segunda-feira, 19 de maio de 2014

O Realismo





Antes de falarmos do realismo, voltemos um pouco ainda no romantismo. Como sabemos, o romantismo encontrava na cultura francesa condições favoráveis de enraizamento e propagação, mas suas breves conquistas não alçaram de todo vencer os remanescentes clássicos, nem mesmo os movimentos de idéias gerados mediante a Revolução Francesa.
O romantismo extremou-se no culto do sentimento e da Natureza: isso se dá por volta de 1820.
O Realismo surgiu em meados do século XIX, primeiramente com a pintura, na França. Foram em mãos de Vitor Hugo, Gautier, Musset, assim como na escrita também. Gustave Coubert, entre 1850 e 1851, expôs no salão o Enterro em Ornans, e, em 1853, As Banhistas, que causaram estranhamento e recusa, por serem telas escandalosas. Revoltado, abre sua própria exposição. Posteriormente, numa conferência em Arvers (1861), o pintor acrescentaria: “o núcleo do Realismo é a negação do ideal. O Enterro em Ornans foi o enterro do Romantismo”.
Em 1848, Henri Murger publicou em folhetins as Cenas da Vida Boêmia, onde focalizou os costumes da burguesia.
O Realismo veio com força, na França, em 1857 com os romances Madame Bovary, de Flaubert, e As Flores do Mal, de Baudelaine, com crítica à hipocrisia burguesa.
Dez anos depois, Zola introduzia o romance naturalista com Thérèse Raquin.
A revolução, fevereiro de 1848, na França, surgiu Karl Marx com O Manifesto Comunista, a uma longa obra de análise da Burguesia e do Capitalismo, de impacto ainda vivo. Renan escreve O Futuro da Ciência (inédito até 1890).
Surge Taine, onde se tornou “o verdadeiro filósofo do Realismo, seu teórico; foi ele que deu a fórmula do positivismo em matéria literária”.
Darwin (1859), com A Origem das Espécies, propondo a seleção natural como fator decisivo na evolução das espécies. A Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard, defendendo o método experimental em Fisiologia, que serviria de base às teorias de Zola. As idéias do alemão Schopenhauer, fundadas num pessimismo extremo: O Mundo como Vontade e Representação, 1818; Da Vontade na Natureza, 1836.
O Realismo vem acionado pelos ventos do positivismo, juntamente com a Revolução Industrial, mudando, completamente, o estilo de vida e de cultura. Ao invés do subjetivismo, propunham a objetividade, amparada na idéia positiva do real; em lugar da imaginação, a realidade contingente. Enquanto, no romantismo, o “eu” era o centro, os realistas já defendiam o não “eu”, a realidade física e o mundo concreto.
Assim com pedia o cientificismo da época, os racionalistas procuravam a verdade impessoal e universal, não a individual, como julgavam os românticos.
Buscam, enfim, comportar-se perante a Arte  como autênticos cientistas.
No plano político, defendiam idéias republicanas e, não raro, socialistas; repudiavam a Monarquia, o Clero e a Burguesia.
Assim, com Taine, o homem deixava-o ser o centro do Universo, como pedia o Romantismo, para se transformar numa engrenagem do mecanismo cósmico e natural.



