segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

ARCADISMO OU NEOCLASSICISMO: (1756-1825)



O termo Arcadismo deriva de Arcádia, região da antiga Grécia, localizada na parte central do Peloponeso. De relevo montanhoso, a Arcádia era habitada por pastores. Desde a Antiguidade, foi associada a uma região mítica, cujos habitantes entremeavam trabalho com poesia, cantando o paraíso rústico em que viviam como a terra da inocência e da felicidade. (MEDINA, Rodrigues, 1997, p. 126)




O ARCADISMO NA EUROPA

Na Europa, ao longo do século XVIII, as filosofias revolucionárias e ideais de libertação do absolutismo foram responsáveis pela queda do sistema feudal. O pensamento teológico deixava de direcionar as explicações das leis do universo. Diante deste panorama, surgia o movimento literário chamado Arcadismo.
O Iluminismo ou o século das luzes foi um período progressista orientado pela ciência e filosofia. Os filósofos iluministas, Montesquieu, Voltaire e Rousseau insistiam na explicação da realidade baseada nas ciências da natureza e na razão. Para eles, a razão era a única fonte de conhecimento.
Como forma de difusão do conhecimento e preservação das descobertas do passado, os pensadores Diderot e D´Alambert coordenaram a execução da Enciclopédia, dicionário arrazoado das ciências, das artes e ofícios (foram 28 volumes entre 1751 e 1780). A edição da Enciclopédia contou também com a colaboração de Voltaire, Condorcet, Rosseau, Buffon e D´Hollbach. Os enciclopedistas acreditavam que a difusão do conhecimento, além de instruir e difundir os trabalhos do passado libertaria o homem, tornando-o mais feliz e virtuoso.
O Arcadismo teve grande influência em toda a Europa, principalmente na França durante a Revolução Francesa (1789) no século XVIII, outros países também foram influenciados, adotando essa escola literária, entre eles Portugal.
Na Inglaterra do século XVII, a burguesia assume o poder enfraquecendo o regime absolutista e um século mais tarde, o país enfrenta a Revolução Industrial e a ascensão do capitalismo. O desenvolvimento industrial exigia o conhecimento de novas técnicas de produção, o que acarretou contribuiu para a introdução do novo conhecimento, as propriedades da matéria. O conhecimento da natureza possibilitava aos homens uma visão mais objetiva da realidade baseando-se na observação e na experimentação. Na Inglaterra, o desenvolvimento econômico foi impulsionado pelos marcos da Revolução Industrial (a máquina a vapor, o tear mecânico, pequenas oficinas transformando-se em fábricas). Os homens deixavam o campo em busca de trabalho na cidade. As cidades não tinham infraestrutura para atender a crescente urbanização. Então os problemas sociais enfrentados na época fizeram com que a literatura Árcade se voltasse para o pastoralismo, à valorização da natureza, como fuga para os problemas da cidade, a nostalgia do campo foi à inspiração para uma poesia simples e bucólica (bucolismo).


CARACTERÍSTICAS DO ARCADISMO




O Arcadismo foi um período de atenuação dos aspectos pesados e exagerados do Barroco. Eliminou frases pomposas e metáforas rebuscadas, traços barrocos considerados defeituosos.
A poesia árcade buscava o homem simples, os elementos da natureza, os temas bucólicos e pastoris, fugindo assim dos centros urbanos, exaltando a vida no campo. Os poetas adotavam esquemas rítmicos simples, mais graciosos, agradáveis, claros e regulares, versos curtos e ausência de rimas em alguns versos. São também características do movimento, a retomada da poesia greco-romana (neoclassicismo), o uso da poética da Antiguidade - retomada da teoria aristotélica (a arte como imitação da natureza) e o pensamento voltado para o racional. Os poetas assinavam com pseudônimos de pastores gregos ou romanos para demonstrar seus vínculos com a Natureza.
A poesia árcade despoja-se quase que totalmente das figuras de linguagem e hipérboles. O eu lírico é um pastor que escreve para sua amada (musa), geralmente uma mulher inalcançável, o amor é racionalizado, tem-se uma inspiração nos deuses e heróis da história grega, a predominância da razão e a ciência em oposição à fé e religião. Observa-se o equilíbrio entre a razão e a fantasia, através de uma “disciplina literária” a ser estabelecida pelas Arcádias que é seguida pelos seus membros.
No Arcadismo encontramos lemas como carpe diem (aproveitar o dia), fugere urbem (fugir das cidades) princípio de valorização da natureza, inutilia truncat (cortar o que é inútil) retirar do texto tudo o que for excessivo e exagerado, tempus fugit (o tempo foge), áurea mediocritas (lugar medíocre - defesa do equilíbrio do campo).
Os árcades rejeitavam o Barroco criticando os vícios e os excessos praticados nele. Eles também proclamavam que a formação moral, deveria ser uma das funções da literatura. Assim como também tinham o desejo de dar à literatura uma função social, de caráter didático e doutrinário. A literatura deveria ser acessível a todos.
A poesia deveria ter seu cerne na verdade e ser verossímil (verossimilhança), ou seja, transmitir algo que parece possível e encontra-se próximo da realidade. Dessa forma, ela pode ser considerada bela, pois imita o mundo físico e moral, como propunha a mimesis aristotélica, que resultou na estética da imitação.


