quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A Rosa de Hiroshima

1. Aspectos Históricos

O Bombardeamento de Hiroshima foi ataque nuclear ocorrido no final da Segunda Guerra Mundial contra o Império do Japão realizados pela Força Aérea dos Estados Unidos da América na ordem do presidente americano Harry S. Truman nos dias 6 de agosto de 1945. Após seis meses de intenso bombardeio em 67 outras cidades japonesas, a bomba atômica "Little Boy" caiu sobre Hiroshima numa segunda-feira.

Historicamente, estes são até agora os únicos ataques onde se utilizaram armas nucleares. As estimativas do número total de mortos variam entre 140 mil em Hiroshima, sendo algumas estimativas consideravelmente mais elevadas quando são contabilizadas as mortes posteriores devido à exposição à radiação. A maioria dos mortos eram civis.

As explosões nucleares, a destruição das duas cidades e as centenas de milhares de mortos em poucos segundos levaram o Império do Japão à rendição incondicional em 15 de agosto de 1945, com a subsequente assinatura oficial do armistício em 2 de setembro na baía de Tóquio e o fim da II Guerra Mundial.

O papel dos bombardeios atômicos na rendição do Japão, assim como seus efeitos e justificações, foram submetidos a muito debate. Nos EUA, o ponto de vista que prevalece é que os bombardeios terminaram a guerra meses mais cedo do que haveria acontecido, salvando muitas vidas que seriam perdidas em ambos os lados se a invasão planejada do Japão tivesse ocorrido. No Japão, o público geral tende a crer que os bombardeios foram desnecessários, uma vez que a preparação para a rendição já estava em progresso em Tóquio.

2. Hiroshima durante a 2ª Guerra Mundial

Na época do seu bombardeamento, Hiroshima era uma cidade de considerável valor industrial. Alguns aquartelamentos militares estavam localizados nas suas imediações, tais como os quartéis-generais da Quinta Divisão e o 2º Quartel-General do Exército Geral do Marechal-de-Campo Shunroku Hata, o qual comandou a defesa de todo o sul do Japão. Hiroshima era considerada uma base menor de pouca importância de fornecimentos e de logística para os militares japoneses. A cidade era, com efeito, um centro de comunicações, um ponto de armazenamento, e uma zona de reunião para tropas. Era uma das cidades japonesas deixadas deliberadamente intocadas pelos bombardeamentos estado-unidenses, proporcionando um ambiente perfeito para medir o dano causado pela bomba atómica na luz do dia.

O centro da cidade continha vários edifícios de betão armado e outras estruturas mais ligeiras. A área à volta do centro estava congestionada por um denso aglomerado de oficinas de madeira, construídas entre as casas japonesas. Algumas fábricas de maior dimensão estavam estabelecidas no limite urbano. As casas eram, na sua maioria, de madeira com topos de telha, sendo também de madeira vários dos edifícios fabris. A cidade era assim, no seu todo, extremamente susceptível a danos por fogo.

A população tinha atingido um máximo de mais de 380.000 pessoas no início da guerra, mas antes de agosto de 1945 tinha já começado a diminuir firmemente, devido a uma evacuação sistemática ordenada pelo governo japonês. Na época do ataque, o número de habitantes era de aproximadamente 255.000 pessoas. Este número é baseado no registo populacional que o governo de então utilizava para calcular o número de rações, pelo que as estimativas de trabalhadores e tropas adicionais que entravam na cidade poderão ser para sempre inexatas.

3. O Bombardeamento

Hiroshima foi o alvo principal da primeira missão de ataque nuclear dos E.U.A., a 6 de Agosto de 1945. O B-29 Enola Gay, nome da mãe do piloto, Coronel Paul Tibbets, decolou da base aérea de Tinian no Pacífico Oeste, a aproximadamente 6 horas de voo do Japão.

O dia 6 foi escolhido por ter havido anteriormente alguma formação de nuvens sobre o alvo. Na altura da decolagem, o tempo estava bom e tanto a tripulação como o equipamento funcionaram adequadamente. O capitão da Marinha William Parsons armou a bomba durante o voo, já que esta se encontrava desarmada durante a descolagem para minimizar os riscos. O ataque foi executado de acordo com o planejado até ao menor detalhe, e a bomba de gravidade, uma arma de fissão de tipo balístico com 60 kg de urânio-235, comportou-se precisamente como era esperado.