Realismo no Brasil

O Realismo no brasileiro surge com as publicações: O Mulato, de Aluízio de Azevedo, e, Memórias Póstumas de Bras Cubas, de Machado de Assis, ambos em 1881. Em 1902, com o surgimento de Canaã, de Graça Aranha, e, Os Sertões, de Euclides da Cunha, pode-se considerar encerrada a época realista.
As influências do positivismo chegam ao Rio de Janeiro, onde Seguidores de Comte, reúnem-se. O positivismo, na sua forma ortodoxa ou não, estará presente, inspirando ou determinando posições, ora de indiferença perante a atividade política, ora de intervenção direta nos acontecimentos.
Em 1883, num clima repleto de presságios, estoura a “Questão Militar”, espécie de resposta à “Questão Religiosa”, que deflagrara na década anterior. Por fim, o Senado, compreendendo que a crise se tornaria insustentável, apela ao Imperador, e as restrições foram suspensas em maio de 1887, dando por encerrada a “Questão Militar”.
Enquanto isso, a abolição a escravatura ganha força. Em 1885, a Lei Saraiva-Cotegipe punha em liberdade os escravos sexagenários. A Lei Aúrea é assinada pela Princesa Isabel.
As idéias republicanas vinham ganhando forças em 1870, quando são lançadas as bases do Partido Republicano.
Em 15 de novembro de 1889 chaga ao fim a Monarquia de D. Pedro II. É, enfim, proclamada a República e assumindo o poder o Marechal Deodoro da Fonseca.
Começa, assim, em 1891 a imigração estrangeira de trabalhadores  europeus, principalmente de italianos. Graças a corrente imigratória, o café tem um surto de prosperidade, sobretudo em São Paulo.
Por outro, a Nação presenciava a corrida à Bolsa, a desenfreada especulação, a descontrolada emissão da moeda, a ganância pelo lucro fácil e fictício. Assim com Taunay fixaria em um de seus romances (1890 – 1892).
Surge a Revolução Federalista, em fevereiro de 1893, no Rio Grande do Sul, pelos partidários do governo federal, insatisfeitos com a ditadura de Júlio de Castilhos; e a Revolta da Armada, ocorrida em 6 de setembro do mesmo ano, em repúdio à intenção que o Marechal Floriano, sucessor de Deodoro, manifestara de permanecer no governo até o fim do mandato que vinha preecher.
A abolição foi declarada em 1888, ano ao qual Silvio Romero publicou: Histórias da Literatura Brasileira.
Em 1894, sucedendo ao Marechal Floriano, tornaria-se o 1° presidente civil Prudente de Morais. Seu governo foi marcado pela instabilidade política e pela Campanha de Canudos (1896), desencadeada contra os jagunços reunidos no arraial de Canudos, no sertão baiano, para realizar as promessas místicas de seu líder, Antônio Vicente Mendes Mariel, ou Antônio Conselheiro. Suspeitando que pretendessem atentar contra a República, o governo estadual e federal organizou várias expedições contra os seguidores de Conselheiro, até dizimá-los completamente a 5 de outubro de 1897. Euclides da Cunha, que presenciou a luta, relataria em seu livro: Os Sertões (1902), uma das obras fundamentais de nossa cultura.
Nas últimas décadas do século XIX, a produção literária alcança sua maturidade; “tal se compreende ao cenário histórico, político, sociais e econômicos. E, então, que enfim a Literatura Brasileira inicia sua caminhada para alcançar sua plena identidade, com um nível de literatura autônoma e madura.



domingo, 18 de maio de 2014

MANIFESTO ANTROPÓFAGO - OSWALD DE ANDRADE




Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.


Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju*

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha." (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

* "Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim", in O Selvagem, de Couto Magalhães

Oswald de Andrade alude ironicamente a um episódio da história do Brasil: o naufrágio do navio em que viajava um bispo português, seguido da morte do mesmo bispo, devorado por índios antropófagos.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Notícias de Jornal: Semana de Arte Moderna




1. Introdução

P
olêmicas divulgadas na imprensa no decorrer do ano de 1922, quando um pequeno grupo de artistas e escritores, liderados por Oswald de Andrade e Mário de Andrade, difamava as nossas glórias artísticas ditas de “praça pública”, em razão da imitação servil, ou, como era alardeado, da “cópia sem coragem e sem talento”. Contra “esses falsos mitos” e, sobretudo, na busca da emancipação cultural levantava-se o então chamado futurismo paulista, a quem a respeitabilidade de Graça Aranha dera “a mão forte”. Aos gritos de “Independência! Originalidade! Personalidade!” começou-se a mudar o panorama das nossas artes. Através de propostas controvertidas, o “caloroso tumulto de idéias” teve sua primeira face pública com a Semana de Arte Moderna, realizada de 13 a 18 de fevereiro de 1922.
Essa Semana tão comemorada não inaugurou o movimento, foi apenas a festa planejada para anunciar o engatinhar de uma nova mentalidade, e os resultados vibrado em silêncio com as ousadias de O Homem Amarelo e de A Boba, de Anita Malfatti, depois de um longo processo de aprendizagem sobre arte moderna e de arregimentação de novos companheiros. NA sua coluna no jornal do Commercio (1921), Oswald vislumbrava em São Paulo, a formação de um “núcleo de reação ao caruncho dos processos acadêmicos da literatura e arte”. Artistas e escritores também encontram na Semana uma maneira adequada de comemorar os cem anos da Independência política do Brasil, conforme também havia anunciado Oswald: “Um pugilo pequeno, mas forte, prepara-se para valer o nosso Centenário”.

Arte Moderna
(Terno Idílio[1])

A Gazeta concede-me benfeitora as suas páginas para que nelas diga sobre a Semana de Arte Moderna. Quero, antes de mais nada, exaltar a magnanimidade com que me acolhe a redação. Por um mal-entendido de crítica foram violentamente separados há dois anos, eu, plumitivo incipiente, e A Gazeta, senhora de nobre e popular carreira.