ARCADISMO EM PORTUGAL

Nas primeiras décadas do século XVIII, chegaram a Portugal as idéias iluministas, que entusiasmaram intelectuais, artistas e até mesmo o Rei D. João V e seu sucessor D. José I, que tinham o anseio em modernizar o país. Para os portugueses, o século XVIII iniciou-se com um processo de modernização, através dos planos: econômico, político, educacional e cultural.
A fundação da Arcádia Lusitana foi o marco inicial do movimento em Portugal, em 1756. No século XVIII, o termo Arcádia designava agremiações de poetas que se reuniam para fazer a poesia voltar ao equilíbrio das regras clássicas. O lema da Arcádia Lusitana era de cortar as coisas inúteis. A produção literária ampliou e foi bem variada, incentivada, principalmente, pelas academias literárias árcades, que eram agremiações (associações) que tinham por objetivo promover o debate permanente sobre a criação artística, avaliar criticamente a produção de seus filiados e facilitar a publicação de suas obras.
Alguns fatos importantes em Portugal da época foram auxiliadores das transformações decorrentes de um novo período, fatores como: a publicação da obra Verdadeiro Método de Estudar, de Luís Verney (1746), que propõe a reforma do ensino superior em Portugal, tendo por base as idéias iluministas, a mineração brasileira que permite o reequilíbrio das finanças portuguesas, a fundação da Academia de Ciências de Lisboa, em 1779, com a finalidade de atualizar a universidade com relação aos progressos científicos da época.
Esse desejo real deveria, ainda, satisfazer os interesses da burguesia mercantil e colonial, igualando Portugal novamente às grandes nações européias. Na condição de ministro, Marquês de Pombal, com amplos poderes e famoso pela postura de Déspota Esclarecido (Tirano Instruído) foi o melhor indicado a liderar essas idéias e foi enaltecido por muitos escritores. Sua atuação leva à integração de Portugal no contexto europeu da época.
Houve um terremoto em Portugal no dia 1 de novembro de 1755 e o Marquês de Pombal reconstruiu Lisboa com o ouro extraído das Minas Gerais. Outra grande obra de Pombal foi a laicinização e a reforma do ensino baseada na obra de Verney. Com os jesuítas expulsos de Portugal, o ensino passa a ser controlado por professores leigos e deixa de ser dado pela perspectiva religiosa.
Neste movimento, podem-se destacar os principais autores da época, sendo estes: Correia Garção, Padre Francisco Manoel do Nascimento, Luís Antonio Verney, Frei José de Santa Rita Durão e Manoel Maria Barbosa Du Bocage que foi considerado o maior e melhor poeta árcade da literatura portuguesa.
Com a morte de D. José I, o poder de Pombal chega ao fim, quem assume o trono é Dona Maria I que desfaz as medidas de Pombal e permitiu o retorno dos jesuítas que retomaram o controle do ensino. Começa então uma perseguição aos intelectuais, entre eles poetas, que fica conhecida como “Viradeira”. Um dos poetas presos foi Bocage (preso por ter composto um soneto em homenagem a Napoleão, símbolo do ideal revolucionário burguês da época).


