segunda-feira, 7 de abril de 2014

A Ilustre Casa de Ramires

1. Introdução

Após uma análise sobre o romance, A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós, foi-nos proposto o desenvolvimento sobre a suposta evidência cabal de que o mesmo, segundo a tradição, que no final de sua vida e de sua obra, reconciliou-se com os valores tradicionais e com a cultura portuguesa, passando a vê-los como positivos e saudáveis.
Entretanto, apontaremos o contrário, e a ineficácia de tal afirmativa, ao provar que é nas últimas obras queirosiana – ao qual vão desde 1887 a 1900, conhecida como a terceira fase – que o autor construiu, em tal fase, as críticas mais severas ao país, sua sociedade e política e não mais diremos se tratar de uma crítica moralizante, muito menos da reconciliação com o país.  
Descreveremos um detalhe de suma importância para nosso trabalho que é o fato do romance se tratar de uma narrativa passada no campo, o oposto dos anteriores da primeira fase: O crime do padre Amaro e Primo Basílio, ao qual se passam na cidade.
Assim, a partir de Os Maias, e nos póstumos romances, o ponto de vista passa a ser o do campo, mudando totalmente a forma de escrita, mas não deixando a crítica. A tal detalhe importante faremos nossa defesa, explicando-a e apontando tais informações, que são primordiais para o entendimento da análise do romance. Para isso, o contexto da história de Portugal e crucial para melhor entendermos o que estava acontecendo no mundo, ao final do século XIX e início do século XX.





2. Resumo Biográfico

José Maria Eça de Queirós, nasceu em Póvoa do Varzim (norte de Portugal). Filho de uma relação amorosa considerada ilícita, Eça foi criado longe dos pais, e desde de muito cedo o escritor teria sido marcado pela consciência aguda dos preconceitos e da hipocrisia da sociedade burguesa. 
Entre 1861 e 1866 estudou Direito na tradicional Universidade de Coimbra, presenciando - sem participar diretamente - o início da Questão Coimbrã (também conhecida como a Questão do bom senso e do bom gosto), famosa polêmica que introduziu o Realismo em Portugal. Ligou-se por essa ocasião ao grupo renovador chamado “Escola de Coimbra”, responsável pela introdução do Realismo em Portugal. Eça não participou diretamente da “Questão Coimbrã” (1865), a polêmica em que jovens defensores de novas idéias literárias, artísticas e filosóficas liderados por Antero de Quental, defrontaram-se com os velhos românticos , ultrapassados e conservadores , liderados por Visconde de Castilho.
Entre 1867  e 1872 desenvolveu sua carreira jurídica, paralelamente às atividades de jornalista e escritor. Dedicou-se ao jornalismo depois de formado, e viajou pelo Oriente. Em 1871, participou das “Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense” (uma série de palestras proferidas pela juventude intelectual ávida de mudanças no cenário artísticos lusitano) – nova etapa da campanha que implantou em Portugal as novas perspectivas culturais do Realismo falando sobre o “Realismo como nova expressão da arte”. A partir desta data ingressa no serviço diplomático, servindo em vários países até alcançar o cobiçado posto de cônsul em Paris. Este contato direto com outros países e culturas mais “avançados” em relação a Portugal talvez tenham acentuado sua compreensão do provincianismo e do atraso do país, intensificando nele o desejo - característico de sua geração - de contribuir para a reforma da pátria. 
No ano de 1886, Eça de Queirós se casa com Emília, filha do Conde de Resende, e se aproxima cada vez mais do ambiente da aristocracia portuguesa. Logo em seguida, em 1889, ingressa num grupo de intelectuais e políticos socialmente bem sucedidos e que, no entanto, se auto designavam como os Vencidos da Vida. Este sentimento de derrota advinha da consciência do fracasso de suas idéias críticas diante da realidade desoladora de Portugal. Em síntese, esse grupo de intelectuais apresentava uma complexidade ideológica bastante comum no final do XIX,  fruto de uma mistura de Decadentismo, Niilismo e Aristocracismo, que por sua vez marcará a última fase da produção queirosiana.  
A obra de Eça de Queirós é dividida em três fases. A primeira ainda próxima do espírito romântico, cujo melhor exemplo está em Prosas Bárbaras. A segunda, acentuadamente Realista-Naturalista, na qual o autor produz uma crítica ácida e ferina em relação à sociedade e à burguesia portuguesas e seus aspectos mais revoltantes. Nesta fase se encontram os romances mais combativos e virulentos de Eça de Queirós, entre eles O Crime do Padre AmaroO Primo Basílio e A RelíquiaFinalmente a terceira fase é marcada por um abrandamento da crítica e por um desejo de reconciliação com Portugal (defendido tal afirmativa pela tradição, ao qual nos opomos), aqui encontram-se romances famosos como A Ilustre Casa de Ramires e A cidades e as Serras.       
Eça de Queirós viveu um dos períodos mais contraditórios da história e da literatura portuguesa, e sua obra acompanha de perto as oscilações ideológicas, sociais e culturais de seu tempo.  Este é o representante maior da prosa realista em Portugal. Grande renovador do romance, abandonou a linha romântica – assim como afirma a tradição ao qual mais a frente mostraremos sua ineficácia ao relatar tal afirmativa -, e estabeleceu uma visão critica da realidade. Afastou-se do estilo clássico, que pendurou por muito tempo na obra de diversos autores românticos, deu a frase uma maior simplicidade, mudando a sintaxe e inovando na combinação das palavras. Evitou a retórica tradicional e os lugares comuns, criou novas formas de dizer, introduziu neologismos e, principalmente, utilizou o adjetivo de maneira inédita e expressiva. Este novo estilo só teve antecessor em Almeida Garrett e valeu a Eça a acusação de galicismo e estabeleceu os fundamentos da prosa moderna da Língua Portuguesa.
Assim, no dia 16 de Agosto de 1900 Eça morre em Paris. Deixava um episódio literário que veio a ser publicado aos poucos.

