quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Crítica: O que é mito?



 
Embora todos os povos sempre produziram seus contos, suas lendas, seus personagens extraordinários, não podemos confundir o mito com fábula ou lenda, pois ele é real. No tempo de Homero (século VII, A.C.), o mito designava um discurso genérico acerca das coisas e somente mais tarde essa palavra passou a significar um "conto sobre a divindade", uma história que envolvia o céu e a terra, os seres celestes e os mortais.
Como cita Mircea Eliade – Os Mitos do Mundo Moderno, páginas 15 e 16, em Mitos, Sonhos e Mistérios: “O que é realmente um mito”? Na linguagem corrente do século XIX, o mito significava tudo o que se opunha à realidade: da criação de Adão ao homem invisível, tal como a história do mundo contada pelos Zulus ou a Teogonia de Hesíodo, eram “mitos”. Como muitos outros lugares comuns do Iluminismo e do Positivismo, este também era de estrutura e origem cristã; porque, para o cristianismo primitivo, tudo aquilo que não tinha justificação num ou noutro dos dois Testamentos era falso: era uma “fábula” (...). Começa finalmente a conhecer-se e compreender-se o valor do mito, tal como elaborado pelas sociedades “primitivas” e arcaicas, isto é, pelos grupos humanos entre os quais o mito é a propria fundamentação da vida social e cultural (...) Sendo real e sagrado, o mito torna-se exemplar e, por conseguinte, passivel de se repetir, porque serve de modelo e, conjuntamente, de justificação a todos os actos humanos”. Assim, o mito – apesar de ser um conceito não definido de modo preciso e unânime – constitui uma realidade antropológica fundamental, pois ele não só representa uma explicação sobre as origens do homem e do mundo em que vive, como traduz por símbolos ricos de significado o modo como um povo, ou civilização, entende e interpreta a existência.
A origem do mito perde-se na penumbra da pré-história, mas podemos fazê-la coincidir, ao menos virtualmente, com o acontecimento chave, que demarcou inexoravelmente o surgimento da espécie humana, um acontecimento de extraordinária importância no longo caminho da evolução do homem, que foi o despertar da consciência, do pensamento reflexivo. Pode-se afirmar, com isso, que o mito nunca foi e nem será jamais totalmente extirpado da vida humana, porque a sua origem se confunde com a do próprio homem.
Mas, o que é realmente um mito? Poderíamos afirmar ser uma narrativa tradicional de conteúdo sagrado ou mágico, que procura explicar os principais acontecimentos da vida por meio do sobrenatural. O conjunto de narrativas desse tipo e o estudo das concepções mitológicas encaradas como um dos elementos integrantes da vida social são denominados mitologia. Os mitos trabalham com a idéia não linear – idéia de tempo circular. Já, no mundo moderno, o grande mito ocidental é o cristianismo. Também, podemos afirmar que os mitos só podem ser revividos nos ritos; o rito abre a porta do templo; e transporta ao tempo mítico – tempo profano versus tempo religioso (visão dos mitólogos).
Segundo Mircea Eliade, já citado anteriormente, que atribue importância especial ao contexto religioso do mito. Com efeito, são muito frequentes os mitos que versam sobre a origem dos deuses e do mundo (chamados, respectivamente, mitos teogônicos e cosmogônicos), dos homens, de determinados ritos religiosos, de preceitos morais, tabus, pecados e redenção. Em certas religiões, os mitos formam um corpo doutrinal e estão estreitamente relacionados com os rituais religiosos – o que levou alguns autores a considerar que a origem e a função dos mitos é explicar os rituais religiosos. Mas tal hipótese não foi universalmente aceita, por não esclarecer a formação dos rituais e porque existem mitos que não correspondem a um ritual.
Ainda citando Mircea Eliade, Aspectos do Mito, páginas 12 e 13, a tentativa de definir mito é a seguinte: “o mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares (...) o mito conta uma história sagrada, relata um acontecimento que teve lugar no tempo primordial, o tempo fabuloso dos começos...o mito conta graças aos feitos dos seres sobrenaturais, uma realidade que passou a existir, quer seja uma realidade tetal, o Cosmos, quer apenas um fragmento, uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, é sempre portanto uma narração de uma criação, descreve-se como uma coisa foi produzida, como começou a existir...”
O mito só fala daquilo que realmente aconteceu – do que se manifestou – sendo as suas personagens principais seres sobrenaturais, conhecidos devido aquilo que fizeram no tempo dos primordios. Os mitos revelam a sua atividade criadora e mostram a “sobrenaturalidade” ou a sacralidade das suas obras. Em suma, os mitos revelam e descrevem as diversas e frequentemente dramáticas eclosões do sagrado ou sobrenatural no mundo. É está “intormição” ou eclosão do sagrado (sobrenatural), que funda, que dá origem ao mundo tal como ele é hoje. Sendo também graças à intervenção de seres sobrenaturais que o homem é o que é hoje. O homem contemporâneo, por sua vez, sente a peremptória necessidade de um mito. O ceticismo é infecundo e o homem não se conforma com a infecundidade da sociedade moderna.
Em suma, o papel do Mito é extremamente importante na constituição da cultura, independente do local em que se originou – se pertence ou não a um povo. Ele contribuiu para o desenvolvimento individual e colectivo. Os mitos permitem a tomada de consciência sobre a vida instintiva, possuem a capacidade de gerarem padrões de comportamento que garantem a evolução psico-sosial, e a atitude criativa perante a vida (nos diferenciando dos animais). Eles não deixam de representar a história da nossa humanidade, dando um sentido à nossa existência afectiva e espiritual.

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