terça-feira, 8 de maio de 2012

A presença da Morte nas Obras de Manuel Bandeira e Castro Alves



Manuel Bandeira


1. Biografia

Filho do engenheiro Manuel Carneiro de Sousa Bandeira e de sua esposa Francelina Ribeiro, era neto paterno de Antônio Herculano de Sousa Bandeira, advogado, professor da Faculdade de Direito do Recife e deputado geral na 12ª legislatura. Tendo dois tios reconhecidamente importantes, sendo um, João Carneiro de Sousa Bandeira, que foi advogado, professor de Direito e membro da Academia Brasileira de Letras e o outro, Antônio Herculano de Sousa Bandeira Filho, que era o irmão mais velho do engenheiro Sousa Bandeira e foi advogado, procurador da coroa, autor de expressiva obra jurídica e foi também Presidente das Províncias da Paraíba e de Mato Grosso.
Seu avô materno era Antônio José da Costa Ribeiro, advogado e político, deputado geral na 17ª legislatura. Costa Ribeiro era o avô citado em Evocação do Recife. Sua casa na rua da União é referida no poema como "a casa de meu avô".
Em 1904 terminou o curso de Humanidades e foi para São Paulo, onde iniciou o curso de arquitetura na Escola Politécnica de São Paulo, que interrompeu por causa da tuberculos. Para se tratar buscou repouso em Campos do Jordão, Campanha e outras localidades de clima mais ameno. Com a ajuda do pai que reuniu todas as economias da família foi para Suíça, onde esteve no Sanatório de Clavadel, onde conheceu o jovem Paul Eugene Glidel, que mais tarde se tornou conhecido poeta francês sob o nome de Paul Eluard, e Gala, que foi esposa de Paul Eluard e posteriormente esposa de Salvador Dali.
Manuel Bandeira faleceu no dia 13 de outubro de 1968 com hemorragia gástrica aos 82 anos de idade, diante da sobrinha Helena Bandeira Cardoso ,no Hospital Bom Samaritano, no Rio de Janeiro, e foi sepultado no mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

2. A presença da morte na Obra de Bandeira

A morte também aparece frequentemente na obra bandeiriana e José Lins do Rego explicou muito bem porque, em sua contribuição à obra coletiva de 1936 Homenagem a Manuel Bandeira: "Nada se parece mais com Manuel Bandeira que a sua poesia. O homem não é no seu caso o outro lado da sua arte, como sucede com Augusto Frederico Schmidt, que a gente lê espantado, sem encontrar um jeito de ligar a poesia com o seu autor." Manuel Bandeira foi, portanto, o contrário de Fernando Pessoa, para quem "o poeta é um fingidor".
Ele viu a Morte tão de perto que ela se tornou o seu tema preferido. Não fingia, portanto, nem romantizava quando escrevia, em 1912, concluindo o segundo poema de seu livro de estréia, em 1917, A Cinza das Horas: "- Eu faço versos como quem morre." Até num livro que se chama Carnaval - o segundo por ele publicado, em 1919 - a Morte aparece como "Dama Branca":

"A Dama Branca que eu encontrei,
Há tantos anos,
Na minha vida sem lei nem rei,
Sorriu-me em todos os desenganos.
Essa constância de anos a fio,
Sutil, captara-me. E imaginai!
Por uma noite de muito frio
A Dama Branca levou meu pai."

Em Libertinagem, livro publicado em 1930, aparecem, além de "Pneumotórax", o "Poema de Finados" e "O Último Poema", que é uma de suas obras-primas, escrito com uma compulsão responsável pela eliminação de vírgulas e pontos:

"Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação."

Como era natural que acontecesse, a Morte reaparece com mais frequência nos dois últimos livros de Manuel Bandeira: Opus 10 e Estrela da Tarde. Ambos surgiram inicialmente em edições para bibliófilos, a primeira impressa em Niterói por Thiago de Melo e Geir Campos (Hipocampo) em 1952 e a segunda na Bahia (Dinamene) em 1960. Os seis últimos poemas de Estrela da Tarde estão agrupados sob o título "Preparação para a Morte".