2.1  Obras


2.2 O Realismo/Naturalismo de Eça de Queirós

A falta de correspondência entre a imaginação romântica e a necessidade de uma arte realista e a crítica já havia sido deflagrada por ocasião da Questão Coimbrã (1865), em que o jovem poeta Antero de Quental polemizara contra o representante da literatura oficial, Antônio de Castilho. Contra essa literatura considerada “acéfala”, representante de um romantismo desgastado, surge o programa realista da geração de Eça de Queirós, formada por Antero de Quental, Oliveira Martins e Teófilo Braga, entre outros. Nas palestras proferidas sobre a nova arte, esses escritores declaravam que a função da literatura seria analisar a sociedade a partir da observação, e não da imaginação. Só a observação seria crítica e minuciosa realidade poderia servir de substrato a obras que se pretendiam revolucionárias, representantes de uma “arte de combater”. Tendo por mestres os escritores franceses Hyppolite Taine e Émile Zola, Eça de Queirós adere ao Naturalismo, segundo o qual a literatura deve-se nortear por uma perspectiva não só realista, mas também científica. Assim, a criação romanesca passaria a ser fruto dos fatores sociais que determinam os comportamentos humanos; como qualquer fenômeno natural, esses comportamentos (especialmente anômalos) poderiam ser definidos a priori, desde que se estudassem as circunstâncias externas que o produziram. Surge o romance de tese, em que situações e personagens são concebidas para demonstrar as causas de certos problemas sociais. Norteado por essa concepção de literatura, Eça de Queirós escreve O Crime do Padre Amado (1875) e O Primo Basílio (1878). Nos últimos livros de Eça de Queirós, verifica-se a questão, ao qual, o tradicionalismo diz que o mesmo abandonou as convicções antigas, mudando sua opinião e forma de escrever, não mais atacando a sociedade lisboense, abandonando, assim, o programa da “literatura de combate”, profissão de fé do Realismo/Naturalismo, para assim mostrar as belezas de Portugal. Tal questão será melhor explicada mais a frente. 
2.3 Portugal da época de Eça de Queirós

