outra com piedade:
— Coitado do Procópio! Apesar do que padeceu, está muito sentido.
Pareceu-me ironia; estava ansioso por ver tudo acabado. Saímos à rua. A passagem da meia escuridão da casa para a claridade da rua deu-me grande abalo; receei que fosse então impossível ocultar o crime. Meti os olhos no chão, e fui andando. Quando tudo acabou, respirei. Estava em paz com os homens. Não o estava com a consciência, e as primeiras noites foram naturalmente de desassossego e aflição. Não é preciso dizer que vim logo para o Rio de Janeiro, nem que vivi aqui aterrado, embora longe do crime; não ria, falava pouco, mal comia, tinha alucinações, pesadelos...
— Deixa lá o outro que morreu, diziam-me. Não é caso para tanta melancolia.
E eu aproveitava a ilusão, fazendo muitos elogios ao morto, chamando-lhe boa criatura, impertinente, é verdade, mas um coração de ouro. E elogiando, convencia-me também, ao menos por alguns instantes. Outro fenômeno interessante, e que talvez lhe possa aproveitar, é que, não sendo religioso, mandei dizer uma missa pelo eterno descanso do coronel, na igreja do Sacramento. Não fiz convites, não disse nada a ninguém; fui ouvi-la, sozinho, e estive de joelhos todo o tempo, persignando-me a miúdo. Dobrei a espórtula do padre, e distribuí esmolas à porta, tudo por intenção do finado. Não queria embair os homens; a prova é que fui só. Para completar este ponto, acrescentarei que nunca aludia ao coronel, que não dissesse: "Deus lhe fale n’alma!" E contava dele algumas anedotas alegres, rompantes engraçados...


Sete dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, recebi a carta do vigário, que lhe mostrei, dizendo-me que fora achado o testamento do coronel, e que eu era o herdeiro universal. Imagine o meu pasmo. Pareceu-me que lia mal, fui a meu irmão, fui aos amigos; todos leram a mesma cousa. Estava escrito; era eu o herdeiro universal do coronel. Cheguei a supor que fosse uma cilada; mas adverti logo que havia outros meios de capturar-me, se o crime estivesse descoberto. Demais, eu conhecia a probidade do vigário, que não se prestaria a ser instrumento. Reli a carta, cinco, dez, muitas vezes; lá estava a notícia.
— Quanto tinha ele? perguntava-me meu irmão.
— Não sei, mas era rico.
— Realmente, provou que era teu amigo.
— Era... Era...
Assim por uma ironia da sorte, os bens do coronel vinham parar às minhas mãos. Cogitei em recusar a herança. Parecia-me odioso receber um vintém do tal espólio; era pior do que fazer-me esbirro alugado. Pensei nisso três dias, e esbarrava sempre na consideração de que a recusa podia fazer desconfiar alguma cousa. No fim dos três dias, assentei num meio-termo; receberia a herança e dá-la-ia toda, aos bocados e às escondidas. Não era só escrúpulo; era também o modo de resgatar o crime por um ato de virtude; pareceu-me que ficava assim de contas saldas.
Preparei-me e segui para a vila. Em caminho, à proporção que me ia aproximando, recordava o triste sucesso; as cercanias da vila tinham um aspecto de tragédia, e a sombra do coronel parecia-me surgir de cada lado. A imaginação ia reproduzindo as palavras, os gestos, toda a noite horrenda do crime...
Crime ou luta? Realmente, foi uma luta, em que eu, atacado, defendi-me, e na defesa... Foi uma luta desgraçada, uma fatalidade. Fixei-me nessa idéia.
E balanceava os agravos, punha no ativo as pancadas, as injúrias... Não era culpa do coronel, bem o sabia, era da moléstia, que o tornava assim rabugento e até mau... Mas eu perdoava tudo, tudo... O pior foi a fatalidade daquela noite... Considerei também que o coronel não podia viver muito mais; estava por pouco; ele mesmo o sentia e dizia. Viveria quanto? Duas semanas, ou uma; pode ser até que menos. Já não era vida, era um molambo de vida, se isto mesmo se podia chamar ao padecer contínuo do pobre homem... E quem sabe mesmo se a luta e a morte não foram apenas coincidentes? Podia ser, era até o mais provável; não foi outra cousa. Fixeime também nessa idéia... Perto da vila apertou-se-me o coração, e quis recuar; mas dominei-me e fui. Receberam-me com parabéns. O vigário disse-me as disposições do testamento, os legados pios, e de caminho ia louvando a mansidão cristã e o zelo com que eu servira ao coronel, que, apesar de áspero e duro, soube ser grato.
— Sem dúvida, dizia eu olhando para outra parte.
Estava atordoado. Toda a gente me elogiava a dedicação e a paciência. As primeiras necessidades do inventário detiveram-me algum tempo na vila.
Constituí advogado; as cousas correram placidamente. Durante esse tempo, falava muita vez do coronel. Vinham contar-me cousas dele, mas sem a moderação do padre; eu defendia-o, apontava algumas virtudes, era austero...
— Qual austero! Já morreu, acabou; mas era o diabo.
E referiam-me casos duros, ações perversas, algumas extraordinárias.
Quer que lhe diga? Eu, a princípio, ia ouvindo cheio de curiosidade; depois, entrou-me no coração um singular prazer, que eu sinceramente buscava expelir. E defendia o coronel, explicava-o, atribuía alguma coisa às rivalidades locais; confessava, sim, que era um pouco violento... Um pouco?
Era uma cobra assanhada, interrompia-me o barbeiro; e todos, o coletor, o boticário, o escrivão, todos diziam a mesma coisa; e vinham outras anedotas, vinha toda a vida do defunto. Os velhos lembravam-se das crueldades dele, em menino. E o prazer íntimo, calado, insidioso, crescia dentro de mim, espécie de tênia moral, que por mais que a arrancasse aos pedaços recompunha-se logo e ia ficando.
As obrigações do inventário distraíram-me; e por outro lado a opinião da vila era tão contrária ao coronel, que a vista dos lugares foi perdendo para mim a feição tenebrosa que a princípio achei neles. Entrando na posse da herança, converti-a em títulos e dinheiro. Eram então passados muitos meses, e a idéia de distribuí-la toda em esmolas e donativos pios não me dominou como da primeira vez; achei mesmo que era afetação. Restringi o plano primitivo: distribuí alguma cousa aos pobres, dei à matriz da vila uns paramentos novos, fiz uma esmola à Santa Casa da Misericórdia, etc.: ao todo trinta e dous contos. Mandei também levantar um túmulo ao coronel, todo de mármore, obra de um napolitano, que aqui esteve até 1866, e foi morrer, creio eu, no Paraguai.
Os anos foram andando, a memória tornou-se cinzenta e desmaiada. Penso às vezes no coronel, mas sem os terrores dos primeiros dias. Todos os médicos a quem contei as moléstias dele, foram acordes em que a morte era certa, e só se admiravam de ter resistido tanto tempo. Pode ser que eu, involuntariamente, exagerasse a descrição que então lhes fiz; mas a verdade é que ele devia morrer, ainda que não fosse aquela fatalidade...
Adeus, meu caro senhor. Se achar que esses apontamentos valem alguma coisa, pague-me também com um túmulo de mármore, ao qual dará por epitáfio esta emenda que faço aqui ao divino sermão da montanha: "Bem aventurados os que possuem, porque eles serão consolados."