Castro Alves


        1. Biografia

Sua mãe faleceu em 1859. O pai se casou por segunda vez em 24 de janeiro de 1862 com a viúva Maria Rosário Guimarães. No dia seguinte ao do casamento, o poeta e seu irmão Antônio José partiram para o Recife, enquanto o pai se mudava para o solar do Sodré.
Em maio, submeteu-se à prova de admissão para o ingresso na Faculdade de Direito do Recife sendo reprovado.
No dia 17 de maio, Castro Alves publicou no primeiro número de A Primavera seu primeiro poema contra a escravidão: A canção do africano. A tuberculose se manifestou e em 1863 teve uma primeira hemoptise.
Em 1864 seu irmão José Antônio, que sofria de distúrbios mentais desde a morte de sua mãe, suicidou-se em Curralinho. Ele enfim consegue matricular-se na Faculdade de Direito do Recife e em outubro viaja para a Bahia. Só retornaria ao Recife em 18 de março de 1865, acompanhado por Fagundes Varela.
Em 1866, tornou-se amante de Eugênia Câmara. Em março, viajou com Eugênia para São Paulo. Decidira ali - na Faculdade de Direito de São Paulo - continuar seus estudos, e se matriculou no terceiro ano.
Desfaz-se em 28 de agosto de 1868 sua ligação com Eugênia Câmara. Castro Alves foi aprovado nos exames da faculdade de Direito e a 11 de novembro - tragédia de grandes consequências - se feriu no pé, durante uma caçada. Tuberculoso, aventara uma estadia na cidade de Caetité, onde moravam seus tios e morrera o avô materno. Mas, antes disso, ainda em São Paulo, na tarde de 11 de novembro, resolveu realizar uma caçada na várzea do Brás e feriu o pé com um tiro. Disso resultou longa enfermidade, cirurgias, chegando ao Rio de Janeiro no começo de 1869, para salvar a vida, mas com o martírio de uma amputação. Os cirurgiões e professores da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Andrade Pertence e Mateus de Andrade, amputaram seu membro inferior esquerdo sem qualquer anestesia.
Em março de 1869, matriculou-se no quarto ano do curso jurídico, mas a 20 de maio, tendo piorado seu estado, decidiu viajar para o Rio de Janeiro, onde seu pé foi amputado em junho.
Em fevereiro de 1870 seguiu para Curralinho para melhorar a tuberculose que se agravara, viveu na fazenda Santa Isabel, em Itaberaba. Em setembro, voltou para Salvador. Ainda leria, em outubro, A cachoeira de Paulo Afonso para um grupo de amigos, e lançou Espumas flutuantes.
Morreu às três e meia da tarde, no solar da família no Sodré, Salvador, Bahia, em 6 de julho de 1871.
2. A presença da Morte na poesia de Castro Alves
Nessa perspectiva em que a obra escreve a vida, em Castro Alves, como em outros poetas do Romantismo, o movimento que parte da obra dinamiza a vida e faz eclodir a morte. Chegada a morte, já não se pode fruí-la no plano meramente humano, pois o suspiro que antecede a chegada da morte (ainda mesclada à vida, nesse estágio) – aquele suspiro que fez Goethe pedir “Luz, mais luz!” – não permite que a morte seja fruída em vida. Todavia, na poesia a morte assume, por vezes, todo o espaço, preenche o interstício mínimo que separa a palavra do silêncio.
Morte e vida alçam-se a uma dimensão, na poesia de Castro Alves. A vida do poeta não é a vida do mundo, embora só possa existir partida do mais íntimo mergulho na existência. A partir desse enraizamento na vida, o desenraizamento pela morte.
Através da imersão na vida – na qual todos os sentidos participam, em nosso poeta, num sensualismo avassalador em que os elementos dionísicos parecem conclamá-lo a deter-se na totalidade da matéria em sua irrupção selvagem, expressos no plano verbal por intenso processo sinestésico – a descoberta de sua ausência. No relato lírico do instante que passa, o contato vivo com a matéria alcança o momento em que tudo estanca:

Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh’alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n’amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
– Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.
Mas uma voz responde-me sombria
“Terás o sono sob a lájea fria”.