Portugal, país ao qual o passado fora coberto de glória, mas cujo presente de humilhações frente ao cenário político internacional; que no passado, alçara à condição de grande império ultramarino e, no presente, vive uma crise decorrente da instabilidade política e da ausência de projetos nacionais; tal é o perfil de Portugal no fim do século XIX. O liberalismo, vigente No país desde 1834 com a instituição das Cortes Constituintes, não fora capaz de ditar novos rumos para a economia portuguesa, que perdera sua maior colônia com o advento da independência do Brasil. Sem ter apresentado grandes avanços na indústria, Portugal se vê à margem do novo sistema vigente na Europa, o capitalismo industrial e financeiro. Em 1851, um golpe introduz no país a proposta de Regeneração, baseada na necessidade de “progresso”, ou seja, de desenvolvimento industrial. Com efeito, esta trouxe algum progresso, mas a distância que separava Portugal dos demais países europeus ainda era enorme. Por exemplo, em 1856, enquanto a Inglaterra contava com doze mil quilômetros de ferrovias, Portugal inaugurava sua primeira estrada de ferro, abrangendo 36 quilômetros. Os partidos Regenerador e Histórico (oposição) alternaram-se no poder, mas não apresentaram mudanças substanciais para oferecer ao país condições de rivalizar com as demais potências. Outro fator que coloca Portugal em desvantagem é a sua impotência diante da política imperialista adotada pelos países desenvolvidos no fim do século XIX. Na corrida neocolonialista que toma lugar no quadro geopolítico internacional, Inglaterra é o novo império ultramarino, seguido por França, Bélgica, Alemanha e Itália. Desde o século XVII, Portugal mantinha com o reino britânico uma relação de dependência e subserviência que culminou na disputa neocolonialista por territórios africanos. O fator agravante dessa disputa foi o Ultimato inglês: em 1890, a Inglaterra ordenara que Portugal retirasse suas tropas da região entre Moçambique e Angola (colônias portuguesas na África), e a ordem foi submissamente acatada pelo país ibérico. O orgulho português ferido foi o mote usado pela campanha republicana, que se fortaleceu até que, em 1910, o sistema monárquico foi extinto.