Fim


Fonte: ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II. Várias Histórias

Legenda:

Exposição;
Complicação;
Clímax;
Desfecho.

Análise



O conto, O enfermeiro é narrado em 1º pessoa pelo protagonista-narrador Procópio. Ele é convidado a cuidar de um velho enfermo, o coronel Felisberto, homem muito rude, o qual acaba sendo morto "acidentalmente" por Procópio. Essa obra literária começa com Procópio, já velho e à beira da morte, narrando a sua história sobre os meses infernais que passara ao lado do coronel, como se pode verificar no trecho que segue:

"Parece-lhe que o que se deu comigo em 1860, pode entrar numa página de livro? Vá que seja, com a condição única de que não há de divulgar nada antes da minha morte. Não esperará muito, pode ser que oito dias, se não for menos; estou desenganado. Olhe, eu podia mesmo contar-lhes minha vida inteira, em que há outras cousas interessantes, mas para isso era preciso tempo, ânimo e papel, e eu só tenho papel; o ânimo é frouxo, e o tempo assemelha-se à lamparina de madrugada (...) Não tarde o sol do outro dia, um sol dos diabos, impenetrável como a vida. Pediu-me um documento humano, ei-lo aqui".


O Enfermeiro é um típico relato machadiano. Humano, porém irônico e distanciado, trabalha com a imperfeição ética das personagens que são, claro, representantes típicos da espécie. O ceticismo de Machado levava-o a avaliar objetivamente a condição moral de seus semelhantes. Podemos notar que, após a morte do coronel Felisberto Procópio sentia-se culpado, mas com o passar do tempo a culpa foi cada vez ficando menor aos seus olhos.
O homem é mais uma vez retratado por Machado como um ser corrompido, egoísta, ingrato, oportunista e preso às forças malignas. Tais características podem ser observadas tanto em Procópio quanto no Coronel Felisberto. Esse pessimismo Machadiano em retratar a humanidade evidencia uma certa "má vontade" do autor em julgar o ser humano e a vida de uma maneira geral. Isto pode ser bem percebido no trecho abaixo:

"(...) Era homem insuportável, estúrdio, exigente, ninguém o aturava, nem os próprios amigos. Gastava mais enfermeiros que remédios. A dous deles quebrou a cara. (...) Se fosse só rabugento, vá; mas ele era também mau, deleitava-se com a dor e a humilhação dos outros. (...) Já por esse tempo tinha eu perdido a escassa dose de piedade que me fazia esquecer os excessos do doente; trazia dentro de mim um fermento de ódio e aversão".