E em seguida:

E eu sei que vou morrer...
dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida:
Triste Ahasverus, que no fim da estrada,
Só tem por braços uma cruz erguida.
Sou o cipreste, qu’inda mesmo florido,
Sombra de morte no ramal encerra!
Vivo – que vaga sobre o chão da morte,
Morto – entre os vivos a vagar na terra.

Esse, o movimento do poeta: retira-se da vida através de uma experiência estigmatizada, Ahasverus ou Cristo que não pode fugir a seu destino, já que é um ser de eleição.
E o que a poesia revela a seus eleitos? “Sofrer, sofrer e mais sofrer”, disse um outro poeta. Sofrer por estar sempre entre, sempre na fronteira. Então, modestamente, nesse limite que separa a vida da morte, o finito do infinito, a palavra do silêncio, usando duas vozes, vivendo em dois mundos, o poeta escreve sua poesia, onde se imprime essa iminente interfusão de níveis, possível apenas, e fugazmente, no fazer poético.

Conclusão

Após leitura e análise da vida e obra destes dois escritores, e surpreendentes poetas brasileiros, percebemos a vida em comum de ambos. Tanto Castro Alves, como Manuel Bandeira sofriam do mesmo mal – a tuberculose.
Contudo, percebemos a ideia de continuidade nos poemas de Bandeira em relação aos com a temática da morte, de Castro Alves.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Poema de João Cabral de Mello Neto



A educação pela pedra


Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.


1. Características do Poema e do Poeta

Publicado em 1965, A Educação Pela Pedra, de João Cabral de Mello Neto, reúne os traços determinantes de sua obra. Além da excelência de sua poesia pela consciência construtiva da linguagem, João Cabral consegue ser uma singular forma de realização do que se pode compreender por linguagem poética. Apesar de ter produzido livros fundamentais até o final do século XX, A Educação pela Pedra vale como espécie de módulo quadrangular da obra como um todo.
A Educação pela pedra significa um importante momento na trajetória inventiva de João Cabral de Melo Neto. Pode-se dizer que essa obra representa o efeito de um trabalho progressivo que teve o seu início em 1942, com a publicação de Pedra do Sono, e que continuou, passando por estágios de tensão interna, verdadeiros pontos nevrálgicos para a escala da sua invenção.

2. João Cabral de Mello Neto

Nasceu em 9 de janeiro de 1920, Recife, e faleceu em 9 de outubro de 1999, Rio de Janeiro. Foi um poeta e diplomata brasileiro. Sua obra poética, caracterizada pelo rigor estético, com poemas avessos a confessionalismos e marcados pelo uso de rimas toantes, inaugurou uma nova forma de fazer poesia no Brasil.
Irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo e primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre, João Cabral foi amigo do pintor Juan Miró e do poeta Joan Brossa. Membro da Academia Pernambucana de Letras e da Academia Brasileira de Letras, foi agraciado com vários prêmios literários. Quando morreu, em 1999, especulava-se que era um forte candidato ao Prêmio Nobel de Literatura.

3. Sobre sua Obra

Quando o leitor é confrontado com a poesia de Cabral percebe-se, a princípio, de um certo número de algumas dualidades antitéticas, por vezes obsessivas. Entre espaço e tempo, entre o dentro e o fora, entre o maciço e o não-maciço... Entre o masculino e o feminino, entre o Noroeste desértico e a Andaluzia fértil, ou entre a Caatinga desértica e o úmido Pernambuco. É uma poesia que causa algum estranhamento porque não é emotiva, mas sim cerebral. Melo Neto não recorre ao pathos ("paixão") para criar uma atmosfera poética, mas a uma construção elaborada e pensada da linguagem e do dizer da sua poesia.
Algumas palavras são usadas sistematicamente na poesia deste autor: cana, pedra, osso, esqueleto, dente, gume, navalha, faca, foice, lâmina, cortar, esfolado, baía, relógio, seco, mineral, deserto, asséptico, vazio, fome.

