segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Os Sapos – Manuel Bandeira



Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.



Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".



O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.



Vede como primo
Em comer os hiatos! Que arte!
E nunca rimo
Os termos cognatos!



O meu verso é bom
Frumento sem joio
Faço rimas com
Consoantes de apoio.



Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.



Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas . . .



"Urra o sapo-boi:-
"Meu pai foi rei" - "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!"



Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- "A grande arte é como
Lavor de joalheiro.



Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo.



"Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".



Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;



Lá, fugindo ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é



Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio.

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