Cerca de uma hora antes do bombardeamento, a rede japonesa de radar de aviso prévio detectou a aproximação de um avião americano em direcção ao sul do Japão. O alerta foi dado e a radiodifusão foi suspensa em várias cidades, entre elas Hiroshima.

O avião aproximou-se da costa a grande altitude. Cerca das 8:00, o operador de radar em Hiroshima concluiu que o número de aviões que se aproximavam era muito pequeno - não mais do que três, provavelmente - e o alerta de ataque aéreo foi levantado. Para poupar combustível, os japoneses tinham decidido não interceptar formações aéreas pequenas, as quais presumiam ser, na sua maioria, aviões meteorológicos. Os três aviões em aproximação eram o Enola Gay, The Great Artist (em português, "O Grande Artista") e um terceiro avião sem nome na altura mas que viria a ser mais tarde batizado de Necessary Evil ("Mal Necessário"). O primeiro avião transportava a bomba, o segundo tinha como missão gravar e vigiar toda a missão, e o terceiro foi o avião encarregado de fotografar e filmar a explosão.

No aviso radiodifundido foi dito às populações que talvez fosse aconselhável recolherem aos abrigos antiaéreos caso os B-29 fossem realmente avistados, embora nenhum ataque fosse esperado para além de alguma missão de reconhecimento. Às 8:15, o Enola Gay largou a bomba nuclear sobre o centro de Hiroshima. Ela explodiu a cerca de 600 m do solo, com uma explosão de potência equivalente a 13 kton de TNT, matando um número estimado de 70.000 a 80.000 pessoas instantaneamente. Pelo menos 11 prisioneiros de guerra dos E.U.A. morreram também. Os danos infraestruturais estimam-se em 90% de edifícios danificados ou completamente destruídos.

4. Sobrevivência de algumas estruturas

Alguns dos edifícios de concreto armado reforçado de Hiroshima foram construídos tendo em mente o perigo, sempre presente, de terramotos (ou terremotos), pelo que, muito embora estivessem localizados no centro da cidade, a sua hiperestrutura não colapsou. Como a bomba detonou no ar, a onda de choque foi orientada mais na vertical (de cima para baixo) do que na horizontal, fator largamente responsável pela sobrevivência do que é hoje conhecido por "Cúpula Genbaku", ou "Cúpula da Bomba Atómica", projectada e construída pelo arquiteto checo Jan Letzel, a qual estava a apenas a 150 m do hipocentro da explosão. A ruína foi chamada de Memorial da Paz de Hiroshima e foi tornada Património Mundial pela UNESCO em 1996, decisão que enfrentou objecções por parte dos E.U.A. e da China.

5. Vinícius de Moraes

Marcus Vinícius de Melo Moraes (Rio, 1913-1980). Fez seus estudos secundários com os jesuítas do Colégio Santo Inácio do Rio e formou-se em Direito. Entre 30 e 40 foi censor e crítico cinematográfico e estudou Literatura Inglesa em Oxford. Ingressando, em 1943, na carreira diplomática, veio a servir os Estados Unidos, na Espanha, no Uruguai e na França. Nunca perdeu, porém, o contato com a vida literária e artística do Rio de Janeiro que nele tem uma das suas expressões mais típicas. Desde os fins da décade de 50, com a afirmação da linha musical conhecido por “bossa nova”, Vinícius tem-se dedicado a compor letras para canções populares, fazendo-o com a sua habitual mestria no manejo do verso.

6. Características da Obra

Nos anos 1940, suas obras literárias foram marcadas por versos em linguagem mais simples, sensual e, por vezes, carregados de temas sociais. Vinícius de Moraes publicou os livros Cinco Elegias (1943), que marcou esta nova fase, e Poemas, Sonetos e Baladas (1946); obra ilustrada com 22 desenhos de Carlos Leão. Atuando como jornalista e crítico de cinema em diversos jornais, Vinicius lançou em 1947, com Alex Vianny, a revista Filme. Dois anos depois, publicou em Barcelona o livro Pátria Minha.

De volta ao Brasil no início dos anos 1950, após servir ao Itamaraty nos Estados Unidos, Vinícius começou a trabalhar no jornal Última Hora, exercendo funções burocráticas na sede do Ministério das Relações Exteriores.

Em 1953, Aracy de Almeida gravou "Quando Tu Passas Por Mim", primeiro samba de sua autoria. Escrita com Antônio Maria, a canção foi dedicado à esposa Tati de Moraes -e marcava também o fim do seu casamento. Ainda naquele ano, Vinícus foi para Paris como segundo secretário da embaixada brasileira. Aracy de Almeida também gravou "Dobrado de Amor a São Paulo" (outra parceria com Antônio Maria), em 1954. Melhor poeta vinicius de Moraes.