4. Curiosidades

· Estranhamente, João Cabral escreveu um poema sobre a Aspirina, que tomava regularmente, chamando-a de "Sol", de "Luz"… De fato, desde sua juventude João Cabral tomava de três a dez aspirinas por dia. Em entrevista à "TV Cultura", certa vez, ele contava que boa parte da inspiração (inspiração sempre cerebral) provinha da aspirina, que a aspirina o salvava da nulidade!
· João Cabral de Melo Neto não compareceu a nenhuma reunião da Academia Pernambucana de Letras como acadêmico, nem mesmo a sua posse.

5. Obra

6. Prêmios

7. Academia Brasileira de Letras

Foi eleito membro da academia em 15 de agosto de 1968, e empossado em 6 de maio de 1969, recebido por José Américo.

8. Análise do Poema

8.1 Vocabulário

A coletânea reúne 48 poemas (1966) marcados pelo didatismo do poema “A Educação pela Pedra”, seu núcleo temático. A obra é dividida em quatro partes: a, A, b e B. Nas partes minúsculas os poemas são curtos e nas partes maiúsculas os poemas são longos. Os temas dos poemas também são distribuídos conforme as letras. Esta maneira de organizar os poemas pode exemplificar a preocupação do poeta com um livro cuidadosamente projetado. São poesias em que sobressaem o rigor formal e a contenção, sem prejuízo do lirismo.
No poema-título, ele nos remete ao conceito da "carnatura" da poética, sua matéria-prima ou conteúdo, no caso, "pedagógico", de intimidade com os objetos: Linguagem seca, precisa, concisa, desprezo pelo sentimentalismo. A arte não é intuitiva - é calculada, nua e crua.
Há em Cabral uma verdadeira "didática da pedra", como processo teórico e prático da preensão da realidade. Essa "educação" consiste num processo de imitação de objetos, pelo qual é possível tratar da realidade através do poema, isto é, através de uma forma, de uma linguagem que para sua estruturação não despreza, antes acentua, a existência do objeto, segundo João Alexandre Barbosa.
A pedra nos remete à aridez humana e geográfica do Nordeste e é símbolo constante na obra do autor, fazendo confluir a temática social (linguagem-objeto) com a reflexão sobre o fazer poético no próprio texto artístico (metalinguagem).
Aqui a pedra ensina ao homem. A pedra, um objeto inanimado, duro, frio, que à princípio não tem nenhuma qualidade, não demonstra nada, não faz nada, é passada despercebida, ganha em João Cabral essa poesia fantástica. O poeta detestava música, comparava a poesia a um cálculo matemático, relegava a emoção a segundo plano para chegar à perfeição da construção do poema, calcado na colocação das palavras precisas e fundamentais para cada espaço do papel, nada a mais, nada a menos, só a precisão, o contido, o visual.

8.2 Métrica

Passando ao elemento material, o rítmo, verifica-se inicialmente que o metro é de 10 sílabas (decassílabos). Seja o estribilho:
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
U/ ma e / du / ca / cão / pe/ la / pe/ dra:/ por / lições;
Pa/ ra a/ pren / der / da / pe/ dra, /fre/ qüen/ tá/ -la;

