quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010


Resumo de livro

Libertinagem


Síntese


Obra publicada em 1930, Libertinagem é composta por trinta e oito poemas. Embora comporte características da primeira geração modernista, como o humor, os versos livres e brancos, a linguagem mais coloquial e o cotidiano, o toque especial do poeta faz-se presente em todos os poemas: a simplicidade.
A simplicidade é um elemento importante no estilo de Bandeira. Ela é responsável pelo refinamento dos poemas – abordar o simples é que é difícil – e chega ao primarismo sentimental, sem resvalar na vulgaridade ou pieguismo.
Libertinagem é, portanto, a novidade, o erotismo, a musicalidade, a força de imagens, o cunho biográfico, a paixão pela vida e a visão da morte, a infância, a pureza, a crítica, a liberdade, a saudade, o amor, a alegria, a tristeza, a evasão, a solidão.


Análise da obra


Entre os 38 poemas de "Libertinagem", 14 foram escolhidos para uma breve análise:



1) Porquinho-da-Índia – Poema de tom narrativo e memorialista, destaca a pureza, a inocência de uma criança que dedica todo seu afeto a um bicho de estimação. O toque de humor fica por conta do verso final, espécie de conclusão em que se introduz a fala do eu lírico.

2) Teresa – Poema-paródia do texto lírico de Castro Alves chamado O “adeus” de Teresa. Antilírico, o poeta revela distância da idealização, confirmando, na última estrofe, a presença das transformações seja no plano físico, seja no sentimental. O texto de Castro Alves é uma exaltação à beleza e ao erotismo da mulher amada, contudo, a última estrofe, acompanhada do tom grandiloquente do poeta, revela traição:




(fragmentos)

A vez primeira que eu fitei Teresa
Como as plantas que arrasta a correnteza
A valsa nos levou nos gritos seus...
E amamos juntos... E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala...
E ela, corando, murmurou-me: “adeus!”
(...)
Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...
E ela, arquejando, murmurou-me: “adeus”!



3) Madrigal tão engraçadinho – “Madrigal” é uma pequena composição poética. Esse poema de Bandeira apresenta três versos e um tema que contraria o anterior: o lirismo amoroso do ponto de vista de uma criança que exalta o ser amado, porém por meio de uma comparação inusitada: o porquinho-da-Índia. O grande momento do poema está nessa comparação, porque ela é sinônimo de sinceridade e alto valor, visto que, para ele, o Porquinho-da-Índia marcara sua vida. É uma celebração à vida.

4) A Virgem Maria – As figuras que aparecem na primeira estrofe revelam a realidade opressora e a morte se pronunciando. Ansiedade, ira e hipocrisia compõem o quadro do enterro até que, em oposição à escuridão e à morte, surge a imagem da Virgem Maria da qual o poeta só ouve a voz dizendo-lhe que “fazia sol lá fora”. É a vida, a liberdade. O termo insistentemente foi grafado de forma especial no poema para enfatizar o seu significado.

5) Oração no Saco de Mangaratiba – O pedido do poeta a Nossa Senhora se dá em Mangaratiba, no Rio de Janeiro, e refere-se à vida. Enfadado, opõe a morte que o espreita, à vida que, apesar de comprida, lhe parece tão mal cumprida. O poeta ainda tinha pela frente mais quarenta e dois anos!


6) Poema tirado de uma notícia de jornal – A morte é o grande tema. Ela é anunciada. Trata-se de uma notícia de jornal sobre a morte de mais um favelado. A miséria anônima e irônica (vem do alto, no morro da Babilônia, como o jardim suspenso da Babilônia) desce e chega à Lagoa Rodrigo de Freitas (lugar da classe alta no Rio de Janeiro). O drama e o elemento narrativo unem-se ao ritmo: versos longos na introdução e no desfecho. Versos curtos, dissílabos quando se trata do prazer.

7) Andorinha – A vida, simbolizada pelo pássaro, é o exterior, o mundo, o cotidiano, todas as “coisas” que contrastam com o sofrimento, a tristeza do poeta que constata: não pôde viver o que queria, passou a vida à toa e, agora, só a morte o aguarda.