3. A Ilustre Casa de Ramires: Resumo da Obra 

3.1 O Romance de Gonçalo Ramires 
  
Gonçalo Mendes Ramires retorna - após a conclusão do curso de Direito em Coimbra e após uma breve estadia em Lisboa - para suas terras no interior de Portugal, próximas à cidade de Oliveira e à Vila Clara. Aí reencontra a mesma monotonia provinciana de anos atrás. Sua irmã, Graça Ramires, está casada com o rico e simplório José Barrolo, chamado pelos colegas de bacoco, num claro deboche de sua simplicidade de parvo. 
Os seus bons e inseparáveis companheiros, Titó (Antônio Villalobos), João Gouveia (Administrador da aldeia de Vila Clara) e o músico Videirinha - que há muito vem escrevendo um fado, ajudado pelo padre Soeiro, sobre os feitos heróicos da ilustre casa de Ramires - continuam os mesmos. E os criados da casa, Rosa e Bento estão a levar a vida de sempre. 
 Acima de tudo, o oprime a mediocridade da vida provinciana e a necessidade imperativa de se impor na vida política nacional, o que lhe parece ser a única saída possível para a sua condição de fidalgo decaído. 
Dentro deste espírito e incitado por um amigo, o José Castanheiro (editor de uma revista a ser lançada em breve e chamada Anais de Literatura e de História), ele resolve escrever uma novela (A Torre de D. Ramires) sobre um velho e ilustre antepassado: Tructesindo Ramires. Assim, tendo como cenário os restos da antiga fortificação medieval erguida por seus remotíssimos avós, e que se encontram na sua Quinta de Santa Irinéia, ele se põe a recontar a história de sua casa e de Portugal. Da fortificação resta, na verdade, apenas os escombros da velha torre, como do glorioso passado português resta apenas à recordação.
          Para tal fim Gonçalo lança mão um poema já escrito por um tio materno, que ele - com ajuda de outros livros de inspiração medieval (Alexandre Herculano e Walter Scott) -vai vertendo para uma prosa na maioria das vezes banal. No entanto, a tarefa não é fácil e muitas vezes se torna estafante. Paralelamente à escritura da novela, ele se envolve com as atividades do cotidiano, que passam pela administração da quinta, e é obrigado a enfrentar situações que demonstram a fraqueza de seu caráter. A mais marcante se dá quando ele se vê obrigado a arrendar a quinta para um lavrador conhecido como José Casco, e empenha sua palavra no negócio. Porém, logo em seguida um outro lavrador melhor qualificado, o Manuel Pereira , lhe oferece uma quantia maior pelo mesmo direito de arrendamento, e Gonçalo aceita a segunda proposta se esquecendo da palavra já empenhada ao Casco. 
Aliás, este episódio coincide narrativamente com um  momento no qual Gonçalo conta os feitos heróicos de seu longínquo antepassado Tructesindo, que justamente entra num combate para não recuar da  palavra empenhada. Aqui Eça de Queirós, através de uma ironia fina,  demonstra o caráter frágil desta aristocracia incapaz de dar continuidade à grandeza do passado português. Porém, lentamente Gonçalo caminhará para a redescoberta destes valores heróicos de seu passado, alterando sua trajetória pessoal. 
A transformação de Gonçalo pode ser interpretada como um símbolo do destino Português, e traz elementos típicos do romance de formação. Outro fato também o desagrada sumamente: o sucesso político de André Cavaleiro, outrora seu grande amigo, e “namorado” de sua irmã. Gonçalo nutre por ele um ódio que se manifesta publicamente por meio de comentários violentos envolvendo via de regra a bigodeira do Cavaleiro. Este, por sua vez, ocupa agora o lugar de Governador Civil de Oliveira, cargo antes exercido pelo falecido pai de Gonçalo. A ruptura, sem nenhuma justificativa, do namoro existente entre André e Gracinha está na origem desse rancor que os separa. Inesperadamente, o Deputado Sanches Lucena, velho e rico proprietário da região, falece deixando toda a fortuna para a esposa D. Ana Lucena e uma cadeira vaga no parlamento. Eis a chance tão esperada. No entanto, a indicação para o lugar passa diretamente pela vontade do Governador Civil. Aconselhado pelo amigo João Gouveia e movido pelo interesse, ele reata sua amizade com André Cavaleiro, para assombro de toda a cidade. O que não se dá sem que antes ele sofra uma aguda crise de consciência, pois tal reconciliação implica na aproximação entre o Governador e Gracinha, que ainda nutre sentimentos inconfessos pelo antigo namorado. Eis aí a sombra de um possível adultério. Aliás, tema tão caro aos romances da segunda fase de Eça de Queirós. 
Com a reconciliação, começa a campanha de Gonçalo em direção ao parlamento. Porém, em meio aos preparativos, ele surpreende um encontro furtivo entre a irmã e o Cavaleiro. Horrorizado ele se retira para a quinta e se afasta da irmã, do cunhado e do suposto amigo. Neste momento, Gonçalo decide retomar a sua narrativa, e passa a considerar a possibilidade de se casar com a viúva do Lucena (agora uma mulher riquíssima), apesar de sentir uma forte repulsa por ela. 
Em meio a todos estes acontecimentos, uma noite Gonçalo tem um pesadelo no qual seus remotíssimos antepassados lhe depositam no colo suas armas e o incitam a seguir-lhes o caminho da bravura. Na manhã que sucede a este pesadelo, Gonçalo resolve sair a cavalo e reencontra acidentalmente um camponês (o valentão Ernesto de Nacejas)  que já o havia destratado duas vezes, sem que o fidalgo houvesse esboçado a menor reação de revidar as ofensas sofridas, tal era o seu grau de covardia diante dos perigos da vida. 
          Nesta manhã, inexplicavelmente, Gonçalo sente-se tomado de uma energia e de uma coragem que até então lhe eram desconhecidas: ele enfrenta o inimigo com violência, ao ponto de quase desfigurar-lhe a face com um chicote. Depois da luta ele retorna à quinta, e para sua surpresa reencontra a irmã e o cunhado. 
Neste mesmo dia, ao conversar com cunhado, Gonçalo descobre que o Cavaleiro estava ausente de Oliveira há algum tempo. E, portanto, afastado de Graçinha. Reconciliado parcialmente com a própria consciência, ele retoma sua campanha política. Lentamente Gonçalo vai descobrindo a simpatia que as pessoas nutrem por sua pessoa e por sua nobre origem, sentimento que ele mal suspeitara até então, e que lhe faz perceber que ele seria eleito mesmo  sem a ajuda do Governador Civil. 
Chega o dia da eleição e Gonçalo vence. Nesta mesma noite, ao contemplar o vale do alto da torre iluminada, ele percebe com clareza a mesquinhez de seu caráter e de seus objetivos. 
         Alguns meses depois, o fidalgo parte para Lisboa, assume o cargo  e começa a levar uma vida mundana, até que inexplicavelmente desiste de tudo e viaja para a Zambézia na África, de onde retorna, quatro anos depois, rico e estabelecido. 

