quinta-feira, 23 de junho de 2016

Mário de Andrade: Reinventando o Brasil (1893/1945)




“– Ai! que preguiça! ... que o herói suspirava enfarado. E dando as costas pra ela adormecia bem. Mas Ci queria brincar inda mais ... Convidava convidava... O herói ferrado no sono. Então a mãe do mato pegava na txara e cotucava o companheiro. Macunaíma se acordava dando grandes gargalhadas estorcegando de cócegas
- Faz isso não, oferecida!
- Faço!
- Deixa a gente dormir, seu bem...
- Vamos brincar.
- Ai! que preguiça!...”


Macunaíma (p.19)


Mario Raul Morais de Andrade


Filiação : Carlos Augusto de Morais Andrade e Maria Luísa Leite Morais Andrade
Nascimento : 09/10/1893 – São Paulo. Morte - 25/02/1945 – São Paulo.
Mario Raul Morais de Andrade nasceu em São Paulo em 09 de outubro de 1893. Iniciou seus estudos de piano em 1911. Apreciador de música, formou-se no Conservatório Dramático e Musical, onde tornou-se professor de História da Música. No ano de 1917, publicou seu primeiro livro de poema Há uma gota de sangue em cada poema, no qual criticava o derramamento de sangue, causado pela Primeira Guerra Mundial. Foi um dos líderes do grupo de intelectuais participantes da Semana de Arte Moderna em São Paulo.
Em 1924, foi com um grupo de amigos para Minas Gerais. Em 1927, viajou pelo Norte e Nordeste do Brasil para colher histórias. As viagens pelo Brasil foram descritas pelo próprio Mário como viagens etnográficas. Portanto, além de um pesquisador e estudioso da cultura e folclore brasileiros, conhecia música, festas, modinhas do Brasil.
Em 1928, publicou Macunaíma. Exerceu várias funções de estudos da cultura brasileira, dentre elas, foi diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo.
Foi um dos escritores mais multifacetados da literatura brasileira. Ele mesmo ecoou: “Eu sou trezentos, sou trezentos e cincoenta” (Remate dos Males).


Principais obras de Mario de Andrade

Poesia:

Há uma gota de sangue em cada poema (1917)
Paulicéia desvairada (1922 )
Losango cáqui (1926 )
Clã do jabuti (1927)
Remate de Males ( 1930 )
Poesia (1941)
Lira Paulistana, seguida de O carro da miséria (1946)

Contos:

Primeiro andar (1926)
Belazarte (1934)
Contos Novos (1946)

Romance:

Amar, verbo intransitivo (1927)
Macunaíma (1928)

Ensaios:

A escrava que não é Isaura (1925)
Música do Brasil (1941)
O movimento modernista (1942)
O Baile das quatro Artes (1943)
O empalhador de passarinhos (1944)



Os dois Andrades

Mario de Andrade e Oswald de Andrade não eram parentes. Aproximaram-se em 1917. Os dois encontravam-se freqüentemente com os outros artistas modernistas. No Jornal do Commercio, em 1921, Oswald escreveu um artigo sobre Mario de Andrade, intitulado O Meu Poeta Futurista. Em 1922, finalmente, essa amizade definiu novas bases para a Literatura Brasileira. Diferentes na postura artística e estilo literário, foram as lideranças do Modernismo brasileiro.
Afastaram-se em 1929. Segundo Paulo Mendes de Almeida, crítico de Arte e amigo de ambos, “ foram eles o elemento de coesão de todo o grupo, ao qual transfundiam audácia, segurança e entusiasmo.”

Linha do tempo

1888 – Abolição da escravatura no Brasil
1889 – Proclamação da República no Brasil
1893 – Nasce Mário de Andrade
1893- Assentamento do grupo de Antonio Conselheiro em Belo Monte
1902 – Publicação de Os Sertões de Euclides da Cunha
1904 – Revolta da Vacina no Rio de Janeiro
1905 – Albert Einstein anuncia a teoria da relatividade
1906 – Santos Dumont realiza em Paris o primeiro vôo
1906 – Várias greves operárias eclodem no Brasil
1912 – Naufrágio do Titanic, o maior e mais luxuoso navio do mundo
1913 – Ano em que o Brasil recebe o maior número de imigrantes: 192.683
1914- Início da Primeira Guerra Mundial
1915 – Início do Modernismo em Portugal com a publicação da revista Orfheu
1917 – Exposição de Anita Malfatti
1917 – Greve geral no Rio de Janeiro e São Paulo
1917 – Revolução Russa
1917 – O Brasil entra na Primeira Guerra Mundial
1922 – Semana de Arte Moderna
1928 – Publicação de Macunaíma
1929 - Quebra da Bolsa de Nova Iorque
1930 – Uma junta militar depõe o presidente Washington Luís
1931 – Inauguração da estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro
1933- Hitler assume o governo da Alemanha como chefe do nazismo
1937 – O presidente Getúlio Vargas decreta O Estado Novo no Brasil
1939 - Início da Segunda Guerra Mundial
1942- O Brasil entra na Segunda Guerra Mundial
1945 – Morre Mario de Andrade
1945 – Término da Segunda Guerra Mundial
1945 – Aprovada a carta mundial que cria a Organização das Nações Unidas ( ONU )