(...) Apenas me permito retificar uma pequena confusão de Cândido. O que vai realizar-se é bem uma Semana de Arte Moderna. (...) Desejamos apenas ser atuais. (...) Há exageros em nossa arte? É natural. Não se constrói um aranha-céu sobre um castelo moçárabe. Derruba-se primeiro a mole pesadíssima dos preconceitos, que já foram verdades, para elevar depois outras verdades, que serão preconceitos para um futuro, quiça muito próximo. (...) Depois do pranto de todo um século romântico, “coroado” nos espinhos duma guerra tremenda, queremos rir e livremente rir! Batam os sinos! É sábado de aleluia! Não me pesa ser o Judas desse sábado, contanto que me deixem sorrir aos leitores d’A Gazeta, no dia que refloresce para mim o terno idílio.

Mário de Andrade

A Gazeta, São Paulo, 3 de fevereiro de 1922, p.1 (coluna “Notas de Arte”).

O Futurismo

(...) Não foi, pois, sem um certo regozijo íntimo que vimos ontem a assinatura do Sr. Mário de Andrade na mesma coluna que colaboramos, discretamente sobre o reatamento de suas relações com A Gazeta e prometeu dizer os intuitos da próxima Semana de Arte Moderna.
(...) Ao tratarmos da questão futurista, não nos move felizmente nenhum preconceito de escola ou qualquer animosidade pessoal. Em matéria de arte, acima dos agrupamentos, das escolas ou das chamadas igrejinhas, colocamos a personalidade do artista e o cunho original que ele imprimir à sua obra.
Pondo, porém, de lado esse conceito a que não podemos dar hoje o desenvolvimento devido, aqui deixamos consignados novamente os nossos votos de boas-vindas ao Sr. Mário de Andrade.

Cândido

A Gazeta, São Paulo, 4 de fevereiro de 1922, p.1 (coluna “Notas de Arte Futurista”).





A Semana Futurista

A Semana de Arte Moderna, a realizar-se proximamente no Teatro Municipal, vem agitando de tal forma o nosso meio artístico e intelectual que se conservar alheio a esse movimento seria dar provas de um parti pris que não se coaduna absolutamente com o grau de progresso e que atingiu a imprensa moderna.
A Gazeta, que tem acompanhado com interesse todas as questões que se levantam em nossos centros artísticos e intelectuais, inicia hoje a publicação da colaboração do Sr. Mário de Andrade em defesa da arte moderna, ao mesmo tempo insere a continuação da série de considerações que Cândido vem fazendo acerca do futurismo.
Dito isto, inútil se torna acrescentar as nossas colunas continuam abertas a quantos quiserem discutir o assunto em debate.

A Gazeta, São Paulo, 3 de fevereiro de 1922, p.1.

O Vagabundo Borra-Telas[2]

(...) Fica por aí, copiando oleografias, sem cultura, sem estudos, sem orientação. É quando uma Malfatti, depois de honrar o nome brasileiro nos mais adiantados ateliês do Velho Mundo e do Novo Mundo, apresenta o fruto glorioso de seus estudos, de sua severa aplicação, de sua rigorosa pesquisa estética, é ele o vagabundo borra-telas, o mais irritado, o mais nervoso e o mais maldizente que aparece.
Os outros, os indiferentes, os negocistas, as senhoras que sabem se vestir, as meninas que estudam álgebra, esses ouvem fazer naquilo ao jantar e apóiam. Formada a corrente, explode a bombarda no primeiro atrevimento jornalístico. E fica decidido que a cidade e o país continuarão a pensar com atraso, a sentir com atraso, a ver com atraso.
O benefício feito agora pela cultura de Graça Aranha e Paulo Prado, os verdadeiros organizadores de arte moderna que se prepara no Municipal, era urgente.
(...) Já não se dirá, depois do veredicto de Graça Aranha, que a de Mario de Andrade, a pintura de Di Cavalcanti, a escultura de Brecheret e a música de Villa-Lobos são casos de excepcionabilidade mórbida ou reclamista. E a Semana de Arte Moderna virá mostrar como esses espíritos de vangarda são apenas os guias de um movimento tão sério que é capaz de educar e curá-lo do analfabetismo letrado em que lentamente vai para trás.

Oswald de Andrade

Jornal do Commercio, São Paulo, 9 de fevereiro de 1922, PP. 5 e 6 (coluna “Semana de Arte Moderna”).

2. Semana em Notícia

Semana de Arte Moderna

A Semana de Arte Moderna continua a despertar entusiasmo e curiosidade em nossas rodas artísticas e sociais. A primeira récita, que se realizará amanhã, no Municipal, será o início de uma série de espetáculos que, pelo seu cunho artístico, promete ficar memorável em nosso meio.

Correio Paulistano, São Paulo, 12 de fevereiro de 1922, p. 6.






[1] Idílio: sm 1. Pequeno poema pastoril. 2. Amor poético e suave.
[2] Título atribuído ao texto publicado na coluna “Semana de Arte Moderna”.