terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Capitu: traidora ou traída?



Narrado em 1º pessoa por um narrador-personagem, que se coloca como escritor, a história de Dom Casmurro tem como primeira chave para tentarmos nos aproximar de seu enigma a própria figura deste que ao mesmo tempo a vive e relata. Assim, para a crítica tradicional, há um relacionamento paradoxal com Escobar, que sendo amigo era também um fantasma na vida conjugal, pois Bentinho acreditava que ele era o amante de Capitu. Acredita no sentimento antagônico em relação ao filho Ezequiel, por sua suposta semelhança com Escobar. Assim, a questão do adultério é muito forte, além de ser o único detalhe estudado. Por conseguinte, a tradição só aborda a temática da traição.
Por outro lado, é notado, além desta visão outras mais abrangentes, ao qual diz que Machado nos mostra – sob a agitação sentimental do primeiro plano, a presença de interesses sociais relacionados à organização e à crise da ordem patriarcal – um universo bolorento e recalcado onde vivia Dona Glória, com seus viúvos, agregado e escravos, onde a energia e a liberdade de opinião da mocinha moderna e pobre, atrevida e irreverente, lúcida e atuante, tornam-se intoleráveis. Além dos ciúmes do menino rico, de família decadente, do bacharel típico do Segundo Reinado, que condensam uma problemática social ampla, por trás daquele que difama e destrói a amada. Sob a visão de críticos como Gledson, ao qual defende que o romance se insere no âmbito do realismo, com a intenção de revelar, através da ficção, a verdadeira natureza da sociedade que está retratando. Outros, assim como Roberto Schwarz, relatam a questão da política, liberalismo e o agregado como linhas a serem estudadas em Dom Casmurro, Bem diferente do que diz a tradição. Mencionam a figura de Capitu, não como traidora, mas sim de uma mulher que queria ser mais do que uma simples dona de casa, ser um sujeito.
De tal forma, ao falarmos de Capitu podemos fazer um gênesis de sua vida – no contexto social. Aquela, ao qual era uma simples vizinha pobre de Bentinho e que se tornou a sua esposa, rompendo, aparentemente, com os preconceitos. Esta mesmo Capitu, que ganhou a amizade de D. Glória e de toda a família, conquistara também o coração de Bento Santiago e tornou-se rica. Para a sociedade, jamais um homem de posse e nome se conformaria em se casar com alguém de inferior nível social, mas ele o fez. Aparentemente, eram pessoas boas e não iguais as outras que formavam a sociedade daquela época.
Mas, a partir do momento que a mesma Capitu começa a investir, querer crescer, ser alguém, todo aquele amor, nutrido por Bentinho, desaparece completamente. Revela-se ser um outro homem, este mal e obstinada a destruir a quem dizia tanto amar. Tal dúvida começa a partir do capítulo 106, Dez libras esterlinas, onde a mesma relata conseguir juntar dinheiro graças às dicas de Escobar. Nesta época a mulher não podia se meter em negócios e tal motivo enfureceu Bentinho, pois Capitu estava fazendo o que jamais poderia fazer. Daí então as invejas, por parte dele, só tende a aumentar até que, após a morte do amigo desfaz o casamento – mas tudo às escondidas, pois não gostaria de denegrir sua imagem perante a sociedade ao se divorciar. Conclui-se que, o conflito do casamento começou a partir do desejo de Capitu em ser autônoma. A saída encontrada foi o do adultério por parte da esposa com o amigo.
Entretanto, pode-se analisar o contexto social em que se instaura o conflito, segundo as idéias do texto "AS IDÉIAS FORA DO LUGAR", ao exemplificar com José Dias, agregado de Bentinho, a questão da sociedade do favor. Assim, segundo Roberto Schwarz, o homem livre tinha acesso à vida por meio do favor e definia a sua condição de dependente de quem possuía a terra, essa relação determinou uma das grandes classes da sociedade brasileira. De igual forma era a condição de José Dia – vivia de favor – e Bentinho – possuidor de terra. Por conseguinte, o desenvolvimento da vida ideológica deu-se propriamente entre estas duas classes (latifundiário e homem livre): eles relacionavam-se por meio do favor, que nada mais era que a manifestação de uma relação produtiva de base assegurada pela força. O favor submete a auto-estima e a estima ao interesse material em uma forma fluida, ele pratica a dependência da pessoa, difunde a cultura interessada e os serviços pessoais. No romance, fica-nos claro a dependência financeira do agregado no latifundiário, onde José Dias tenta convencer Bentinho a ir à Europa, pois só desta forma poderia, também, ir.
  Por fim, surge na segunda parte do romance, um Bentinho manipulador, sendo seu ponto de vista o que domina tudo na narrativa. Até mesmo os demais personagens passam de projeções de sua alma. São lembranças do seu passado, que vão ressurgindo do subsolo da memória à medida que ele procura a reconciliação em si mesmo. Ele mente, distorce, dissimula e confunde o leitor com quem conversa ao longo da narração. Tenta, assim, convencer que fora traído.
Por conseguinte, podemos afirmar que a acusação de adultério por Bentinho serviu para justificar sua recusa por Capitu tentar se tornar um sujeito, pois ele jamais aceitaria sua esposa ser um sujeito. Aquela que fora pobre vencer e se tornar mais do que ele jamais seria, era demais para um invejoso, obcecado, ciumento, dissimulado, tímido “filhinho de mamãe” que imaginava coisas, para seu próprio deleite. Com isso, quem traiu foi Bentinho, não Capitu – pois esta só queria ser alguém, além de esposa e mãe. Bentinho a invejava e ele mesmo relatou que esta era mais homem do que ele jamais seria. Está ai a prova de que não houve traição, mas sim, pura inveja do que Capitu representava – uma pessoa decidida, determinada e, acima de tudo, corajosa.


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