Macunaíma – Quem é esse brasileiro?

Nos mitos e lendas Vom Roraima Zum Orinoco, coligidos na Amazônia pelo naturalista alemão, Koch – Grunberg, Mario de Andrade conheceu o deus Makunaima. Figura intrigante do folclore brasileiro, astuto, zombeteiro e alegre.
Ele criou vida própria em 1928 na rapsódia modernista do autor. Nasceu da mistura de três etnias : negro, índio e branco. Nasceu da mistura dos textos do folclore brasileiro. Nasceu dos mitos e lendas do Brasil. Vive na multiplicidade de se tornar vários seres, em todos os tempos, o tempo todo, em todos os lugares. Como mote no caminhar de suas aventuras, não havia a salvação de uma dama ou de um ideal, mas a busca de um amuleto: muiraquitã.
Como companheiros fiéis e inseparáveis, seus irmãos Maanape e Jiguê. Como amores, todas as mulheres, deusas, semi-deusas, simples mortais.
Transpôs obstáculos para reaver sua muiraquitã. Encontrou-a às margens do Tietê, na cidade de São Paulo. Lutou contra o vilão, Venceslau Pietro Pietra . Terminou seus dias sem a consagração que merece todo o herói, mas narrando suas glórias a um papagaio.

Rapsódia - designava na Grécia antiga, a recitação de fragmentos de poemas épicos, notadamente homéricos pelos rapsodos, poetas ou declamadores ambulantes, que saíam de cidade em cidade, propagando a Ilíada e a Odisséia. Surgidos provavelmente no século VII a C (...) Nos domínios literários o vocábulo rapsódia equivale para compilação, numa mesma obra, de temas ou assuntos heterogêneos e de várias origens. Macunaíma, de Mario de Andrade, constitui a rapsódia das principais lendas afro-indígenas que compõem o substrato folclórico nacional.


Massaud MOISÉS. Dicionário de termos literários.


Macunaima - E não Macunaíma, entidade divina para os macuxis, acavis, arecunas, taulipangues, indígenas caraíbas, a oeste de “ plateau” da serra Roraima e Alto Rio Branco, na Guiana Brasileira. (...) A tradução da Bíblia para o idioma caraíba divulgou Macunaima como sinônimo de deus. (...) Com o passar dos tempos e convergência de tradições orais entre as tribos, interdependência cultural, decorrentes de guerras, viagens, permutas de produtos, Macunaíma foi-se tornando herói, centro de um ciclo etiológico, zoológico, personagem essencial de aventuras e episódios reveladores de seu espírito inventivo, inesgotável de recursos mágicos (...) Tornou-se um mito de astúcia, maldade instintiva e natural, de alegria zombeteira e feliz. É o herói das estórias populares contadas nos acampamentos e aldeados indígenas, fazendo rir e pensar, um pouco despido dos atributos de deus olímpico, poderoso e sisudo. Theodor Koch- Grunberg (1872-1924) reuniu a melhor e maior coleção de aventuras de Mcuanaima nessa fase popularesca, no Vom Roroima Zum Orinoco ( Berlin, 1917 ). (...) Algumas dessas histórias foram traduzidas pelo doutor Clemente Brandenburger e publicadas na revista de Arte e Ciência nº 9, em março de 1925 no Rio de Janeiro Lendas índias da Guiana Brasileira. Denominou um romance de Mário de Andrade de Macunaíma.


O herói sem nenhum caráter. Rapsódia. São Paulo, 1928.
Luís da Câmara CASCUDO. Dicionário do Folclore Brasileiro.



