sábado, 13 de agosto de 2011

Análise: Primo Basílio - Eça de Queiroz



1. A Evolução do Artista


Para melhor análise das obras de Eça de Queiróz podemos dividi-la em três partes, que acompanham a evolução temática-estilística do escritor.
Quanto à primeira fase, sua obra de mocidade, coligida sob o título de Prosas Bárbaras, apresenta influência romântica.
A segunda fase, em 1875, é destacada pela publicação de O Crime do Padre Amaro, abre-se nova fase do escritor, combativa, de ataques às instituições. Com outros dois romances – O Primo Basílio e Os Maias – compõem a tríade dos romances de orientação realista-naturalista. Configura-se aí o crítico impiedoso da sociedade portuguesa. Eça tem a intenção de realizar um vasto inquérito analítico da sociedade de seu tempo.
Em 1878, em O Primo Basílio, obra em que passa analisar a construção moral da família pequeno-burguesa urbana, tendo como motivo o adultério que, segundo o autor, é fruto da má-formação que a mulher recebe, moldada em dois pólos básicos: a ociosa e o romantismo de sua educação.
Estas obras, da segunda fase são: marcantes pela ironia do narrador e pelo tom crítico na abordagem a setores da sociedade portuguesa. No entanto, pela falta de contato do escritor com os extratos inferiores do povo, as personagens populares são escassas em suas obras (exceção de Juliana em O Primo Basílio) e somente aparecem de forma rápida, enquadradas no meio burguês, que conhecia melhor e de onde extrai suas melhores personagens.
Já a terceira fase é marcada por A Ilustre Casa de Ramires (1900) até A Cidade e as Serras (1901).


2. A Personagem Luísa


Com base na leitura de O Primo Basílio e em nossos conhecimentos sobre o realismo-naturalismo, comentaremos, a seguir, as críticas feitas por Machado de Assis à obra de Eça de Queiróz.
Iremos agora apontar as características de um doa personagens de O Primo Basílio, por nome Luísa; ela é uma jovem de cabelos loiros e muito asseada, encontrou no casamento uma forma de “segurança” e no adultério uma maneira de dar vazão a seus sonhos e idealizações. Vive no ócio e preenche seu tempo com leituras românticas que excitam sua fantasia. Frágil, não consegue lidar com a situação de chantagem em que se viu envolvida, acaba adoentada e morre prematuramente.
Para Machado de Assis a personagem Luísa não passa de “um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral (...) não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência (...). Luísa revela no lodo, sem vontade, sem repulsa, sem consciência”.
Realmente, Eça de Queiroz quis criar uma personagem assim, como Machado de Assis descreve. O que realmente não concordamos é que Machado se refere que: “E aqui chegamos ao defeito capital da concepção do Sr. Eça de Queiroz”.
Eça de Queiroz quis criar uma personagem sem atitudes, perdida, com personalidade fraca, para assim, criticar a sociedade burguesa, ao qual tinham uma vida ociosa e que se iludem ao lerem romances românticos, criando um mundo de fantasias, ao qual não existe. Como já citamos anteriormente, a obra de Eça de Queiróz é marcada pela ironia do narrador e pelo tom crítico na abordagem a setores da sociedade portuguesa. Essa tal ironia não foi vista por Machado de Assis, em sua crítica ao romance.
Assim, o romance tem como motivo o adultério que, segundo o autor, é fruto da má-formação que a mulher recebe, moldada em dois pólos básicos: a ociosa e o romantismo de sua educação.


Podemos dizer que sobre alicerces perfeitos estão construídos os personagens principais, destacando-se a protagonista Luísa, mulher que espelha a educação recebida, as ilusões acumuladas durante anos de juventude, a imaturidade diante do casamento, a vida ociosa pela falta de filhos ou de afazeres, enfim, uma personagem – ao contrário que relata Machado –que está entre as ilusões criadas pelas sua leituras e personalidade instável, imatura e, portanto, capaz de ficar à mercê de homens aproveitadores e de chantagens de criadas, como citaremos mais à seguir.