Sabendo que - chama-se decassílabo o verso com dez sílabas poéticas (sílabas métricas)- o mesmo foi utilizado por Camões em "Os Lusíadas", o qual foi escrito com o intuíto de ser uma “epopóeia portuguesa”, assim como foi a Ilíada e A Odisséia de Homero. Assim como, também, em sonetos. Percebemos, também, que além do poema ser formado por duas estrofes, sendo a primeira estrofe composta por dez versos de rimas irregulares ou rimas brancas, a segunda estofe é formada de seis versos, sextilha de rimas brancas também.
Podemos, com isso, dizer que João Cabral de Mello Neto quis criar uma epopéia da educação brasileira de seu tempo. Não para engrandece-lá, mas sim, para criticá-la. Sendo uma inversão à idéia original usada, tanto por Camões, como por Homero.
A idéia de educação pela pedra, tendo a expressão pela pedra como um adjunto adverbial de modo de educação, dá nos a entender o modo pelo qual era atuada a educação. Ou seja, através da pedra, sentido de dureza, aspereza e sequidão; assim, poderia ser, também, entendida, ou até mesmo substituida, por outro adjunto adverbial de modo, como por exemplo: educação pela vida, dando-nos a entender que o que educava – e ainda educa – no sertão é a vida, dura, aspera e sofrida. Uma verdadeira educação pela pedra, pelo sofrimento, pela vida dura, pela realidade sofrida, pela seca do sertão. A vida, dura, que é a escola e esta é a responsável por tal educação – cercada de dor e pesares.
Assim, João Cabral faz um paradoxo entre cidade e sertão, mostrando as diferenças, não só educacional, mas social. Fazendo uma crítica aos governos da época.
Podemos, então, concluir:
* O poeta apreende da pedra a própria vivência na vida agreste do Sertão: de austeridade, resistência silenciosa e sempre capaz de dar lições de vida e de poesia.
* Os versos metalinguísticos revelam a própria poética cabralina: concreta, impessoal, concisa, embora profundamente social.
* O eu lírico também apreende da pedra os próprios versos enxutos, num esforço de dissecação de quaisquer sentimentalismos.
* No poema, de intensa economia verbal, a pedra faz-se metáfora da paisagem do Sertão, que “entranha a alma”, e espelha o fazer poético do autor pernambucano.
* No livro, como em grande parte da poesia da modernidade, são constantes os poemas metalinguísticos, expressivos da tentativa do poeta de apreender seu próprio processo de construção poética, e extrair lições da realidade – sua e da própria linguagem.
Por conseguinte, podemos afirmar que a pedra nos remete à aridez humana e geográfica do Nordeste e é símbolo constante na obra do autor, fazendo confluir a temática social (linguagem objeto), com a reflexão sobre o fazer poético no próprio texto artístico (metalinguagem). Sua reflexão poética, ao mesmo tempo social e histórica, volta-se para a estrutura da paisagem humana do Nordeste. Tal idéia será melhor vista à seguir, onde falaremos sobre a idéia de uma rachadura na terra, provocada pela seca do Nordeste.

7.3 A rota e sua significação: questão material

A educação está sendo manifestada pela rota das consoantes bilabias /p/ e /f/. Ao qual nos dá, como já fora antes citado, a idéia de uma rachadura na terra, provocada pela seca do Nordeste. Pela vida dura e árida do Sertão.
Veja o exemple abaixo:

Uma educação pela pedra: por lições;para aprender da pedra, freqüentá-la;
ca
ptar sua voz inenfática, impessoal
(
pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência
fria
ao que
flui e a fluir, a ser maleada;
a de
poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se com
pacta:
lições da
pedra (de fora para dentro,
cartilha muda),
para quem soletrá-la.
Outra educação
pela pedra: no Sertão
(de dentro
para fora, e pré-didática).
No Sertão a
pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se a
prende a pedra: lá a pedra,
uma
pedra de nascença, entranha a alma.


Até nos parece um caminho tortuoso, de difícil acesso: assim como a educação em tal região. Revelando-nos ser um poema cheio de arestas. Infelizmente, a mesma educação, ainda nos dias atuais, continua ineficaz.
Por conseguinte, notamos a denúncia feita à educação nesta época. Então, para entendermos melhor o poema, é necessário sabermos como andava a mesma no período ao qual foi escrito o poema.