7. O Poema A Rosa de Hiroshima

Este poema, A Rosa de Hiroshima, de Vinícius de Moraes foi publicado no livro Antologia poética em 1954 (Rio de Janeiro: A Noite; a edição não traz registro de data) 271 p.

Há então a idéia entre a bomba atômica e a poesia: o que ainda podemos colher da sua absoluta disparidade? A primeira, projetada única e exclusivamente pela razão e o interesse, dissociada do “princípio responsabilidade” e concebida para destruir; a segunda, resultado da sensibilidade e emoção humanas coadjuvadas pela razão, fruto da necessidade de expressão e construção da cultura. Apesar dessa dessemelhança, a poesia não deixa de falar da bomba atômica, e o faz para perpetuar a lembrança daquilo que não deve esquecido, como se pode ler neste poema.

Este, o qual foi escrito sob o impacto dos horrores da guerra e, mais especificamente, das explosões atômicas no Japão em 1945, talvez possa ser considerado um dos poemas mais conhecidos do público brasileiro que viveu a década de 1970 – ocasião em que foi gravado e amplamente divulgado pelo grupo musical Secos & Molhados, com música de Gerson Conrad. Mas, com exceção do poema de Vinícius, o leitor brasileiro praticamente desconhece expressões artísticas geradas pelo embate da bomba atômica. A literatura do Holocausto, ou a literatura de Auschwitz, por sua vez, tem sido relativamente bem divulgada nos últimos anos aqui no Brasil. Mas o que dizer da literatura produzida no Japão após os horrores vividos em Hiroshima.

8. A Pontuação

Observando a pontuação, percebemos o seguinte:

1. A mesma é quase extinta do poema, por exceção de um único verso (9) onde aparecem apenas duas vírgulas entre a interjeição “oh”.

Mas, oh, não se esqueçam

2. É uma pausa bem no meio do verso e do poema, ou seja, após este verso há mais nove versos seguidos; sendo todos sem pontuação também.

3. A impressão que nos dá é que refletissemos no que já foi dito e nos preparássemos para o desfecho do poema. Sendo não mais citado as pessoas que sofreram com o mal causado pela bomba (primeiros versos) mas sim, ergendo o olhar para Hiroshima – a cidade que foi totalmente devastada pelo mal – e a bomba que a destruiu.

9. A Métrica

Passando a outro elemento material, o rítmo, verifica-se inicialmente que o metro é de 5 sílabas (rendodilha menor: versos curtos – tom elegíaco), e que uma leitura meramente silábica não adianta de nada para a compreensão. Mas, o mesmo não é tolmente formado por todos os versos com o mesmo metro. Seja o estribilho:

1 2 3 4 5

Pen / sem / nas / me / ni / nas

Ce / gas / i / ne / xa / tas

Mas se lermos observando rigorosamente a entonação, isto é, dando força às sílabas tônicas nas últimas palavras notaremos algo interessante:

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Ou: _______________--____

_______________--____

Notamos que ambos os versos há o ápice, enqunto a entonação, no mesmo lugar e depois há, novamente, a queda. Isto acontece desde o primeiro verso até o verso 9, onde a a vírgula – já citada e explicada anteriormente. Após isso não se dá a mesma leitura.

É como se houvesse dois poemas em um só. Onde um é lento, primeiros vesros (até o 9), e o outro mais rápido e com mais ênfase.

Por conseguinte, podemos notar os efeitos da bomba nuclear nas pessoas, tornando-as lentas, doentes, enquanto outras já mortas. Já, no verso 10 em diante, quando se relata da bomba, propriamente dita, e da cidade Hiroshima, vê-se a rapidez com que esta atinge a cidade que é devastada imediatamente. Parece-nos que o poema começa pelo fim da tragédia, pois os 10 últimos versos deveriam ser os primeiros e os 9 primeiros versos os últimos. Há, assim, uma inversão dos acontecimentos. Com isso, parece-nos que Vinícius de Moraes quissesse fazer um resumo do que aconteceu nos primeiros versos até o 8 verso. Após, já no 9 verso desse uma pausa, como se quisesse fazer uma restrospectiva do acontecido: Mas, oh, não se esqueçam. Só depois descreveria o acontecido, para que as pessoas se lembrassem da tragédia.