BOCAGE

Um dos poetas mais significativos da Literatura Portuguesa, Manuel Maria Barbosa du Bocage, era filho de pais intelectuais e possuía um temperamento inquieto. Após a morte de sua mãe quando ele tinha 10 anos, fato que lhe reforçou a hipersensibilidade, passou a se inspirar na imagem de seu avô, um almirante francês.
Aos 18 anos alistou-se na Real Companhia de Guardas-Marinha e começou a freqüentar um bairro boêmio de Lisboa, Rossio. Lá conhece Gertrudes, que em suas poesias aparece como Gertrúria. Após ter viajado para Índia e Damão, a serviço da Marinha, resolve desertar e viaja para Macau. Em 1790, já reabilitado, regressa para Portugal e encontra Gertrude casada com seu irmão mais velho, o que lhe provoca enorme sofrimento.
Em troca de moradia, comida e bebida compõem versos de improviso e circunstância. É convidado a ingressar na Nova Arcádia sob pseudônimo de Elmano Saldino. Decide se afastar da Nova Arcádia após uma polêmica gerada por um de seus poemas, envolvendo o Padre José Agostinho de Macedo.
Em 1791, publica o primeiro volume de suas Rimas e passa a ser respeitado por sua poesia lírica e conhecido por sua poesia satírica.
Passa a ser perseguido e hostilizado em razão do erotismo e da sátira de seus versos somados ao seu pensamento político-liberal. Em 1797, é acusado de “papéis ímpios, sediciosos e críticos”, sendo encarcerado, por ordem de Pina Manique, no presídio do Limoeiro. É enviado ao Mosteiro de São Bento, condenado a receber boa doutrina e logo depois ao hospício das Necessidades.
Em 1799, após cumprir sua sentença, é libertado e, em uma decisão politicamente conveniente, abandona suas noitadas boêmias. Ele passa a traduzir obras de Ovídio, Racine, Voltaire e Rousseau para sustentar-se e também a irmã e a sobrinha.
Morre aos 40 anos, vítima de um aneurisma.


OBRA

Rimas (seis volumes, publicados entre 1791 e 1853, que abrangem vários gêneros poéticos: odes, fábulas, idílios, epigramas, cantatas e canções, endechas e cançonetas, traduções e, principalmente, sonetos).


CONSIDERAÇÕES Finais

A fama de Bocage advém, principalmente, de suas composições erótico-satíricas que contém uma linguagem obscena e agressiva.
De certo modo, suas poesias satíricas retomavam as cantigas de escárnio e maldizer do Trovadorismo, adaptadas para a linguagem do século XVIII.
Obteve maior destaque na poesia lírica dos sonetos. Primeiramente, obedecia aos padrões do Arcadismo (pastoras, prados, ovelhas, ribeiros, fontes), recorrência à mitologia e o uso de vocabulário erudito, com figuras de retórica.
O poeta, ao perceber que o Arcadismo não mais o satisfaz, passa a tratar de temas e situações mais sintonizados com um espírito mais evoluído.
Os temas mais constantes em sua poesia lírica são o amor, a morte, o destino, a natureza. Aproximando-se do Romantismo, estes temas passam a ser tratados de uma outra maneira, destacando-se pelas seguintes características:
- valorização do sentimento e da emoção, em detrimento da razão;
- o culto do eu, o egocentrismo;
- o desespero íntimo, que conduz à preferência por imagens macabras e situações tétricas: o “lócus horrendus” substitui o “lócus amoenus” dos primeiros poemas;
- o horror e o aniquilamento provocados pelo medo da morte;
- o impulso para solidão, que leva à escolha de lugares ermos e à preferência pela paisagem noturna.
Em muitos desses poemas pré-românticos, o poeta demonstra oscilação entre a contemplação filosófica e a submissão total ao amor ou a obsessão pela morte. Isso, acrescido a uma carga de individualismo, a certeza de um destino infeliz e a valorização da natureza, apresenta traços do Romantismo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABDALA JR, Benjamin; PASCHOALIN, Maria Aparecida. História social da literatura portuguesa. 4. Ed. São Paulo, Ática, 1994.