Muiraquitã -Artefato de Jade, que se tem encontrado no Baixo Amazonas e principalmente nos arredores de Óbidos (...) a que se atribuem qualidades de amuleto. Segundo uma tradição ainda viva, o muiraquitã teria sido presente que as amazonas davam aos homens em lembrança de sua visita anual. Conta-se que para isso, nas noites de Lua cheia, elas extraíam a pedra ainda mole do fundo do lago em cuja margem viviam, dando-lhes a forma que entendiam, antes de ficarem duras com a exposição ao sol (...)



Luís da Câmara CASCUDO. Dicionário do Folclore Brasileiro.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O Primo Basílio - Eça de Queiroz




1. A Evolução do Artista


P
ara melhor análise das obras de Eça de Queiróz podemos dividi-la em três partes, que acompanham a evolução temática-estilística do escritor.
Quanto à primeira fase, sua obra de mocidade, coligida sob o título de Prosas Bárbaras, apresenta influência romântica.
A segunda fase, em 1875, é destacada pela publicação de O Crime do Padre Amaro, abre-se nova fase do escritor, combativa, de ataques às instituições. Com outros dois romances – O Primo Basílio e Os Maias – compõem a tríade dos romances de orientação realista-naturalista. Configura-se aí o crítico impiedoso da sociedade portuguesa. Eça tem a intenção de realizar um vasto inquérito analítico da sociedade de seu tempo.
Em 1878, em O Primo Basílio, obra em que passa analisar a construção moral da família pequeno-burguesa urbana, tendo como motivo o adultério que, segundo o autor, é fruto da má-formação que a mulher recebe, moldada em dois pólos básicos: a ociosa e o romantismo de sua educação.
Estas obras, da segunda fase são: marcantes pela ironia do narrador e pelo tom crítico na abordagem a setores da sociedade portuguesa. No entanto, pela falta de contato do escritor com os extratos inferiores do povo, as personagens populares são escassas em suas obras (exceção de Juliana em O Primo Basílio) e somente aparecem de forma rápida, enquadradas no meio burguês, que conhecia melhor e de onde extrai suas melhores personagens.
Já a terceira fase é marcada por A Ilustre Casa de Ramires (1900) até A Cidade e as Serras (1901).

2. A Personagem Luísa


C
om base na leitura de O Primo Basílio e em nossos conhecimentos sobre o realismo-naturalismo, comentaremos, a seguir, as críticas feitas por Machado de Assis à obra de Eça de Queiróz.
Iremos agora apontar as características de um doa personagens de O Primo Basílio, por nome Luísa; ela é uma jovem de cabelos loiros e muito asseada, encontrou no casamento uma forma de “segurança” e no adultério uma maneira de dar vazão a seus sonhos e idealizações. Vive no ócio e preenche seu tempo com leituras românticas que excitam sua fantasia. Frágil, não consegue lidar com a situação de chantagem em que se viu envolvida, acaba adoentada e morre prematuramente.
Para Machado de Assis a personagem Luísa não passa de “um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral (...) não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência (...). Luísa revela no lodo, sem vontade, sem repulsa, sem consciência”.
Realmente, Eça de Queiroz quis criar uma personagem assim, como Machado de Assis descreve. O que realmente não concordamos é que Machado se refere que: “E aqui chegamos ao defeito capital da concepção do Sr. Eça de Queiroz”.
Eça de Queiroz quis criar uma personagem sem atitudes, perdida, com personalidade fraca, para assim, criticar a sociedade burguesa, ao qual tinham uma vida ociosa e que se iludem ao lerem romances românticos, criando um mundo de fantasias, ao qual não existe. Como já citamos anteriormente, a obra de Eça de Queiróz é marcada pela ironia do narrador e pelo tom crítico na abordagem a setores da sociedade portuguesa. Essa tal ironia não foi vista por Machado de Assis, em sua crítica ao romance.
Assim, o romance tem como motivo o adultério que, segundo o autor, é fruto da má-formação que a mulher recebe, moldada em dois pólos básicos: a ociosa e o romantismo de sua educação.
Podemos dizer que sobre alicerces perfeitos estão construídos os personagens principais, destacando-se a protagonista Luísa, mulher que espelha a educação recebida, as ilusões acumuladas durante anos de juventude, a imaturidade diante do casamento, a vida ociosa pela falta de filhos ou de afazeres, enfim, uma personagem – ao contrário que relata Machado –que está entre as ilusões criadas pelas sua leituras e personalidade instável, imatura e, portanto, capaz de ficar à mercê de homens aproveitadores e de chantagens de criadas, como citaremos mais à seguir.