8.4 Entre a Pedra e as Teorias Distintas

8.4.1 A materialidade do poema


Como já fora citado, a aliteração formada pela repetição da letra “p” é acentuada nos versos 1 e 2 da primeira e da segunda estrofe. Esta repetição remete o leitor ao som de algum instrumento – cinzel talvez- utilizado na lapidação de pedras, como se o poeta estivesse lapidando o texto, ou tratando sobre a lapidação, o que será discutido posteriormente neste trabalho, para a obtenção de um sentido maior. Observa-se, também, que um ponto final delimita as estrofes, mostrando a diferença não só entre elas, mas entre os temas abordados em cada uma: as educações. Esta delimitação também é concretizada pela utilização da palavra “Outra” no primeiro verso da segunda estrofe que se opõe a palavra “Uma”, utilizada no primeiro verso da primeira estrofe, o que confere sentido de diferenciação entre as educações. Ainda contido na materialidade do poema, encontramos as seguintes oposições: pedra X lição e pedra X Sertão. Sendo que estas palavras são extraídas dos primeiros versos de cada estrofe. Estas oposições indiciam as diferentes formas de se observar o objeto pedra.
A metalinguagem também pode ser observada no poema através da utilização das palavras moral, poética e economia. Palavras as quais são adjetivos freqüentes das obras de João Cabral de Melo Neto e, em contato com as demais palavras deste poema apontam para uma educação do fazer poético, tendo como referencia a pedra com suas particularidades físicas. No trecho abaixo, destacado do poema, podemos observar o recorte de algumas sílabas tônicas formando o desenho de uma rachadura, assim como as rachaduras encontradas no chão do sertão e nas pedras.
Este recorte pode auxiliar na observação da forma como reflexo do objeto de destaque do poema, a pedra. Dentro da temática do sertão, destaca-se a grafia maiúscula empregada na palavra Sertão pelo autor. “Sertão” pode ser entendido como substantivo próprio, personalidade ou até mesmo reflexo da vida no local sertão. Sobre isto discutiremos também posteriormente para que neste capítulo não se perca o objetivo da analise contida ao texto. Por fim, faz-se relevante a questão de a segunda estrofe ser mais curta que a primeira. Sendo a temática da segunda estrofe o Sertão, podemos entender esta brevidade como sequidão, sendo a seca uma das características principais da geografia sertaneja.

8.4.2 As Lições
Como observado anteriormente no poema o autor cria a repetição da consoante p ( aliteração) que nos remota ao barulho de uma possível lapidação da pedra. Está lição de lapidação, do poema ou da palavra através dos sons identifica-se com a primeira lição,a de dicção.
A segunda lição, a de moral. Usa como referencial a pedra, com “sua resistência fria”. João Cabral de Melo Neto possui como característica poética o não sentimentalismo, ou frieza. Assim, entendemos que a resistência fria citada pelo autor é na verdade a ausência do sentimentalismo de suas obras, explicitadas neste verso. Terceira lição, a de poética. Sugere os poemas concretos no sentido de ligados ao que é material, tangível. Na expressão “carnadura concreta” vemos os componentes 1- carne, como referencia ao carnal, o real e 2- concreta, objetiva. Como quarta lição,a de economia.A economia das palavras, concisão que é encontrada em outras obras de João Cabral de Melo Neto. Esta economia das palavras é encontrada ainda na palavra “adensar” e “compactos” como conceito de que a poesia deve dizer muito, ser repleta de significados,através de um número reduzido de palavras. Todas estas lições acontecem “De fora para dentro”, através da observação da referida pedra, que pode ser até mesmo uma alegoria para o próprio sertão. Assim, temos a poesia da observação do sertão e como esta poesia é ensinada.
O método tradicional de educação utilizava uma cartilha de letramento. A “cartilha muda” é essa voz inefável da pedra, que ensina quem se dispõe a estudá-la, ou como diz o poeta: “para quem soletrá-la.”

8.4.3 A outra educação

De acordo com o período analisado, a oposição do “uma” contra “outra” indicia uma educação diferenciada. Esta segunda educação, dada pela personalidade do Sertão, denominada de pré-didática – referente àquilo que não se ensina e que não se aprende. Esta lição que não é ensinada nada mais é do que a lição do viver. Do viver no sertão, e de situar-se nele.
Mas, diferente da pedra apresentada na primeira estrofe, a pedra do sertão não sabe lecionar. Seguindo uma certa lógica para ensinar, faz-se necessário ter aprendido, então como esta pedra que não é letrada , como a maioria dos sertanejos, poderia lecionar? Assim, não se entende, ou aprende, no Sertão. Os sertanejos o vivenciam. A pedra de nascença, é aquela pedra que é apenas pedra, objeto material, que não possibilita outro entendimento e reflete a dureza da vida sertaneja que se manifesta no homem desde sua infância e que com o tempo molda sua alma. Em analogia ao molde do sertanejo, temos o provérbio: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Neste poema de João Cabral ocorre o oposto, a pedra endurece o homem. Assim, teríamos o seguinte provérbio: Pedra dura em homem mole, tanto bate que endurece. O poema “A Educação pela Pedra” permite uma série de analises e interpretações, variáveis do ponto de observação e da técnica utilizada.