10. A Rima

Quanto à rima notamos que a mesma ocorre, quase, sussecivamente nos primeiros 8 versos:

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

O interessante entre todas elas é que estão no mesmo gênero e número (feminino/plural). Isto nós dá a idéia de fragilidade ao qual se encontravam os moradores desta cidade (pelo fato das palavras estarem no feminino, dando-nos a idéia de sexo mais fraco). Já pelo fato das palavras estarem no plural significa a multidão de pessoas que se encontravam indefesas naquele dia do bombardeio.

Já nos últimos verso que vão do 10 ao 18 encontramos:

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada

Todas palavras no mesmo gênero e grau (feminino/singular). O que difere dos versos anteriores é que aqui estão no singular, reforçando a idéia de uma bomba e uma cidade (Hiroshima), ambas palavras femininas.

11. Aspectos Importantes: Adjetivos e Verbos

O poemas e formado morfologicamente por substantivos, adjetivos e verbos. Ao fazermos o levantamento dos adjetivos ultilizados no poema, notamos que os mesmo são usados para ilustrar as diversas consequências da ultilização da bomba (tirando, obviamente, a morte quase instantânea).

Pensem nas crianças

MUDAS TELEPÁTICAS (problemas de má-formaçao do feto)

Pensem nas meninas

CEGAS INEXATAS (uma variação de catarata e problemas motores)

Pensem nas mulheres

ROTAS ALTERADAS (comprometimento do sistema hormonal)

A rosa HEREDITÁRIA (problemas genéticos)

A rosa radioativa

ESTÚPIDA E INVÁLIDA (retardamento mental e invalidez)

O resto do poema fala da antítese da “rosa”, ou seja, a imagem da bomba explodindo lembrava a de um rosa se abrindo. Mas, era ao mesmo tempo uma “anti-rosa”, não tinha perfume, nem cor, nem nada (nessa parte ele se refere à cidade de Hiroshima que ficou – literalmente – sem nada, sem cor, sem perfume e sem vida).

Já, quanto ao verbos, notamos o tempo imerativo que é, por várias vezes, citado: Pensem. E, no meio do poema encontramos: Mas, oh, não se esqueçam; outro verbo no imperativo.

São poucos verbos usados, mas com grande impacto de persuasão e reflexição. Strazendo, implicitamente, a idéia de uma exortação.

O que nos resta são os adjetivos, já citados acima, e os substantivos (sendo todos no feminino, alguns no plural e outros no singular, também já mencionados).

12. A rota e sua significação: questão material

A rosa está sendo manifestada pela rota das consoantes bilabias /p/ e /t/ liguodentais (oclusivas e sudas). Isto nos dá uma idéia de uma rachadura na terra, provocada pela explosão da bomba radioatíva.

Veja o exemple abaixo (1º versos):


Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Já, quanto a 2º parte, notamos o seginte:


Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

Parece-nos até uma contagem refressiva, começando com as consoantes linguodentais explosivas /d/. E segida, logo após pelas já citadas vogais /t/ e terninando na explosão da bomba que se dá /v/ da palavra inválida (que é uma palavras proparoxítona), assim como estúpida. Tendo uma mesclagem de palavras paroxitonas e proparoxítonas nos versos do poema.

Os últimos versos restantes dá-nos a impresão de silêncio após a explosão. O silêncio do nada, como afirma o próprio poema:


A rosa com cirrose

A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada

Por fim, a cidade tornou-se em nada, envolto em morte e destruição por todos os lados. Cercada por dor, sem cor e sem perfume e sem vida. Esta ênfase é notada pelo som repetido da vogal /r/(sonora vibrante).

13. A Rosa do Povo X A Rosa de Hiroshima

Ambas as obras foram escritas no mesmo período histórico, após a II Guerra Mundial. A Rosa do Povo é um livro de poesias brasileiro, escrito pelo modernista Carlos Drummond de Andrade entre 1943 e 1945. É a mais extensa obra do autor sendo composta por 55 poemas, também sendo a primeira obra madura e a de maior expressão do lirismo social e modernista. A obra é considerada como uma tradução de uma época sombria, que reflete um tempo, não só individual, mas coletivo no país e no mundo onde o autor capta o sentimento, as dores, e a agonia de seu tempo. No título A Rosa do Povo, a rosa representa a poesia (expressão), das pessoas daquela época.

Assim, como já vimos neste estudo, de igual forma A Rosa de Hiroshima também descreve um acontecimento histórico marcante.

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