8) Evocação do Recife – A subjetividade, o memorialismo, a infância, o folclore e a cultura popular caracterizam esse famoso poema de Manuel Bandeira. O eu lírico revive cenas do passado, como se fosse menino outra vez. Ao lado das brincadeiras de infância, surgem pessoas com as quais conviveu: parentes, vizinhos, amigos. Até os nomes das ruas eram líricos: Rua da União, do Sol, da Aurora. O poema alude ao erotismo, à força das águas, aos pregões e à exaltação do falar popular: “(...) língua errada do povo/ Língua certa do povo”. O ataque ao artificialismo linguístico, no tom da primeira geração modernista, está em: “Ao passo que nós/ O que fazemos/ É macaquear/ A sintaxe lusíada.” A morte, tema fundamental em Bandeira surge nas últimas estrofes, reforçando que a cidade de Recife de seu passado fora-se como seu avô, restou-lhe apenas a memória.

9) Não sei dançar – Poema que abre o livro Libertinagem e traz elementos típicos da primeira geração modernista: os versos livres e brancos, aproximação do surrealismo, referência ao carnaval e à mistura de raças, às doenças “tropicais” e à crítica irônica à indiferença. Observe o título e a relação com os animados seres dos bailes. O poeta não sabe e não quer ser como eles! Porém, os prazeres escapistas acenam para o poeta.

10) Pneumotórax – Refere-se à doença de Manuel Bandeira – a tuberculose. A morte, novamente em evidência, é tratada em tom jocoso da primeira geração modernista: humor negro, coloquialismos, auto-ironia, além da técnica de marcação teatral com o emprego do diálogo. Repare na linha pontilhada que quebra a narrativa dialogada, retendo-nos também a uma quebra na respiração, e no verso 2 – célebre.

11) Irene no Céu – Embora o poema refira-se à imagem de uma pessoa querida pelo poeta, presente em sua infância, Irene representa também a mulher escrava, submissa, inferiorizada. O poeta sutilmente opõe a relação branco e negro na segunda estrofe, onde Irene pede licença a São Pedro, chamando-o de meu branco. Há ainda a exaltação à linguagem coloquial. A fala de São Pedro ordena: “- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.” Na linguagem normativa, o correto seria conservar o tu ou empregar o verbo na 3ª pessoa do singular. Assim, teríamos:
Entra, Irene. Tu não precisas pedir licença
Entre, Irene. Você não precisa pedir licença

12) Vou-me Embora Pra Pasárgada – Nesse poema, Bandeira busca a utopia, a evasão, o lugar onde possa realizar-se, onde fuja da morte (Quando de noite me der / vontade de me matar), onde se mesclem os elementos reais e o nonsense, onde a doença não será empecilho porque simplesmente não existirá, onde a infância será revivida e os homens e mulheres que participaram de sua vida, presentes, representados por Rosa. O coloquialismo, os versos em redondilha maior e a repetição do verso “Vou-me Embora Pra Pasárgada” remete-nos à poesia popular. O termo Pasárgada ocorreu ao poeta num momento de desânimo devido à doença. Ouvira no colégio algo sobre uma civilização ideal, antiga, fundada por Ciro na Pérsia.

13) Poema de Finados – A morte a autocomiseração. Na primeira estrofe, o poeta dirige-se a um interlocutor – tu – refere-se a cemitério e à sepultura do pai; na segunda, ao ritual de se colocar flores na sepultura e orar, porém alerta que o filho é quem necessita de oração. Na terceira estrofe, a explicação: o sofrimento, a amargura, já não há mais nada. Sente-se um morto vivo.

14) Poética – Espécie de plataforma teórica da poesia modernista, Poética é um texto de propostas e críticas. Propostas modernistas e críticas ao tradicionalismo, representado pela estética parnasiana. São sete estrofes, sendo que a 1ª, 2ª, 4ª e 5ª criticam o formalismo, a burocracia e a falta de espontaneidade dos poetas parnasianos. Já a 3ª, 6ª e 7ª propõem a liberdade de expressão, a autenticidade, rompendo com o parnasiano tanto no plano do significante quanto do significado. Trata-se, portanto, de um poema metalinguístico.

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