sexta-feira, 16 de abril de 2010

Castro Alves e Manuel Bandeira

Após leitura e análise da vida e obra destes dois escritores, e surpreendentes poetas brasileiros, percebemos a vida em comum de ambos. Tanto Castro Alves, como Manuel Bandeira sofriam do mesmo mal – a tuberculose.
Assim, também, Ambos escreveram sobre uma certa mulher por nome Teresa. Semelhanças? Ambos os poemas registram três momentos entre o poeta e sua Teresa; ambos apresentam Teresa em diferentes situações de sua vida.
A partir daí começam os pontos divergentes que ainda mais aproximam os dois poemas. Enquanto a linguagem de Castro Alves é trabalhada, a de Manuel Bandeira é intencionalmente simples; enquanto Castro Alves registra a perda amorosa, Manuel Bandeira apresenta o encontro. Veja-se que trilham caminhos opostos. Castro Alves, romântico, constrói uma ambiência de sonho a envolver a figura feminina; Manuel Bandeira, modernista, emprega uma linguagem despojada e nada acrescenta alem da figura da mulher que se revela a seus olhos.
Na diferença, a semelhança. Não uma diferença qualquer, mas uma diferença pontuada, intencional: o relato de um encontro, não o de um desencontro.
Em ambos os poemas, a exploração do tempo, apresentado em ordem cronológica, para marcar o processo gradual dos momentos narrados.
Assim, Conforme Alfredo Bosi (1994, p.120), Antônio Frederico de Castro Alves (Bahia, 1847-1871), poeta do Romantismo brasileiro, começa a se fazer conhecido em 1865, época da decadência do Brasil puramente rural e do crescimento da cultura urbana associada a ideais democráticos. Segundo o teórico, devido a essas transformações, mudam também os modelos poéticos. Apesar do intimismo de Lamartine e de Musset continuarem como fonte de inspiração, é a sátira inovadora de Vitor Hugo que determina a nova tendência. Para Bosi (1994, p.120), o que torna Castro Alves um “poeta novo” é sua posição libertária e também a clareza com que expressa seu fascínio pela mulher amada. O poeta, afirma Bosi (1994, p.120), proporciona uma lírica erótica mais forte, limpa e menos culposa. Em “O ‘Adeus’ de Teresa”, Castro Alves, exterioriza, de forma bastante clara, fortes sentimentos amorosos:



O ‘Adeus’ de Teresa
Antônio de Castro Alves

1 A vez primeira que eu fitei Teresa,
2 Como as plantas que arrasta a correnteza,
3 A valsa nos levou nos giros seus...
4 E amamos juntos... E depois na sala
5 “Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala...
6 E ela, corando, murmurou-me: ‘adeus’.
7 Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
8 E da alcova saía um cavaleiro
9 Inda beijando uma mulher sem véus...
10 Era eu... Era a pálida Teresa!
11 ‘Adeus’ lhe disse conservando-a presa...
12 E ela entre beijos murmurou-me: ‘adeus!’
13 Passaram-se tempos... sec’los de delírio
14 Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
15 ... Mas um dia volvi aos lares meus.
16 Partindo eu disse _ ‘Voltarei!... descansa!...’
17 Ela, chorando mais que uma criança,
18 Ela em soluços murmurou-me: ‘adeus!’
19 Quando voltei... era o palácio em festa!...
20 E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
21 Preenchiam de amor o azul dos céus.
22 Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
23 Foi a última vez que eu vi Teresa!...
24 E ela arquejando murmurou-me: ‘adeus!’





De acordo com a tradição romântica, Castro Alves preocupa-se com a questão formal de seu poema. Faz uso de versos decassílabos com rimas externas e consoantes, do tipo emparelhadas, sendo que os versos 3, 6, 9, 12, 15, 18, 21 e 24 apresentam rimas alternadas entre si.
O poema de Castro Alves relata o processo de conhecimento e descoberta amorosa entre o eu-lírico e Teresa até chegar ao rompimento dessa relação. Cada uma das quatro estrofes, em seu primeiro verso, apresenta uma marca de tempo referente ao romance entre o casal:




A vez primeira que eu fitei Teresa (V.1)
Uma noite... entreabriu-se um reposteiro... (V.7)
Passaram tempos... sec’los de delírio (V.13)
Quando voltei... era o palácio em festa!... (V.19)