3. Os Conflitos entre Luísa e Juliana

Juliana, empregada de quarto de Luísa, odiava seus patrões, era rancorosa e invejosa, além de nutrir um despeito profundo por sua condição solteirona disponível. É exemplo de tese de que os fins justificam os meios, isto é, não hesita em fazer chantagens para livrar-se da pobreza.
Percebe-se que os patrões chegavam a dar mais importância para os bens materiais do que para o bem-estar de seus empregados, revelando-se assim bastante insensíveis. Não é à toa que Juliana se revoltou contra Luísa.
Juliana sabe que é um exemplo do que a injustiça social pode produzir. Ela aspira a valores burgueses –ser patroa -, mas não tem a chance de “melhorar de vida”, do ponto de vista burguês, apenas com seu trabalho, já que este lhe proporciona um rendimento muito aquém do necessário.
Juliana começa a se ver como uma escrava e se rebela contra tal condição. Sua revolta prossegue a seguir:

“(...) Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de vinho, quem mo dá? Tenho certeza de o comprar! A senhora já foi ao meu quarto? É uma enxovia! A percevejada é tanta que tenho de dormir quase vestida. (...) Uma criada! Uma criada é o animal. Trabalha se podes, senão nua, para o hospital. Mas chegou me a minha vez (...) Quem manda agora sou eu!
Para Machado de Assis, Julia é “o caráter mais complexo e verdadeiro do livro”. Em parte concordamos, mas por outro lado não, pois todos os personagens em O Primo Basílio são verdadeiros e de caráter complexo. Até Luísa, que parece uma “mosca morta” tem razão por ser assim, não sendo menos complexa e verdadeira do que Juliana.
Machado de Assis se opõe totalmente a personagem Luísa e diz que “um leitor perspicaz terá visto a incongruência do Sr. Eça de Queiróz, e a inanidade do caráter da heroína”.
Machado critica o episódio das cartas, onde Juliana procura-as até as encontrar e chantageia a Luísa, e relata que: “Como é que um espírito tão esclarecido, como o do autor, não viu que semelhante concepção era a coisa menos congruente e interessante do mundo?”.


Em nosso ver, essa foi a estratégia encontrada por Eça de Queiróz para dar um ar de mistério ao romance. Notamos, sim, quanto ao enredo, que fora construído em um clima de crescente tensão. Este está norteado por uma lógica invulgar, por uma capacidade de situar cenas e articular personagens de forma plena e concreta.
O mérito maior da obra está na elaboração dos tipos secundários, dentre os quais se destaca a criada Juliana, personagem de padrões naturalistas, desenvolvida para provar a tese de que os fins justificam os meios, como já fora dito antes.


4. Considerações Finais

Concluímos, assim, que O Primo Basílio faz um retrato da burguesia lisboeta do século XIX demonstrando como essa sociedade estava alicerçada em bases inconsistentes, visto que alimentava-se de uma ideologia de aparências. Estas, mantidas a qualquer preço, fazem com que surja uma sociedade de dupla moralidade, que se poderia resumir numa expressão bastante conhecida: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Eis um dos motivos para que o tema do adultério seja nuclear na obra.
A casa em que vivem Luísa e Jorge reproduz a ordem social da época. Trata-se de um espaço pelo qual os papéis sociais se distribuem: há sala – platéia para a representação social; há os quartos dos patrões – templo da privacidade burguesa; e há as “traseiras”, onde fica a plebe, isto é, a criadagem.
Percebe-se que os patrões chegavam a dar mais importância para os bens materiais do que para o bem-estar de seus empregados, revelando-se assim bastante insensíveis. Não é à toa que Juliana se revoltou contra Luísa.
Geralmente, o escritor realista busca ser objetivo e neutro na construção de seu enredo. É certo que a neutralidade total é utopia, mas no casa de O Primo Basílio a preocupação em alcançá-la é simplesmente abandonada: muitas vezes o narrador faz comentários subjetivos sobre suas personagens e suas atitudes, ou até mesmo funde sua voz à dos personagens, praticando o discurso indireto livre.
O mundo burguês é marcado pelo jogo das aparências, isto é, as pessoas não são valorizadas pelo que são, mas pelo que apresentam ser.
Percebemos que, numa sociedade assim, como no século XIX, os indivíduos mantêm falhas, pequenos pecados, desejos profundos, enfim, suas verdades em segredo. Mais: muitas vezes, os indivíduos compactuam com tudo isso, mesmo se sentindo incomodados, na esperança de obter alguma vantagem no futuro ou para manter de pé uma visão de mundo que crêem ser a mais correta.

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