Outro dado importante a destacar é a tematização da morte, a qual está vinculada, ao mesmo tempo, à decomposição moral – se julgarmos que foi o enfermeiro o causador de tal fato – e a decomposição carnal – se considerarmos a doença como causadora do falecimento do coronel. Esse teor dramático dado ao contemporâneo está relacionado à tragédia, a qual Machado acreditava ser o tema central da vida. Para ele, os melhores momentos da arte concentram-se na visão trágica da existência humana, como se pode observar nessa passagem:

"Quando percebi que o doente expirava, recuei aterrado, e dei um grito; mas ninguém me ouviu. Voltei à cama, agitei-o para chamá-lo à vida, era tarde; arrebentara o aneurisma, e o coronel morreu. Passei à sala contígua, e durante duas horas não ousei voltar ao quarto. Não posso mesmo dizer tudo o que passei, durante esse tempo. Era um atordoamento, um delírio vago e estúpido. (...) digo-lhe que eu ouvia distintamente umas vozes que me bradavam: assassino! Assassino!".

Durante a leitura, há uma mudança gigantesca não apenas nos perfis psicológicos das personagens como também em nossas próprias convicções iniciais. O enfermeiro passa de vítima da rudeza do Coronel à responsável pela morte do mesmo. O Coronel, de vilão e ingrato passa a ser visto como uma pessoa com um imenso sentimento de gratidão, ao deixar para o seu enfermeiro toda a sua fortuna. Logo, há um deslocamento de um esquema maniqueísta, onde se acredita que existam pessoas boas e pessoas ruins. Machado nos quer mostrar, portanto, que ninguém é tão bom ou tão mau quanto possa parecer. Os trechos que seguem ilustram bem esse fato, mostrando, na figura do enfermeiro, o modo como Machado representava esse conflito interior do ser humano entre o bem e o mal:

"Queria ver no rosto dos outros se desconfiavam; mas não ousava fitar ninguém. Tudo me dava impaciências (...) Vindo a hora, fechei o caixão, com as mãos trêmulas, tão trêmulas que uma pessoa, que reparou nelas, disse a outra com piedade:
- Coitado do Procópio! apesar do que padeceu está muito sentido.
Pareceu-me ironia; estava ansioso por ver tudo acabado. (...) Assim, por uma ironia da sorte, os bens do coronel vinham parar às minhas mãos. Cogitei em recusar a herança. (...) No fim dos três dias, assentei num meio-termo; receberia a herança e dá-la-ia toda, aos bocados e às escondidas. Não era só escrúpulo; era também o modo de resgatar o crime por um ato de virtude; pareceu-me que ficava assim de contas saldas (...) na posse da herança, converti-a em títulos e dinheiro. Eram então passados muitos meses, e a idéia de distribui-la toda em esmolas e donativos pios não me dominou como da primeira vez; achei mesmo que era afetação (...)".
Ao término desse conto, algumas dúvidas insistem em nos intrigar: Qual seria a real intenção de Procópio ao aceitar o serviço de enfermeiro? Será que ele foi o responsável pela morte de Felisberto, ou esta foi fruto da enfermidade? E quanto ao Coronel, será que ele era tão mau quanto parecia? Será que Felisberto não deixou a herança para o enfermeiro somente porque não tinha para quem deixar, ou até mesmo por simples arrependimento? E Quanto ao relato inicial de Procópio, este não tinha um tom de arrependimento, como se ele dissesse "Perdoe o meu pecado" - no caso, a morte do Coronel? Observe essa passagem, extraída do relato inicial do enfermeiro:
"Adeus, meu caro senhor, leia isto e queira-me bem; perdoe-me o que lhe parecer mau, e não maltrate muito a arruda, se lhe não cheira a rosas (...)".
Será isto uma possível confissão de Procópio? Observe outra passagem, extraída dos momentos finais do texto:
"Todos os médicos a quem contei as moléstias dele, foram acordes em que a morte era certa, e só se admiravam de ter resistido tanto tempo".
Nesse trecho residiria a constatação da inocência de Procópio, ou seria apenas um álibi que ele se utilizava para provar sua inocência? Enfim, tais questionamentos são frutos de uma técnica Machadiana, a qual se baseia em instaurar as dúvidas, ou seja, é a arte da sugestão, onde se espera que o leitor seja co-participante do texto, completando-o.
Concluímos, com isso, que Procópio –o enfermeiro- tinha uma aspecto de submissão ao coronel. Já o coronel Felisberto utilizava-se de autoritarismo. Procópio faz um flash-back dos dias em que trabalhou como enfermeiro, fato que acontecera entre os anos de 1859 e 1860.
E como todo o conto Machadiano, ele coloca na mão do leitor a tarefa de julgar, decidir, como lhe bem entender, fato que se dá no trecho citado a seguir:

"... perdoe-me o que lhe parecer mau.”

Análise da narrativa:

Personagens: redondo –físico.
Protagonista: o enfermeiro
Antagonista: o coronel Felisberto
Enredo (narrativa): psicológico.
Tempo: psicológico.
Espaço: Casa do coronel Felisberto numa vila do interior.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A Ilustre casa de Ramires


1. Introdução

Após uma análise sobre o romance, A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós, foi-nos proposto o desenvolvimento sobre a suposta evidência cabal de que o mesmo, segundo a tradição, que no final de sua vida e de sua obra, reconciliou-se com os valores tradicionais e com a cultura portuguesa, passando a vê-los como positivos e saudáveis.

Entretanto, apontaremos o contrário, e a ineficácia de tal afirmativa, ao provar que é nas últimas obras queirosiana – ao qual vão desde 1887 a 1900, conhecida como a terceira fase – que o autor construiu, em tal fase, as críticas mais severas ao país, sua sociedade e política e não mais diremos se tratar de uma crítica moralizante, muito menos da reconciliação com o país.

