terça-feira, 8 de maio de 2012

A presença da Morte nas Obras de Manuel Bandeira e Castro Alves



Manuel Bandeira


1. Biografia

Filho do engenheiro Manuel Carneiro de Sousa Bandeira e de sua esposa Francelina Ribeiro, era neto paterno de Antônio Herculano de Sousa Bandeira, advogado, professor da Faculdade de Direito do Recife e deputado geral na 12ª legislatura. Tendo dois tios reconhecidamente importantes, sendo um, João Carneiro de Sousa Bandeira, que foi advogado, professor de Direito e membro da Academia Brasileira de Letras e o outro, Antônio Herculano de Sousa Bandeira Filho, que era o irmão mais velho do engenheiro Sousa Bandeira e foi advogado, procurador da coroa, autor de expressiva obra jurídica e foi também Presidente das Províncias da Paraíba e de Mato Grosso.
Seu avô materno era Antônio José da Costa Ribeiro, advogado e político, deputado geral na 17ª legislatura. Costa Ribeiro era o avô citado em Evocação do Recife. Sua casa na rua da União é referida no poema como "a casa de meu avô".
Em 1904 terminou o curso de Humanidades e foi para São Paulo, onde iniciou o curso de arquitetura na Escola Politécnica de São Paulo, que interrompeu por causa da tuberculos. Para se tratar buscou repouso em Campos do Jordão, Campanha e outras localidades de clima mais ameno. Com a ajuda do pai que reuniu todas as economias da família foi para Suíça, onde esteve no Sanatório de Clavadel, onde conheceu o jovem Paul Eugene Glidel, que mais tarde se tornou conhecido poeta francês sob o nome de Paul Eluard, e Gala, que foi esposa de Paul Eluard e posteriormente esposa de Salvador Dali.
Manuel Bandeira faleceu no dia 13 de outubro de 1968 com hemorragia gástrica aos 82 anos de idade, diante da sobrinha Helena Bandeira Cardoso ,no Hospital Bom Samaritano, no Rio de Janeiro, e foi sepultado no mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

2. A presença da morte na Obra de Bandeira

A morte também aparece frequentemente na obra bandeiriana e José Lins do Rego explicou muito bem porque, em sua contribuição à obra coletiva de 1936 Homenagem a Manuel Bandeira: "Nada se parece mais com Manuel Bandeira que a sua poesia. O homem não é no seu caso o outro lado da sua arte, como sucede com Augusto Frederico Schmidt, que a gente lê espantado, sem encontrar um jeito de ligar a poesia com o seu autor." Manuel Bandeira foi, portanto, o contrário de Fernando Pessoa, para quem "o poeta é um fingidor".
Ele viu a Morte tão de perto que ela se tornou o seu tema preferido. Não fingia, portanto, nem romantizava quando escrevia, em 1912, concluindo o segundo poema de seu livro de estréia, em 1917, A Cinza das Horas: "- Eu faço versos como quem morre." Até num livro que se chama Carnaval - o segundo por ele publicado, em 1919 - a Morte aparece como "Dama Branca":

"A Dama Branca que eu encontrei,
Há tantos anos,
Na minha vida sem lei nem rei,
Sorriu-me em todos os desenganos.
Essa constância de anos a fio,
Sutil, captara-me. E imaginai!
Por uma noite de muito frio
A Dama Branca levou meu pai."

Em Libertinagem, livro publicado em 1930, aparecem, além de "Pneumotórax", o "Poema de Finados" e "O Último Poema", que é uma de suas obras-primas, escrito com uma compulsão responsável pela eliminação de vírgulas e pontos:

"Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação."

Como era natural que acontecesse, a Morte reaparece com mais frequência nos dois últimos livros de Manuel Bandeira: Opus 10 e Estrela da Tarde. Ambos surgiram inicialmente em edições para bibliófilos, a primeira impressa em Niterói por Thiago de Melo e Geir Campos (Hipocampo) em 1952 e a segunda na Bahia (Dinamene) em 1960. Os seis últimos poemas de Estrela da Tarde estão agrupados sob o título "Preparação para a Morte".