3.2 A novela A Torre de D. Ramires 
 
 Gonçalo Mendes Ramires, inspirado num poemeto épico escrito por um tio e publicado num periódico de província (O Bardo), resolve contar os feitos heróicos de sua estirpe, em especial de Tructesindo Ramires. Este nobre antepassado de Gonçalo tudo sacrificou, inclusive a vida do próprio filho, para defender a palavra e a honra empenhada. Tructesindo Ramires, fiel vassalo e alferes-mor de D. Sancho, jurara a este rei defender a honra e vida da infanta D. Sancha. Com a morte do monarca abre-se uma luta pela sucessão e pela afirmação de D. Afonso II no trono de Portugal, e este se indispõe com suas irmãs D. Teresa e D. Sancha. A infanta busca ajuda e apoio no rei de Leão e Castela (tradicionais inimigos da nação portuguesa), e convoca o socorro de Tructesindo Ramires. Este atende prontamente ao apelo da infanta - consciente que lutará ao lado de antigos inimigos - e manda seu próprio filho, Lourenço Ramires, a frente de uma primeira força guerreira, enquanto ele próprio prepara um grupo fortemente armado que lhe seguirá. 
Lourenço é interceptado em meio da jornada por um grupo fortemente armado e comandado por Lopo de Baião, o Bastardo, que fora enviado por D. Afonso II, com ordens de impedir o avanço das forças de Tructesindo. No entanto, por atrás deste motivo aparente Lopo de Baião esconde um desejo de vingança pessoal, pois no passado ele havia se apaixonado por D. Violante, filha de Tructesindo, que havia lhe negado a dama em casamento. As duas forças se enfrentam duramente, Lourenço sai derrotado, e é feito prisioneiro pelo Bastardo, que em seguida marcha em direção ao castelo dos Ramires. Ao alcançar as fortes muralhas, ele manda um arauto solicitar uma audiência com Tructesindo. Durante o diálogo Lopo de Baião tenta demover o velho guerreiro de ajudar a infanta e insiste em alcançar a permissão de se unir a D. Violante. Tructesindo Ramires mostra-se irredutível em relação às duas propostas, e o Bastardo degola impiedosamente Lourenço diante dos olhos do pai. Em seguida, foge com seus guerreiros.  Tructesindo mantém-se quase imperturbável diante da morte do filho, e sai em busca do covarde assassino. Em meio a perseguição seu grupo chega a uma encruzilhada e o chefe guerreiro ordena que três batedores encontrem a pista de Lobo de Baião. Com as informações trazidas por eles, D. Garcia Veigas, o Sabedor - amigo e companheiro fiel de Tructesindo - descobre a estratégia de fuga do Bastardo. Eles também ficam sabendo que há pouca distância está D. Pedro de Castro, amigo do velho Ramires e partem em busca de abrigo em suas terras. D. Garcia elabora um plano de captura do traidor covarde. A estratégia é colocada imediatamente em prática e obtém sucesso. Lopo de Baião cai prisioneiro das forças de Tructesindo e é submetido a uma morte humilhante e dolorosíssima: ele é amarado aos restos de uma ponte num lago infestado de sanguessugas que lentamente lhe consomem até a última gota de sangue. 
Interessante é observar que esta cena final, tão adequada ao passado glorioso e guerreiro de Portugal, apresenta também um claro viés Naturalista pela crueza da descrição de aspectos fisiológicos cruéis e repulsivos. A elaboração estética da cena está de acordo com os objetivos de Gonçalo ao escrever sua novela histórica, pois ele desejava dar um forte colorido Realista à narrativa despindo-a das brumas românticas nas quais seu tio havia envolvido a trágica história de Tructesindo Ramires.   