Descreveremos um detalhe de suma importância para nosso trabalho que é o fato do romance se tratar de uma narrativa passada no campo, o oposto dos anteriores da primeira fase: O crime do padre Amaro e Primo Basílio, ao qual se passam na cidade.

Assim, a partir de Os Maias, e nos póstumos romances, o ponto de vista passa a ser o do campo, mudando totalmente a forma de escrita, mas não deixando a crítica. A tal detalhe importante faremos nossa defesa, explicando-a e apontando tais informações, que são primordiais para o entendimento da análise do romance. Para isso, o contexto da história de Portugal e crucial para melhor entendermos o que estava acontecendo no mundo, ao final do século XIX e início do século XX.


2. Resumo Biográfico

José Maria Eça de Queirós, nasceu em Póvoa do Varzim (norte de Portugal). Filho de uma relação amorosa considerada ilícita, Eça foi criado longe dos pais, e desde de muito cedo o escritor teria sido marcado pela consciência aguda dos preconceitos e da hipocrisia da sociedade burguesa.

Entre 1861 e 1866 estudou Direito na tradicional Universidade de Coimbra, presenciando - sem participar diretamente - o início da Questão Coimbrã (também conhecida como a Questão do bom senso e do bom gosto), famosa polêmica que introduziu o Realismo em Portugal. Ligou-se por essa ocasião ao grupo renovador chamado “Escola de Coimbra”, responsável pela introdução do Realismo em Portugal. Eça não participou diretamente da “Questão Coimbrã” (1865), a polêmica em que jovens defensores de novas idéias literárias, artísticas e filosóficas liderados por Antero de Quental, defrontaram-se com os velhos românticos , ultrapassados e conservadores , liderados por Visconde de Castilho.

Entre 1867 e 1872 desenvolveu sua carreira jurídica, paralelamente às atividades de jornalista e escritor. Dedicou-se ao jornalismo depois de formado, e viajou pelo Oriente. Em 1871, participou das “Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense” (uma série de palestras proferidas pela juventude intelectual ávida de mudanças no cenário artísticos lusitano) – nova etapa da campanha que implantou em Portugal as novas perspectivas culturais do Realismo falando sobre o “Realismo como nova expressão da arte”. A partir desta data ingressa no serviço diplomático, servindo em vários países até alcançar o cobiçado posto de cônsul em Paris. Este contato direto com outros países e culturas mais “avançados” em relação a Portugal talvez tenham acentuado sua compreensão do provincianismo e do atraso do país, intensificando nele o desejo - característico de sua geração - de contribuir para a reforma da pátria.

No ano de 1886, Eça de Queirós se casa com Emília, filha do Conde de Resende, e se aproxima cada vez mais do ambiente da aristocracia portuguesa. Logo em seguida, em 1889, ingressa num grupo de intelectuais e políticos socialmente bem sucedidos e que, no entanto, se auto designavam como os Vencidos da Vida. Este sentimento de derrota advinha da consciência do fracasso de suas idéias críticas diante da realidade desoladora de Portugal. Em síntese, esse grupo de intelectuais apresentava uma complexidade ideológica bastante comum no final do XIX, fruto de uma mistura de Decadentismo, Niilismo e Aristocracismo, que por sua vez marcará a última fase da produção queirosiana.

A obra de Eça de Queirós é dividida em três fases. A primeira ainda próxima do espírito romântico, cujo melhor exemplo está em Prosas Bárbaras. A segunda, acentuadamente Realista-Naturalista, na qual o autor produz uma crítica ácida e ferina em relação à sociedade e à burguesia portuguesas e seus aspectos mais revoltantes. Nesta fase se encontram os romances mais combativos e virulentos de Eça de Queirós, entre eles O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e A Relíquia. Finalmente a terceira fase é marcada por um abrandamento da crítica e por um desejo de reconciliação com Portugal (defendido tal afirmativa pela tradição, ao qual nos opomos), aqui encontram-se romances famosos como A Ilustre Casa de Ramires e A cidades e as Serras.

Eça de Queirós viveu um dos períodos mais contraditórios da história e da literatura portuguesa, e sua obra acompanha de perto as oscilações ideológicas, sociais e culturais de seu tempo. Este é o representante maior da prosa realista em Portugal. Grande renovador do romance, abandonou a linha romântica – assim como afirma a tradição ao qual mais a frente mostraremos sua ineficácia ao relatar tal afirmativa -, e estabeleceu uma visão critica da realidade. Afastou-se do estilo clássico, que pendurou por muito tempo na obra de diversos autores românticos, deu a frase uma maior simplicidade, mudando a sintaxe e inovando na combinação das palavras. Evitou a retórica tradicional e os lugares comuns, criou novas formas de dizer, introduziu neologismos e, principalmente, utilizou o adjetivo de maneira inédita e expressiva. Este novo estilo só teve antecessor em Almeida Garrett e valeu a Eça a acusação de galicismo e estabeleceu os fundamentos da prosa moderna da Língua Portuguesa.

Assim, no dia 16 de Agosto de 1900 Eça morre em Paris. Deixava um episódio literário que veio a ser publicado aos poucos.