Castro Alves


        1. Biografia

Sua mãe faleceu em 1859. O pai se casou por segunda vez em 24 de janeiro de 1862 com a viúva Maria Rosário Guimarães. No dia seguinte ao do casamento, o poeta e seu irmão Antônio José partiram para o Recife, enquanto o pai se mudava para o solar do Sodré.
Em maio, submeteu-se à prova de admissão para o ingresso na Faculdade de Direito do Recife sendo reprovado.
No dia 17 de maio, Castro Alves publicou no primeiro número de A Primavera seu primeiro poema contra a escravidão: A canção do africano. A tuberculose se manifestou e em 1863 teve uma primeira hemoptise.
Em 1864 seu irmão José Antônio, que sofria de distúrbios mentais desde a morte de sua mãe, suicidou-se em Curralinho. Ele enfim consegue matricular-se na Faculdade de Direito do Recife e em outubro viaja para a Bahia. Só retornaria ao Recife em 18 de março de 1865, acompanhado por Fagundes Varela.
Em 1866, tornou-se amante de Eugênia Câmara. Em março, viajou com Eugênia para São Paulo. Decidira ali - na Faculdade de Direito de São Paulo - continuar seus estudos, e se matriculou no terceiro ano.
Desfaz-se em 28 de agosto de 1868 sua ligação com Eugênia Câmara. Castro Alves foi aprovado nos exames da faculdade de Direito e a 11 de novembro - tragédia de grandes consequências - se feriu no pé, durante uma caçada. Tuberculoso, aventara uma estadia na cidade de Caetité, onde moravam seus tios e morrera o avô materno. Mas, antes disso, ainda em São Paulo, na tarde de 11 de novembro, resolveu realizar uma caçada na várzea do Brás e feriu o pé com um tiro. Disso resultou longa enfermidade, cirurgias, chegando ao Rio de Janeiro no começo de 1869, para salvar a vida, mas com o martírio de uma amputação. Os cirurgiões e professores da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Andrade Pertence e Mateus de Andrade, amputaram seu membro inferior esquerdo sem qualquer anestesia.
Em março de 1869, matriculou-se no quarto ano do curso jurídico, mas a 20 de maio, tendo piorado seu estado, decidiu viajar para o Rio de Janeiro, onde seu pé foi amputado em junho.
Em fevereiro de 1870 seguiu para Curralinho para melhorar a tuberculose que se agravara, viveu na fazenda Santa Isabel, em Itaberaba. Em setembro, voltou para Salvador. Ainda leria, em outubro, A cachoeira de Paulo Afonso para um grupo de amigos, e lançou Espumas flutuantes.
Morreu às três e meia da tarde, no solar da família no Sodré, Salvador, Bahia, em 6 de julho de 1871.
2. A presença da Morte na poesia de Castro Alves
Nessa perspectiva em que a obra escreve a vida, em Castro Alves, como em outros poetas do Romantismo, o movimento que parte da obra dinamiza a vida e faz eclodir a morte. Chegada a morte, já não se pode fruí-la no plano meramente humano, pois o suspiro que antecede a chegada da morte (ainda mesclada à vida, nesse estágio) – aquele suspiro que fez Goethe pedir “Luz, mais luz!” – não permite que a morte seja fruída em vida. Todavia, na poesia a morte assume, por vezes, todo o espaço, preenche o interstício mínimo que separa a palavra do silêncio.
Morte e vida alçam-se a uma dimensão, na poesia de Castro Alves. A vida do poeta não é a vida do mundo, embora só possa existir partida do mais íntimo mergulho na existência. A partir desse enraizamento na vida, o desenraizamento pela morte.
Através da imersão na vida – na qual todos os sentidos participam, em nosso poeta, num sensualismo avassalador em que os elementos dionísicos parecem conclamá-lo a deter-se na totalidade da matéria em sua irrupção selvagem, expressos no plano verbal por intenso processo sinestésico – a descoberta de sua ausência. No relato lírico do instante que passa, o contato vivo com a matéria alcança o momento em que tudo estanca:

Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh’alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n’amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
– Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.
Mas uma voz responde-me sombria
“Terás o sono sob a lájea fria”.

E em seguida:

E eu sei que vou morrer...
dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida:
Triste Ahasverus, que no fim da estrada,
Só tem por braços uma cruz erguida.
Sou o cipreste, qu’inda mesmo florido,
Sombra de morte no ramal encerra!
Vivo – que vaga sobre o chão da morte,
Morto – entre os vivos a vagar na terra.

Esse, o movimento do poeta: retira-se da vida através de uma experiência estigmatizada, Ahasverus ou Cristo que não pode fugir a seu destino, já que é um ser de eleição.
E o que a poesia revela a seus eleitos? “Sofrer, sofrer e mais sofrer”, disse um outro poeta. Sofrer por estar sempre entre, sempre na fronteira. Então, modestamente, nesse limite que separa a vida da morte, o finito do infinito, a palavra do silêncio, usando duas vozes, vivendo em dois mundos, o poeta escreve sua poesia, onde se imprime essa iminente interfusão de níveis, possível apenas, e fugazmente, no fazer poético.

Conclusão

Após leitura e análise da vida e obra destes dois escritores, e surpreendentes poetas brasileiros, percebemos a vida em comum de ambos. Tanto Castro Alves, como Manuel Bandeira sofriam do mesmo mal – a tuberculose.
Contudo, percebemos a ideia de continuidade nos poemas de Bandeira em relação aos com a temática da morte, de Castro Alves.

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