3. Os Conflitos entre Luísa e Juliana

J
uliana, empregada de quarto de Luísa, odiava seus patrões, era rancorosa e invejosa, além de nutrir um despeito profundo por sua condição solteirona disponível. É exemplo de tese de que os fins justificam os meios, isto é, não hesita em fazer chantagens para livrar-se da pobreza.
Percebe-se que os patrões chegavam a dar mais importância para os bens materiais do que para o bem-estar de seus empregados, revelando-se assim bastante insensíveis. Não é à toa que Juliana se revoltou contra Luísa.
Juliana sabe que é um exemplo do que a injustiça social pode produzir. Ela aspira a valores burgueses –ser patroa -, mas não tem a chance de “melhorar de vida”, do ponto de vista burguês, apenas com seu trabalho, já que este lhe proporciona um rendimento muito aquém do necessário.
Juliana começa a se ver como uma escrava e se rebela contra tal condição. Sua revolta prossegue a seguir:

“(...) Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de vinho, quem mo dá? Tenho certeza de o comprar! A senhora já foi ao meu quarto? É uma enxovia! A percevejada é tanta que tenho de dormir quase vestida. (...) Uma criada! Uma criada é o animal. Trabalha se podes, senão nua, para o hospital. Mas chegou me a minha vez (...) Quem manda agora sou eu!
Para Machado de Assis, Julia é “o caráter mais complexo e verdadeiro do livro”. Em parte concordamos, mas por outro lado não, pois todos os personagens em O Primo Basílio são verdadeiros e de caráter complexo. Até Luísa, que parece uma “mosca morta” tem razão por ser assim, não sendo menos complexa e verdadeira do que Juliana.
Machado de Assis se opõe totalmente a personagem Luísa e diz que “um leitor perspicaz terá visto a incongruência do Sr. Eça de Queiróz, e a inanidade do caráter da heroína”.
Machado critica o episódio das cartas, onde Juliana procura-as até as encontrar e chantageia a Luísa, e relata que: “Como é que um espírito tão esclarecido, como o do autor, não viu que semelhante concepção era a coisa menos congruente e interessante do mundo?”.


Em nosso ver, essa foi a estratégia encontrada por Eça de Queiróz para dar um ar de mistério ao romance. Notamos, sim, quanto ao enredo, que fora construído em um clima de crescente tensão. Este está norteado por uma lógica invulgar, por uma capacidade de situar cenas e articular personagens de forma plena e concreta.
O mérito maior da obra está na elaboração dos tipos secundários, dentre os quais se destaca a criada Juliana, personagem de padrões naturalistas, desenvolvida para provar a tese de que os fins justificam os meios, como já fora dito antes.

4. Considerações Finais

C
oncluímos, assim, que O Primo Basílio faz um retrato da burguesia lisboeta do século XIX demonstrando como essa sociedade estava alicerçada em bases inconsistentes, visto que alimentava-se de uma ideologia de aparências. Estas, mantidas a qualquer preço, fazem com que surja uma sociedade de dupla moralidade, que se poderia resumir numa expressão bastante conhecida: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Eis um dos motivos para que o tema do adultério seja nuclear na obra.
A casa em que vivem Luísa e Jorge reproduz a ordem social da época. Trata-se de um espaço pelo qual os papéis sociais se distribuem: há sala – platéia para a representação social; há os quartos dos patrões – templo da privacidade burguesa; e há as “traseiras”, onde fica a plebe, isto é, a criadagem.
Percebe-se que os patrões chegavam a dar mais importância para os bens materiais do que para o bem-estar de seus empregados, revelando-se assim bastante insensíveis. Não é à toa que Juliana se revoltou contra Luísa.
Geralmente, o escritor realista busca ser objetivo e neutro na construção de seu enredo. É certo que a neutralidade total é utopia, mas no casa de O Primo Basílio a preocupação em alcançá-la é simplesmente abandonada: muitas vezes o narrador faz comentários subjetivos sobre suas personagens e suas atitudes, ou até mesmo funde sua voz à dos personagens, praticando o discurso indireto livre.
O mundo burguês é marcado pelo jogo das aparências, isto é, as pessoas não são valorizadas pelo que são, mas pelo que apresentam ser.
Percebemos que, numa sociedade assim, como no século XIX, os indivíduos mantêm falhas, pequenos pecados, desejos profundos, enfim, suas verdades em segredo. Mais: muitas vezes, os indivíduos compactuam com tudo isso, mesmo se sentindo incomodados, na esperança de obter alguma vantagem no futuro ou para manter de pé uma visão de mundo que crêem ser a mais correta.