2.1 Obras

2.2 O Realismo/Naturalismo de Eça de Queirós

A falta de correspondência entre a imaginação romântica e a necessidade de uma arte realista e a crítica já havia sido deflagrada por ocasião da Questão Coimbrã (1865), em que o jovem poeta Antero de Quental polemizara contra o representante da literatura oficial, Antônio de Castilho. Contra essa literatura considerada “acéfala”, representante de um romantismo desgastado, surge o programa realista da geração de Eça de Queirós, formada por Antero de Quental, Oliveira Martins e Teófilo Braga, entre outros. Nas palestras proferidas sobre a nova arte, esses escritores declaravam que a função da literatura seria analisar a sociedade a partir da observação, e não da imaginação. Só a observação seria crítica e minuciosa realidade poderia servir de substrato a obras que se pretendiam revolucionárias, representantes de uma “arte de combater”. Tendo por mestres os escritores franceses Hyppolite Taine e Émile Zola, Eça de Queirós adere ao Naturalismo, segundo o qual a literatura deve-se nortear por uma perspectiva não só realista, mas também científica. Assim, a criação romanesca passaria a ser fruto dos fatores sociais que determinam os comportamentos humanos; como qualquer fenômeno natural, esses comportamentos (especialmente anômalos) poderiam ser definidos a priori, desde que se estudassem as circunstâncias externas que o produziram. Surge o romance de tese, em que situações e personagens são concebidas para demonstrar as causas de certos problemas sociais. Norteado por essa concepção de literatura, Eça de Queirós escreve O Crime do Padre Amado (1875) e O Primo Basílio (1878). Nos últimos livros de Eça de Queirós, verifica-se a questão, ao qual, o tradicionalismo diz que o mesmo abandonou as convicções antigas, mudando sua opinião e forma de escrever, não mais atacando a sociedade lisboense, abandonando, assim, o programa da “literatura de combate”, profissão de fé do Realismo/Naturalismo, para assim mostrar as belezas de Portugal. Tal questão será melhor explicada mais a frente.

2.3 Portugal da época de Eça de Queirós

Portugal, país ao qual o passado fora coberto de glória, mas cujo presente de humilhações frente ao cenário político internacional; que no passado, alçara à condição de grande império ultramarino e, no presente, vive uma crise decorrente da instabilidade política e da ausência de projetos nacionais; tal é o perfil de Portugal no fim do século XIX. O liberalismo, vigente No país desde 1834 com a instituição das Cortes Constituintes, não fora capaz de ditar novos rumos para a economia portuguesa, que perdera sua maior colônia com o advento da independência do Brasil. Sem ter apresentado grandes avanços na indústria, Portugal se vê à margem do novo sistema vigente na Europa, o capitalismo industrial e financeiro. Em 1851, um golpe introduz no país a proposta de Regeneração, baseada na necessidade de “progresso”, ou seja, de desenvolvimento industrial. Com efeito, esta trouxe algum progresso, mas a distância que separava Portugal dos demais países europeus ainda era enorme. Por exemplo, em 1856, enquanto a Inglaterra contava com doze mil quilômetros de ferrovias, Portugal inaugurava sua primeira estrada de ferro, abrangendo 36 quilômetros. Os partidos Regenerador e Histórico (oposição) alternaram-se no poder, mas não apresentaram mudanças substanciais para oferecer ao país condições de rivalizar com as demais potências. Outro fator que coloca Portugal em desvantagem é a sua impotência diante da política imperialista adotada pelos países desenvolvidos no fim do século XIX. Na corrida neocolonialista que toma lugar no quadro geopolítico internacional, Inglaterra é o novo império ultramarino, seguido por França, Bélgica, Alemanha e Itália. Desde o século XVII, Portugal mantinha com o reino britânico uma relação de dependência e subserviência que culminou na disputa neocolonialista por territórios africanos. O fator agravante dessa disputa foi o Ultimato inglês: em 1890, a Inglaterra ordenara que Portugal retirasse suas tropas da região entre Moçambique e Angola (colônias portuguesas na África), e a ordem foi submissamente acatada pelo país ibérico. O orgulho português ferido foi o mote usado pela campanha republicana, que se fortaleceu até que, em 1910, o sistema monárquico foi extinto.


3. A Ilustre Casa de Ramires: Resumo da Obra

3.1 O Romance de Gonçalo Ramires

Gonçalo Mendes Ramires retorna - após a conclusão do curso de Direito em Coimbra e após uma breve estadia em Lisboa - para suas terras no interior de Portugal, próximas à cidade de Oliveira e à Vila Clara. Aí reencontra a mesma monotonia provinciana de anos atrás. Sua irmã, Graça Ramires, está casada com o rico e simplório José Barrolo, chamado pelos colegas de bacoco, num claro deboche de sua simplicidade de parvo.

Os seus bons e inseparáveis companheiros, Titó (Antônio Villalobos), João Gouveia (Administrador da aldeia de Vila Clara) e o músico Videirinha - que há muito vem escrevendo um fado, ajudado pelo padre Soeiro, sobre os feitos heróicos da ilustre casa de Ramires - continuam os mesmos. E os criados da casa, Rosa e Bento estão a levar a vida de sempre.
Acima de tudo, o oprime a mediocridade da vida provinciana e a necessidade imperativa de se impor na vida política nacional, o que lhe parece ser a única saída possível para a sua condição de fidalgo decaído.