3.3. A Análise da Obra

A Ilustre Casa de Ramires, como é notório, trata-se de uma obra que Eça de Queirós não chegou a ver publicada, razão pela qual se costuma designá-la como semi-póstuma. Considerado, inquestionavelmente, um dos seus romances mais importantes, reflexo de muito trabalho e almejo pela perfeição, característica peculiar da escrita queirosiana, nele existem diferenças entre o que aborda a tradição e o que defenderemos a seguir. Com isso, o presente estudo, portanto, busca apontar a ineficácia das afirmações feitas pela tradição, ao qual defende, segundo Moisés (1990):

“A terceira e última fase da carreira de Eça de Queirós corresponde aos anos seguintes à publicação dOs Maias (1888) até à morte do escritor (1900). Alcançando a maturidade, o escritor resolve erguer uma obra de sentido construtivo, fruto da dolorosa consciência de ter investido inutilmente contra o burguês e a família. Ao derrotismo e pessimismo analítico da etapa anterior, sucede um momento de otimismo, de esperança e , transubstanciado em idealismo não mais científico, mas tendo por base o culto dos valores rechaçados. A Ilustre Casa de Ramires (1900) [...] contém a viragem operada em sua carreira, dirigida agora no sentido da superação da ironia, pelo menos da ironia zombeteira, e da sátira dissolvente. A crença substitui o ceticismo cínico e corrosivo de antes”. (Moisés, A literatura portuguesa, 1990 [25ª. ed.1990], p. 196.)


Em contraposição a tal afirmativa, temos uma outra defesa, ao qual nos é mais coerente. Este, por sua vez, relata que não se trata de uma evidência cabal, ao qual Eça de Queirós, no final de sua vida e de sua obra, reconciliou-se com os valores tradicionais e com a cultura portuguesa, passando a vê-los como positivos e saudáveis, mas sim, em contrapartida, é afirmado por Maia (2000):

“para expor a fragilidade deste esquema em que se baseia a interpretação tradicional da trajetória de Eça, é oportuno lembrar que justamente neste período de maturidade, supostamente marcado pelo conservadorismo do escritor, ele escreve seus textos mais críticos do ponto de vista político e social, que, por exemplo, expõem uma crítica severa ao poder econômico da burguesia e prevêem até mesmo (embora sem defendê-la) a tomada do poder pelo emergente proletariado e o conseqüente ‘desmanche’ do capitalismo”. (MAIA, 2000, p. 133)
 


