segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Exercícios com Respostas: Poema de Carlos Drummond de andrade


1. Leia o poema de Carlos Drummond de Andrade abaixo e responda:
a         Faça um breve comentário do poema abaixo. (não esqueça da análise estrutural).
             Extraia do poema características do autor e/ou do período a que ele se refere e explique-as.

Respostas:
      "Resíduo", grande clássico de Carlos Drummond de Andrade, impresso em A rosa do povo. O que fica "é certo", algumas partículas do viver permaneceram além do querer ou não do sujeito, ("De tudo ficou um pouco./ Do meu medo. Do teu asco./ Dos gritos gagos. Da rosa/ ficou um pouco (...)"). Há uma "suspeita" que está impresso no poema, é o sentimento de um tempo outro, longe daquela "certeza". Lá, no mundo ainda com cheiro de guerra do autor de Sentimento do mundo, havia esta imagem: "De tudo fica um pouco./ Não muito: de uma torneira/ pinga esta gota absurda,/ meio sal e meio álcool"; aqui, com um cheiro de pólvora parecido, porém disfarçado de uma paz imaginária, a idéia é mais nítida e seca: "Sons de gotas na torneira da pia...". A gota absurda de "Resíduo" é refletida na tão cotidiana gota na torneira da pia de "Buquê de presságios" de maneira completamente inversa. Se por um lado o mundo bipolar preparava a mira para a Guerra Fria e tudo era, aberto a todos os olhos, absurdo – as duas grandes potências, EUA e URSS, queriam se exterminar de qualquer maneira na busca cega e cruel pelo trono do mundo –, por outro, em tempos de vampirismo monetário e desespero social, o absurdo é o que está guardado por trás do corriqueiro. A "gota da pia", que tomou conta da atenção do sujeito, é apenas um sintoma de uma grande mentira que está estampada por todos os lados da sociedade: a de que tudo está bem. A tristeza, sob a escuridão da dúvida, é o que está entre o globo ocular e o próximo passo. Drummond encerra seu poema com a certeza: (...)/ fica sempre um pouco de tudo./ Às vezes um botão. Às vezes um rato. Também, o poeta vale-se tanto do “estilo sublime” (padrão elevado da língua culta) quanto do “estilo mesclado”(linguagem elevada e linguagem coloquial). Os versos, geralmente curtos das obras inaugurais, tornam-se mais longos. Há um predomínio do verso livre (métrica irregular) e do verso branco (sem rimas). O humor quase desaparece, o coloquial é atenuado e um tom grave e solene passa a impregnar os versos.
A contagem das sílabas métricas do verso:


De/ tu/do/ fi/cou/ um/ pou/co
1     2  3   4   5      6     7
Do/ meu/ me/do/. Do/ teu/ as/co.
1      2       3  4      5     6    7
Dos/ gri/tos/ ga/gos/. Da/ Ro/as
1        2   3    4    5     6     7
Fi/cou/ um/ pou/co.
1   2       3    4

Fi/cou/ um/ pou/co/ de/ luz/.
1   2       3     4   5     6    7
ca/pta/da/ no/ cha/péu.
1   2   3     4     5     6
Nos/ o/lhos/ do Ru/fão
1      2   3      4   5    6
de/ ter/nu/ra/ fi/cou/ um/ pou/co
1     2  3  4    5  6      7      8
(mui/to pou/co).
1     2     3


O poeta se comunica por sons. Ele percebe e cria relações entre o que vê, imagina, sente e pensa. Ele estabelece comparações e contrastes e cria imagens e analogias, isto é, procura semelhanças e diferenças entre as coisas. A linguagem poética tem um grande poder de evocação, de criar novas realidades. Notamos, assim a homofonia (/as/ e /os/) nos versos:


“se cobriu. Ficaram poucas
Roupas, poucos véus rotos”

A rima no final das palavras é bastante visível e muito utilizada em poesias, porém, percebe-se que além desse recurso, o poeta se valeu também da aliteração de algumas palavras (ainda na mesma estrófe):

“se cobriu. Ficaram poucas
Roupas, poucos véus rotos”


Por meio da aliteração dos fonemas /s/ (com som de s) têm como função a de prolongar a rima na poesia.

O poeta faz uso da anáfora nos seguintes versos:

“um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?”

“E sob as ondas ritmadas
E sob as nuvens e os ventos
E sob as pontes”

Por fim, é importante lembrar que não é o próprio autor que se expressa no poema, mas sim um "Eu poético" ou "Eu lírico". O Eu poético também é uma criação literária, uma ficção.


b       Para Drummond, a poesia não é apenas um meio para se comunicar alguma coisa; a poesia é algo que se comunica a si mesma. Notado no poema que há uma luta entre um lado bom versus o lado mau de cada situação:
9º estrofe: “do revólver... de aspirina”.
11º estrofe: “e sob os espetáculos e sob a morte escarlate”
A caracterização geral do universo poético de Drummond é dificílima: a cada nova publicação, o poeta renova-se e a transfiguração chega a ser tão significativa que parece carregar consigo uma ruptura com o escrito antes. O ciclo evolutivo evidencia-se claramente, quando da leitura de seus vários livros, dando-nos a impressão de livros distintos, de poetas também distintos.
Drummond é um poeta que apreende o mundo, refundi-o interiormente, devolvendo-nos, dele, uma macrovisão impressionante. Através de sua obra, vê-se que é o poeta da solidariedade humana, preocupado com o homem de seu tempo, com o homem alienado. Às vezes, o que assume uma atitude de analista, procurando vislumbrar o futuro e, às vezes, consegue fazê-lo de modo otimista, trazendo-nos uma mensagem de fé numa humanidade renovada. Por outro lado, o poeta manifesta o seu pessimismo e a sua personalidade reservada, tímida, desconfiada, de um poeta que nasceu "para ser um gauche na vida"; outras vezes, deixa transparecer uma fina ironia e humor, utilizando-se também do poema-piada, herança dos modernistas da primeira fase.
Notamos a rivalidade entre a natureza e a cidade em, começando citar a natureza até chegar na cidade:

11º estrofe: “e sob as ondas ritmadas
                    e sob as nuvens e os ventos
                    e sob as pontes e sob os túneis”

Por fim, Drummond interioriza-se, manifestando um sentimento de decepção e amargura, de falta de sentimento da existência ou de solução para o destino. Além disso, acentua a temática da dúvida, que surge ao final do poema (às vezes...), num lirismo contido por vezes irônico.


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