Dentro deste espírito e incitado por um amigo, o José Castanheiro (editor de uma revista a ser lançada em breve e chamada Anais de Literatura e de História), ele resolve escrever uma novela (A Torre de D. Ramires) sobre um velho e ilustre antepassado: Tructesindo Ramires. Assim, tendo como cenário os restos da antiga fortificação medieval erguida por seus remotíssimos avós, e que se encontram na sua Quinta de Santa Irinéia, ele se põe a recontar a história de sua casa e de Portugal. Da fortificação resta, na verdade, apenas os escombros da velha torre, como do glorioso passado português resta apenas à recordação.
Para tal fim Gonçalo lança mão um poema já escrito por um tio materno, que ele - com ajuda de outros livros de inspiração medieval (Alexandre Herculano e Walter Scott) -vai vertendo para uma prosa na maioria das vezes banal. No entanto, a tarefa não é fácil e muitas vezes se torna estafante. Paralelamente à escritura da novela, ele se envolve com as atividades do cotidiano, que passam pela administração da quinta, e é obrigado a enfrentar situações que demonstram a fraqueza de seu caráter. A mais marcante se dá quando ele se vê obrigado a arrendar a quinta para um lavrador conhecido como José Casco, e empenha sua palavra no negócio. Porém, logo em seguida um outro lavrador melhor qualificado, o Manuel Pereira , lhe oferece uma quantia maior pelo mesmo direito de arrendamento, e Gonçalo aceita a segunda proposta se esquecendo da palavra já empenhada ao Casco.

Aliás, este episódio coincide narrativamente com um momento no qual Gonçalo conta os feitos heróicos de seu longínquo antepassado Tructesindo, que justamente entra num combate para não recuar da palavra empenhada. Aqui Eça de Queirós, através de uma ironia fina, demonstra o caráter frágil desta aristocracia incapaz de dar continuidade à grandeza do passado português. Porém, lentamente Gonçalo caminhará para a redescoberta destes valores heróicos de seu passado, alterando sua trajetória pessoal.

A transformação de Gonçalo pode ser interpretada como um símbolo do destino Português, e traz elementos típicos do romance de formação. Outro fato também o desagrada sumamente: o sucesso político de André Cavaleiro, outrora seu grande amigo, e “namorado” de sua irmã. Gonçalo nutre por ele um ódio que se manifesta publicamente por meio de comentários violentos envolvendo via de regra a bigodeira do Cavaleiro. Este, por sua vez, ocupa agora o lugar de Governador Civil de Oliveira, cargo antes exercido pelo falecido pai de Gonçalo. A ruptura, sem nenhuma justificativa, do namoro existente entre André e Gracinha está na origem desse rancor que os separa. Inesperadamente, o Deputado Sanches Lucena, velho e rico proprietário da região, falece deixando toda a fortuna para a esposa D. Ana Lucena e uma cadeira vaga no parlamento. Eis a chance tão esperada. No entanto, a indicação para o lugar passa diretamente pela vontade do Governador Civil. Aconselhado pelo amigo João Gouveia e movido pelo interesse, ele reata sua amizade com André Cavaleiro, para assombro de toda a cidade. O que não se dá sem que antes ele sofra uma aguda crise de consciência, pois tal reconciliação implica na aproximação entre o Governador e Gracinha, que ainda nutre sentimentos inconfessos pelo antigo namorado. Eis aí a sombra de um possível adultério. Aliás, tema tão caro aos romances da segunda fase de Eça de Queirós.

Com a reconciliação, começa a campanha de Gonçalo em direção ao parlamento. Porém, em meio aos preparativos, ele surpreende um encontro furtivo entre a irmã e o Cavaleiro. Horrorizado ele se retira para a quinta e se afasta da irmã, do cunhado e do suposto amigo. Neste momento, Gonçalo decide retomar a sua narrativa, e passa a considerar a possibilidade de se casar com a viúva do Lucena (agora uma mulher riquíssima), apesar de sentir uma forte repulsa por ela.

Em meio a todos estes acontecimentos, uma noite Gonçalo tem um pesadelo no qual seus remotíssimos antepassados lhe depositam no colo suas armas e o incitam a seguir-lhes o caminho da bravura. Na manhã que sucede a este pesadelo, Gonçalo resolve sair a cavalo e reencontra acidentalmente um camponês (o valentão Ernesto de Nacejas) que já o havia destratado duas vezes, sem que o fidalgo houvesse esboçado a menor reação de revidar as ofensas sofridas, tal era o seu grau de covardia diante dos perigos da vida.
Nesta manhã, inexplicavelmente, Gonçalo sente-se tomado de uma energia e de uma coragem que até então lhe eram desconhecidas: ele enfrenta o inimigo com violência, ao ponto de quase desfigurar-lhe a face com um chicote. Depois da luta ele retorna à quinta, e para sua surpresa reencontra a irmã e o cunhado.