MOISÉS, Massaud. A literatura Portuguesa. 25. Ed. São Paulo, Cultrix, 1990.

_______. A literatura portuguesa através de textos. 12. Ed. São Paulo, Cultrix, 1981.

RODRIGUES, Antônio Medina. Literatura Portuguesa. 02. Ed. São Paulo, Ática, 1997.

BOSI, Alfredo. A história concisa da literatura brasileira. 43. Ed. São Paulo, Cultrix, 2006.

Sonetos: Bocage





Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n'alma fervendo
Como fervem no pego as crespas vagas.

Razão feroz, o coração me indagas,
De meus erros e sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas.

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objectos de horror co'a idéia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo.

Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue: eu peno, eu morro.


Estrutura interna:

Quatro momentos distintos:

- 1ª quadra, exposição (confissão) do estado em que se encontra o sujeito poético;
- 2ª quadra, o papel da Razão, que é o de amenizar ou solucionar os efeitos da paixão (uso do gerúndio);
• No 1º terceto, o comportamento do sujeito poético;
• No 2º terceto, o “eu”, mesmo com auxílio da razão, rende-se ao amor. A Razão não prevalece.

Elementos neoclássicos:

• A forma (soneto)
• A presença da Razão
• Elementos românticos:
• A luta entre o amor e a razão
• O tom confessional do poema
• A vitimização do «eu» (resultado da sua impotência na luta entre o amor e a Razão)
• A presença de vocabulário que nos remete para um lócus horrendus

Alguns recursos estilísticos:

- Metáfora (vv 3/4, 8/9, 13); comparação (vv 3/4); apóstrofe (vv 5, 12); adjetivação (duras, cavernosas, marinho, negras, crespas, feroz, agudas, venenosas, cego, surdo); sinestesia (vv 7, 9); personificação (da Razão (voz da consciência)); hipérbole (vv 10, 13/14); pergunta de retórica (v 12); paradoxo (vv 13/14); quiasma (v 11); gradação crescente (vv 11, 14).
- Notar certo tom teatral (interjeição exclamativa (v 7) e pergunta de retórica (v 12)).



Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores:

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração de seus favores:

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns cuja aparência
Indique festival contentamento,

Este poema é proposição às “Rimas“, livro do poeta, daí o seu tom de autocrítica e de modéstia com que se apresenta - que elas buscam piedades e não (buscam) louvores.
Onde “que” é igual a “porque”. Fortuna, Fingimento e Dependência estão em maiúscula porque o poeta as quis personificar.

Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti sòmente os diga
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar o meu coração de horrores.
Estrutura interna:
Dois momentos distintos:

• As duas quadras, em que o sujeito poético se dirige à «Noite amiga», «retrato da Morte»; neste primeiro momento, assistimos à caracterização da noite (retrato da Morte, amiga, testemunha, confidente) e ao pedido para que, uma vez mais, ouça os seus desabafos, os seus lamentos;
• Os dois tercetos, em que se dirige aos «mochos piadores», «cortesãos da escuridade» e «inimigos da claridade»; neste segundo momento, o poeta suplica aos mochos que, com a sua «medonha sociedade», o ajudem a fartar o seu coração de horrores;
• O estado de alma do poeta é o resultado da falta de afectos, a conseqüência da «cruel» que dorme (ao contrário dele que passa uma noite de insônia) e que o obriga a delirar (v 8);
Elementos neoclássicos:

• A forma (soneto)
• A presença da mitologia (Amor (Cupido, filho de Marte e de Vênus))
• O vocábulo escuridade
• Elementos românticos:
• O tom confessional do poema
• Certa linguagem teatral (tom declamatório com presença de algumas interjeições e de exclamações)
• O uso de vocabulário tétrico (Morte, escuridão, pranto, desgostos, cruel, escuridade, Fantasmas, piadores, medonha, horrores) que nos aproxima dum ambiente próprio dum lócus horrendus.
Alguns recursos estilísticos:

- Personificação da Noite e dos mochos (v 9); apóstrofe (v 1/4, 6/7, 9/12); elipse (v 3); anástrofe (vv 4/5, 8, 12); adjetivação (amiga, calada, antiga, pio, vagos, piadores, inimigos, medonha); reiteração (vv 7, 13/14 (através da anáfora)); anáfora (vv 7, 13/14); sinestesia (vv 3, 5, 7, 9, 11/12); metáfora (vv 1, 4, 6, 9, 10, 13); comparação (v 11);
- Notar a existência de dois versos sáficos (com acento rítmico nas 4ª, 8ª e 10ª sílabas métricas): 8 14.