9. Breve História da Educação Brasileira: Década de 60

Por iniciativa de Celma Pinho, cujo nome religioso era Maria Ana de Sion, foi criado, em 1960, um Curso de Especialização para professores que recebeu o nome de Especialização Montessori-Lubienska, passando a funcionar regularmente todos os anos. A orientação se baseava na influência francesa já que Celma Pinho havia sido discípula de Lubienska e Pierre Faure. Na seqüência desse movimento foi fundada, em 1969, a Sociedade Civil “Instituto Pedagógico Montessori-Lubienska” que passou a realizar Semanas Pedagógicas em várias cidades em todo o Brasil. A partir de 1975 alterou-se a denominação para “Instituto Pedagógico Maria Montessori”, vinculando-se à “Associação Montessori Internacional”, com sede na 15 Holanda. Ao final da década de 1970 existiam no Brasil 144 escolas montessorianas sendo 94 no Estado de São Paulo e 50 espalhadas por outros dez Estados e no Distrito Federal.
Vê-se, assim, que o predomínio das idéias novas força, de certo modo, a renovação das escolas católicas. A questão que estava em pauta era, pois, renovar a escola confessional sem abrir mão de seus objetivos religiosos. Para os colégios católicos, cujo alunado integrava as elites econômicas e culturais, era, mesmo, uma questão de sobrevivência. Com efeito, com o predomínio do ideário renovador, as famílias de classe média tendiam a usar como um dos critérios de escolha da escola para seus filhos, a sintonia metodológica com as novas idéias pedagógicas. A Igreja necessitava se renovar pedagogicamente, sob o risco de perder a clientela. O caminho que a Igreja Católica encontrou para responder a essa exigência foi assimilar a renovação metodológica sem abrir mão da doutrina. A sinalização para essa direção já estava dada naquele enunciado de Alceu Amoroso Lima mencionado anteriormente:
Diante das pressões que a realidade brasileira estava impondo no sentido da renovação do ensino, a A.E.C. incentivou seus associados a buscar um novo método pedagógico que atendesse igualmente as exigências postas pelos objetivos da educação católica e pela renovação pedagógica. E a escolha principal recaiu sobre Lubienska que, embora associada a Montessori e ofuscada pela maior divulgação desta, a ela se sobrepõe quanto à influência exercida sobre o pensamento pedagógico brasileiro.
Lubienska desenvolveu seu método pedagógico em estreita relação com a bíblia e a liturgia católica aproximando-se, também, do pensamento oriental do qual extraiu aquilo que era compatível com o espírito bíblico-litúrgico e com a tradição da Igreja Católica. Para realizar esse movimento tornou-se profunda conhecedora dos ritos orientais e da Liturgia em sentido geral, assim como da história da Igreja e das Sagradas Escrituras. Em suma:
Pode-se afirmar, voltando-se para a educação brasileira, que o modelo educacional italiano de Maria Montessori sofreu a influência francesa em sua implantação no Brasil.
No final da década de 1950 e início dos anos 60, intensifica-se o processo de mobilização popular, agitando-se, em conseqüência, a questão da cultura e educação populares (FÁVERO, 1983). Em termos de educação popular os movimentos mais significativos são o Movimento de Educação de Base (MEB) e o Movimento Paulo Freire de Educação de Adultos, cujo ideário pedagógico mantém muitos pontos em comum com o ideário da pedagogia nova. Ora, o MEB foi um movimento criado e dirigido pela hierarquia da Igreja Católica e o Movimento Paulo Freire, embora autônomo em relação à hierarquia da Igreja, se guiava predominantemente pela orientação católica, recrutando a maioria de seus quadros na parcela do movimento estudantil vinculada à Juventude Universitária Católica (JUC).
Se o movimento escolanovista se inspira fortemente no pragmatismo, o MEB e o Movimento Paulo Freire buscam inspiração predominantemente no personalismo cristão e na fenomenologia existencial. Entretanto, pragmatismo e personalismo, assim como existencialismo e fenomenologia, são diferentes correntes filosóficas que expressam diferentes manifestações da concepção humanista moderna, situando-se, pois, em seu interior. É lícito, pois, afirmar que sob a égide da concepção humanista moderna de filosofia da educação acabou por surgir também uma espécie de “escola nova popular”, como um outro aspecto do processo mais amplo de renovação da pedagogia católica que manteve afinidades com a corrente denominada de “teologia da libertação”.