Neste mesmo dia, ao conversar com cunhado, Gonçalo descobre que o Cavaleiro estava ausente de Oliveira há algum tempo. E, portanto, afastado de Graçinha. Reconciliado parcialmente com a própria consciência, ele retoma sua campanha política. Lentamente Gonçalo vai descobrindo a simpatia que as pessoas nutrem por sua pessoa e por sua nobre origem, sentimento que ele mal suspeitara até então, e que lhe faz perceber que ele seria eleito mesmo sem a ajuda do Governador Civil.

Chega o dia da eleição e Gonçalo vence. Nesta mesma noite, ao contemplar o vale do alto da torre iluminada, ele percebe com clareza a mesquinhez de seu caráter e de seus objetivos.
Alguns meses depois, o fidalgo parte para Lisboa, assume o cargo e começa a levar uma vida mundana, até que inexplicavelmente desiste de tudo e viaja para a Zambézia na África, de onde retorna, quatro anos depois, rico e estabelecido.

3.2 A novela A Torre de D. Ramires

Gonçalo Mendes Ramires, inspirado num poemeto épico escrito por um tio e publicado num periódico de província (O Bardo), resolve contar os feitos heróicos de sua estirpe, em especial de Tructesindo Ramires. Este nobre antepassado de Gonçalo tudo sacrificou, inclusive a vida do próprio filho, para defender a palavra e a honra empenhada. Tructesindo Ramires, fiel vassalo e alferes-mor de D. Sancho, jurara a este rei defender a honra e vida da infanta D. Sancha. Com a morte do monarca abre-se uma luta pela sucessão e pela afirmação de D. Afonso II no trono de Portugal, e este se indispõe com suas irmãs D. Teresa e D. Sancha. A infanta busca ajuda e apoio no rei de Leão e Castela (tradicionais inimigos da nação portuguesa), e convoca o socorro de Tructesindo Ramires. Este atende prontamente ao apelo da infanta - consciente que lutará ao lado de antigos inimigos - e manda seu próprio filho, Lourenço Ramires, a frente de uma primeira força guerreira, enquanto ele próprio prepara um grupo fortemente armado que lhe seguirá.

Lourenço é interceptado em meio da jornada por um grupo fortemente armado e comandado por Lopo de Baião, o Bastardo, que fora enviado por D. Afonso II, com ordens de impedir o avanço das forças de Tructesindo. No entanto, por atrás deste motivo aparente Lopo de Baião esconde um desejo de vingança pessoal, pois no passado ele havia se apaixonado por D. Violante, filha de Tructesindo, que havia lhe negado a dama em casamento. As duas forças se enfrentam duramente, Lourenço sai derrotado, e é feito prisioneiro pelo Bastardo, que em seguida marcha em direção ao castelo dos Ramires. Ao alcançar as fortes muralhas, ele manda um arauto solicitar uma audiência com Tructesindo. Durante o diálogo Lopo de Baião tenta demover o velho guerreiro de ajudar a infanta e insiste em alcançar a permissão de se unir a D. Violante. Tructesindo Ramires mostra-se irredutível em relação às duas propostas, e o Bastardo degola impiedosamente Lourenço diante dos olhos do pai. Em seguida, foge com seus guerreiros. Tructesindo mantém-se quase imperturbável diante da morte do filho, e sai em busca do covarde assassino. Em meio a perseguição seu grupo chega a uma encruzilhada e o chefe guerreiro ordena que três batedores encontrem a pista de Lobo de Baião. Com as informações trazidas por eles, D. Garcia Veigas, o Sabedor - amigo e companheiro fiel de Tructesindo - descobre a estratégia de fuga do Bastardo. Eles também ficam sabendo que há pouca distância está D. Pedro de Castro, amigo do velho Ramires e partem em busca de abrigo em suas terras. D. Garcia elabora um plano de captura do traidor covarde. A estratégia é colocada imediatamente em prática e obtém sucesso. Lopo de Baião cai prisioneiro das forças de Tructesindo e é submetido a uma morte humilhante e dolorosíssima: ele é amarado aos restos de uma ponte num lago infestado de sanguessugas que lentamente lhe consomem até a última gota de sangue.

Interessante é observar que esta cena final, tão adequada ao passado glorioso e guerreiro de Portugal, apresenta também um claro viés Naturalista pela crueza da descrição de aspectos fisiológicos cruéis e repulsivos. A elaboração estética da cena está de acordo com os objetivos de Gonçalo ao escrever sua novela histórica, pois ele desejava dar um forte colorido Realista à narrativa despindo-a das brumas românticas nas quais seu tio havia envolvido a trágica história de Tructesindo Ramires.

3.3. A Análise da Obra

A Ilustre Casa de Ramires, como é notório, trata-se de uma obra que Eça de Queirós não chegou a ver publicada, razão pela qual se costuma designá-la como semi-póstuma. Considerado, inquestionavelmente, um dos seus romances mais importantes, reflexo de muito trabalho e almejo pela perfeição, característica peculiar da escrita queirosiana, nele existem diferenças entre o que aborda a tradição e o que defenderemos a seguir. Com isso, o presente estudo, portanto, busca apontar a ineficácia das afirmações feitas pela tradição, ao qual defende, segundo Moisés (1990):

“A terceira e última fase da carreira de Eça de Queirós corresponde aos anos seguintes à publicação dOs Maias (1888) até à morte do escritor (1900). Alcançando a maturidade, o escritor resolve erguer uma obra de sentido construtivo, fruto da dolorosa consciência de ter investido inutilmente contra o burguês e a família. Ao derrotismo e pessimismo analítico da etapa anterior, sucede um momento de otimismo, de esperança e , transubstanciado em idealismo não mais científico, mas tendo por base o culto dos valores rechaçados. A Ilustre Casa de Ramires (1900) [...] contém a viragem operada em sua carreira, dirigida agora no sentido da superação da ironia, pelo menos da ironia zombeteira, e da sátira dissolvente. A crença substitui o ceticismo cínico e corrosivo de antes”. (Moisés, A literatura portuguesa, 1990 [25ª. ed.1990], p. 196.)