Por conseguinte, podemos afirmar que vem à baixo toda a afirmação do tradicionalismo. Com isso, podemos dizer que é sim nestas últimas obras (1887 a 1900, conhecida como a terceira fase queirosiana) contém as críticas mais severas ao país, sua sociedade e política, e não o contrário, o que diz se tratar de uma crítica moralizante, de reconciliação com o país.
Em fim, podemos considerar segundo a afirmação de Siqueira (2003, p. 1), que “Eça não estaria abandonando os seus ideais socialistas, mas transformando os romances de panfletos em expressões líricas de uma realidade que possuía qualidades e potencialidades”.
O que nos é mais proveitoso em tal defesa é que o romance se passa no campo, e não na cidade. Aspectos relevantes que nos fazem pensar na diferença ao qual Eça usou uma forma diferencia na escrita, mas sem perder o estilo das fases anteriores. Pois, como nos é sabido, a primeira fase: O crime do padre Amaro e Primo Basílio, é passado na cidade. Já a partir de Os Maias, e nos últimos romances, o ponto de vista passa a ser o do campo. Segundo Siqueira (2003):

“Resgatando valores históricos da vida rural lusitana e contrapondo-os aos vícios e às vicissitudes da existência urbana, o escritor – ao assumir o timing da pulsação do campo, as qualidades de seu modo reflexivo devidas à proximidade com a natureza – vai substituindo a crítica por um desejo de entendimento e reflexão sobre a vida social lusitana”. (SIQUEIRA, 2003, p.1)

Em suma, é nos fácil afirmar que Eça apresenta-nos em sua obra o impasse do momento de transição que a sociedade portuguesa estava passando. Com isso, fica-nos claro a passada de uma posição para outra na relação campo-cidade – de igual forma a da vida social do país, ao qual se alternava entre os dois pólos.
Com isso, como cita Siqueira, p. 4, tal ideia nos leva a “concluir que a atenção de Eça estava bastante inclinada para a problemática neocolonialista e suas repercussões políticas e culturais”. Assim, é fácil notarmos a importância de uma interpretação da obra queirosiana por uma dialética da relação campo-cidade – feita por Antônio Cândido[1].
Por conseguinte, percebemos que a primeira fase dessa obra ancora-se numa dialética positiva, própria da dinâmica do sistema capitalista; nas obras da fase final, uma dialética negativa informa a estrutura dos romances.


  




4. Considerações Finais

Após a realização deste trabalho podemos concluir que, A Ilustre casa de Ramires, de Eça de Queirós, não se trata de uma evidência cabal de que o autor, no final de sua vida e de sua obra, reconciliou-se com os valores tradicionais e com a cultura portuguesa, passando a vê-los como positivos e saudáveis. Pelo contrário, notamos que o mesmo se trata de uma das maiores obras, onde Eça usou de uma crítica severa a seu país.  
É notório apontar a grande importância de uma interpretação bem feita da obra queirosiana. Com isso, o uso de dialética da relação campo-cidade foi de suma importância para o entendimento e defesa de nosso trabalho. Assim, fica-nos evidente que a primeira fase dessa obra ancora-se numa dialética positiva, própria da dinâmica do sistema capitalista; nas obras da fase final, como a estuda, aplica-se a uma dialética negativa.
Por conseguinte, podemos afirmar que o autor, Eça de Queirós, no fim da vida e de sua obra, não mudou seu modo de pensar e ver Portugal, mas, sobretudo, desenvolveu um outro método de escrita, utilizando-se de elementos do campo, ao invés da cidade.



5. Bibliografia

MAIA, J. R. "A visita ao velho sótão dos avós: uma revitalização do presente pelo exemplo do passado?". In Beatriz Berrini (org.). A ilustre Casa de Ramires: cem anos. S. Paulo: EDUC, 2000.

MOISES, Massaud. “A literatura portuguesa”, 25ª ed., Editora Cultrix – São Paulo, 1990.

QUEIRÓS, José Maria Eça de. “A Ilustre Casa de Ramires”, 6ª ed., Série Bom Livro, Editora Ática, 1999.

SIQUEIRA, José Carlos. "A dialética negativa entre campo e cidade em Eça de Queirós". In: Anais do XIX Encontro Brasileiro de Professores de Literatura Portuguesa. Curitiba: ABRAPLIP, 2003._________. “Introdução”, in Eça ensaísta. Dissertação de mestrado, FFLCH da USP,






[1] “Entre campo e cidade”, in Tese e antítese.

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