Esse último aspecto levou a uma radicalização político-social (ALVES, 1968) da pedagogia católica brasileira que, instada pela “opção preferencial pelos pobres” definida nas conferências episcopais latino-americanas de Medelín (Colômbia) e de Puebla (México), busca formas de engajamento nos processos de desenvolvimento e libertação da população oprimida. Assim, no mesmo momento em que na passagem da década de 50 para a década de 60 entrava na reta final a tramitação da LDB emergia, impulsionada pelo arejamento propiciado pelo Concílio Vaticano II, realizado entre 1959 e 1965, uma parcela do movimento católico que buscava a formulação de “uma ideologia revolucionária inspirada no Cristianismo”. A expressão mais típica dessa tendência é, com certeza, a criação da Ação Popular em 1963.
Essa perspectiva se fez presente em grupos católicos derivados de organismos integrantes da Ação Católica, com destaque para a JUC e JEC que se lançaram em programas de educação popular, em especial a alfabetização de adultos. Mas chegou a afetar também certos colégios tradicionais, particularmente os de congregações religiosas femininas, dos quais algumas freiras dirigentes se sentiram compelidas à coerência com a “opção preferencial pelos pobres”, o que as levou a deixar o conforto de suas congregações e de seus prósperos colégios para viverem em comunidades de trabalhadores no campo ou nas periferias urbanas onde desenvolveriam trabalho educativo e de evangelização tendo em vista o objetivo de somar esforços para libertar o povo da opressão a que estava submetido na sociedade capitalista. A AP, por sua vez, radicalizou sua oposição á ditadura militar transformando-se em APML (Ação Popular Marxista Leninista), optou pela luta armada e foi dizimada pela repressão.
Paralelamente a essas transformações no campo da pedagogia católica, a década de 1960 foi uma época de intensa experimentação educativa, deixando clara a predominância da concepção pedagógica renovadora. Além dos colégios de aplicação que se consolidaram nesse período (WARDE, 1989), surgiram os ginásios vocacionais (RIBEIRO, 1989 e JACOBUCCI, 2002), deu-se grande impulso à renovação do ensino de matemática (MONTEJUNAS, 1989) e de ciências (KRASILCHIK, 1989), colocando em ebulição o campo pedagógico. Data, ainda, de 1968 a mobilização dos universitários, que culminou com a tomada, pelos alunos, de várias escolas superiores, na esteira do movimento de maio que teve a França como epicentro. Como assinalei em outro trabalho (SAVIANI, 1984, p. 278), as reivindicações de reforma universitária feitas pelo movimento estudantil se pautavam, fundamentalmente, pela concepção humanista moderna. Nas escolas ocupadas foram instaladas comissões paritárias compostas por professores e alunos. Foram organizados cursos pilotos que valorizavam os interesses, a iniciativa e as atividades dos alunos; desenvolviam o método de projetos, o ensino centrado em núcleos temáticos extraídos das preocupações político-existenciais dos estudantes, o método de solução de problemas, a valorização das atividades grupais (trabalho em equipe) a cooperação etc. Ora, todas essas características são constitutivas da concepção pedagógica renovadora de matriz escolanovista.
Por conseguinte, a década de 1960, contudo, não deixou também de assinalar o esgotamento do modelo renovador, o que se evidencia pelo fato de que as experiências mencionadas se encerraram no final dos anos 60 quando também são fechados o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais e os Centros Regionais a ele ligados. No interior dessa crise articula-se a tendência tecnicista, de base produtivista, que se tornará dominante na década seguinte, assumida como orientação oficial do grupo de militares e tecnocratas que passou a constituir o núcleo do poder a partir do golpe de 1964. As linhas básicas da nova orientação já se manifestaram no Fórum denominado “A educação que nos convém”, realizado em 1968 no Rio de Janeiro, com a colaboração da PUC-Rio e organização do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), verdadeiro partido ideológico dos empresários (IPES, 1969 e SOUZA, 1981).