Meu ser evaporei na luta insana
Do tropel de paixões que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana!

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos

Deus, ó Deus!... Quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

Este poema é o resultado de uma atitude introspectiva do sujeito poético, o que vai determinar a respectiva estrutura interna. Assim, podemos considerar dois momentos distintos:

- As duas quadras e o 1º terceto, estrofes em que o sujeito poético confessa ter gasto a sua vida «na lida insana do tropel de paixões», porque a sua «mente ufana» (orgulhosa) imaginava que a essência humana era imortal, ou quase, e porque, afinal, se deixou seduzir por inúmeros sóis que lhe não indicaram o caminho da luz;
- O último terceto, que corresponde ao momento do arrependimento: num ato de contrição, o sujeito poético dirige-se a Deus, desejando ser digno no momento da sua morte, já que considera que o não foi durante a vida;
- Notar o contraste entre o ritmo heróico (6ª e 10ª sílabas) dos dois primeiros versos, marcando palavras como evaporei insana, paixões e arrastava, relacionadas com comportamentos de prazer e paixão, e o ritmo sáfico (4ª, 8ª e 10ª sílabas) dos dois últimos, marcando palavras ligadas ao arrependimento como momento, perderam, anos, morrer, viver e (não) soube.

Elementos neoclássicos:

• A forma (soneto)
• A presença de vocabulário alatinado (insana, mísero, falaz)
• O recurso a perífrases
• Elementos românticos:
• O tom confessional do poema
• O tema do arrependimento
• A alusão à morte
• O tom declamatório
• A pontuação expressiva associada à função emotiva
Alguns recursos estilísticos:
-Metáfora (vv 1/3, 5/7, 9/12);
-Personificação (v 9); adjetivação (insana, cego, mísero, imortal, humana, inúmeros, ufana, falaz, escrava, sedenta); perífrase (v 12); anástrofe (vv 1, 4, 5/6, 8, 10/11, 12); apóstrofe (vv 9, 12);
-Notar a existência de quatro versos sáficos (com acento rítmico nas 4ª, 8ª e 10ª sílabas métricas): 7, 8, 13, 14 (os dois últimos já referidos atrás).



Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não Caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo que desmaia.
Oh! Venha... Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, oh Liberdade!

Estrutura interna:

Três momentos distintos:

• Em um primeiro momento (vv 1/6), sentindo que é chegada à hora da redenção, o sujeito poético, apostrofando a Liberdade, numa seqüência de perguntas de retórica, questiona-a sobre onde se encontra quem a impede e porque não raia já em Portugal;
• Em um segundo momento (vv 7/12), o poeta, numa linguagem quase patética, implora à Liberdade o seu auxílio, o seu socorro;
• Finalmente, no 2º terceto (vv 13/14), o sujeito poético faz uma espécie de profissão de fé em relação ao caráter divino da Liberdade, proclamando-a «Mãe do gênio e prazer».
• Elementos neoclássicos:
• Forma (soneto)
• Vocabulário (Lísia, grilhões, númen)
• Uso da perífrase «esfera de Lísia» por Portugal
• Elementos românticos:
• A aspiração pela Liberdade
• Uma certa linguagem teatral (tom declamatório com presença de algumas interjeições e de uma pontuação subjetiva com abundância de exclamações e perguntas de retórica, além das reticências)

Alguns recursos estilísticos:

- Personificação da Liberdade (ao longo do poema) e do Despotismo (vv 7/8); apóstrofe (v 1, 9); pergunta de retórica (vv 1/4); anástrofe (vv 2, 4, 5, 11, 13); adjetivação (triste, santa, tremulo, feroz, frio, mudo, pátrio); reiteração em relação ao porquê, à causa (v 3); perífrase (v 4 (esfera de Lísia por Portugal)); metáfora (vv 3, 4, 6, 8, 10).