Em contraposição a tal afirmativa, temos uma outra defesa, ao qual nos é mais coerente. Este, por sua vez, relata que não se trata de uma evidência cabal, ao qual Eça de Queirós, no final de sua vida e de sua obra, reconciliou-se com os valores tradicionais e com a cultura portuguesa, passando a vê-los como positivos e saudáveis, mas sim, em contrapartida, é afirmado por Maia (2000):

“para expor a fragilidade deste esquema em que se baseia a interpretação tradicional da trajetória de Eça, é oportuno lembrar que justamente neste período de maturidade, supostamente marcado pelo conservadorismo do escritor, ele escreve seus textos mais críticos do ponto de vista político e social, que, por exemplo, expõem uma crítica severa ao poder econômico da burguesia e prevêem até mesmo (embora sem defendê-la) a tomada do poder pelo emergente proletariado e o conseqüente ‘desmanche’ do capitalismo”. (MAIA, 2000, p. 133)

Por conseguinte, podemos afirmar que vem à baixo toda a afirmação do tradicionalismo. Com isso, podemos dizer que é sim nestas últimas obras (1887 a 1900, conhecida como a terceira fase queirosiana) contém as críticas mais severas ao país, sua sociedade e política, e não o contrário, o que diz se tratar de uma crítica moralizante, de reconciliação com o país.

Em fim, podemos considerar segundo a afirmação de Siqueira (2003, p. 1), que “Eça não estaria abandonando os seus ideais socialistas, mas transformando os romances de panfletos em expressões líricas de uma realidade que possuía qualidades e potencialidades”.

O que nos é mais proveitoso em tal defesa é que o romance se passa no campo, e não na cidade. Aspectos relevantes que nos fazem pensar na diferença ao qual Eça usou uma forma diferencia na escrita, mas sem perder o estilo das fases anteriores. Pois, como nos é sabido, a primeira fase: O crime do padre Amaro e Primo Basílio, é passado na cidade. Já a partir de Os Maias, e nos últimos romances, o ponto de vista passa a ser o do campo. Segundo Siqueira (2003):

“Resgatando valores históricos da vida rural lusitana e contrapondo-os aos vícios e às vicissitudes da existência urbana, o escritor – ao assumir o timing da pulsação do campo, as qualidades de seu modo reflexivo devidas à proximidade com a natureza – vai substituindo a crítica por um desejo de entendimento e reflexão sobre a vida social lusitana”. (SIQUEIRA, 2003, p.1)

Em suma, é nos fácil afirmar que Eça apresenta-nos em sua obra o impasse do momento de transição que a sociedade portuguesa estava passando. Com isso, fica-nos claro a passada de uma posição para outra na relação campo-cidade – de igual forma a da vida social do país, ao qual se alternava entre os dois pólos.

Com isso, como cita Siqueira, p. 4, tal ideia nos leva a “concluir que a atenção de Eça estava bastante inclinada para a problemática neocolonialista e suas repercussões políticas e culturais”. Assim, é fácil notarmos a importância de uma interpretação da obra queirosiana por uma dialética da relação campo-cidade – feita por Antônio Cândido[1].

Por conseguinte, percebemos que a primeira fase dessa obra ancora-se numa dialética positiva, própria da dinâmica do sistema capitalista; nas obras da fase final, uma dialética negativa informa a estrutura dos romances.



4. Considerações Finais

Após a realização deste trabalho podemos concluir que, A Ilustre casa de Ramires, de Eça de Queirós, não se trata de uma evidência cabal de que o autor, no final de sua vida e de sua obra, reconciliou-se com os valores tradicionais e com a cultura portuguesa, passando a vê-los como positivos e saudáveis. Pelo contrário, notamos que o mesmo se trata de uma das maiores obras, onde Eça usou de uma crítica severa a seu país.

É notório apontar a grande importância de uma interpretação bem feita da obra queirosiana. Com isso, o uso de dialética da relação campo-cidade foi de suma importância para o entendimento e defesa de nosso trabalho. Assim, fica-nos evidente que a primeira fase dessa obra ancora-se numa dialética positiva, própria da dinâmica do sistema capitalista; nas obras da fase final, como a estuda, aplica-se a uma dialética negativa.

Por conseguinte, podemos afirmar que o autor, Eça de Queirós, no fim da vida e de sua obra, não mudou seu modo de pensar e ver Portugal, mas, sobretudo, desenvolveu um outro método de escrita, utilizando-se de elementos do campo, ao invés da cidade.


[1] “Entre campo e cidade”, in Tese e antítese.