A primeira estrofe do poema, ao referir-se ao primeiro encontro, evidencia um forte envolvimento amoroso, arrebatador como a correnteza e envolvente como os giros da valsa. Como as plantas que arrasta a correnteza, A valsa nos levou nos giros seus... (versos 2, 3)
No segundo momento em que o sujeito-lírico e Teresa se encontram no poema de Castro Alves, o amor entre o casal concretiza-se através do ato sexual, como é possível de se observar nos seguintes versos (o grifo foi para destacar):

‘Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!’ (versos 7-10)

O terceiro momento de encontro dos amantes é quase eternizado pelo eu-lírico, sugerindo que nesse período os encontros foram muitos e de grande intensidade:

Passaram-se tempos... sec’los de delírio (V.13)
Prazeres divinais... gozos do’ Empíreo... (V.14)

No poema de Castro Alves há ainda um quarto momento. Nesse, ocorre ruptura da relação amorosa − de acordo com o olhar do eu poético, Teresa está enamorada de outro homem: “Foi a última vez que eu vi Teresa!...” (V. 23)
As quatro maneiras distintas de Teresa portar-se durante as despedidas – “corando” (V.6), “entre beijos” (V.12), “em soluços” (V.18) e “arquejando” (V.24) – revelam a trajetória da relação. Há um processo de evolução: “corando” (V.6) para “entre beijos” (V.12); seguido de declínio: “em soluços” (V.18) para “arquejando” (V.24). Portanto, de um amor repentino para a realização amorosa e desta para o distanciamento e desilusão. Situação própria do estilo de época a que Castro Alves é contemporâneo – o Romantismo. Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 1886 – Rio, 1968), em seu poema moderno intitulado “Teresa”, estabelece relações de intertextualidade com o poema “O ‘Adeus’ de Teresa” de Castro Alves ao também relatar o processo de conhecimento e descoberta amorosa entre o eu poético e Teresa:




Teresa
Manuel Bandeira

1 A primeira vez que vi Teresa
2 Achei que ela tinha pernas estúpidas
3 Achei também que a cara parecia uma perna
4 Quando vi Teresa de novo
5 Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
6 (Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
7 Da terceira vez não vi mais nada
8 Os céus se misturaram com a terra
9 E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.







Com o poema “Teresa”, Bandeira apresenta uma nova visão do romance cantado por Castro Alves; faz uso de lirismo irônico e transformador. Em Estrutura da Lírica Moderna,
Hugo Friedrich (1978, p.17) enfatiza que “transformar” é o comportamento que domina a poesia moderna no que diz respeito tanto ao mundo como à língua. Segundo Friedrich (1994, p.18-19), os poetas, ao se libertarem do estilo convencional − que satisfaz o hábito do leitor −, adquirem mais intensidade em seu fazer poético e, quanto maior for a “libertação do poeta”, maior será a incompreensibilidade de sua poesia. O que para o teórico é uma primeira característica da vontade estilística.
Alfredo Bosi (1994, p.438) destaca que, no movimento modernista brasileiro, a poesia foi o gênero literário que sofreu alterações mais radicais. De acordo com o teórico, Manuel Bandeira, junto com Mário de Andrade e Oswald de Andrade deram à poesia um novo vigor com o rompimento dos padrões tradicionais e o uso de formas livres.
Em “Teresa”, há liberdade na forma e linguagem − características modernas. No poema em estudo, a pontuação ocorre apenas no último verso da produção poética, a linguagem empregada é coloquial e a temática amorosa é “recheada” com termos prosaicos.
Condições que geram um impacto no leitor convencional, pois o lirismo usado por Castro Alves é desconstruído por Bandeira, alterando a imagem de Teresa já há muito tempo construída.
Bandeira compõe seu poema “Teresa” com nove versos livres, distribuídos em três tercetos. O esquema rítmico é variado, os versos 1, 7 e 8 são eneassílabos. O verso 8 pode também ser aceito como decassílabo heróico, conforme mostram os exemplos a seguir:
V.1: 9 (3-5-7-9-)
V4: 8 (3-5-8-)
V.7: 9 (3-5-7-9)
V.8: 9 (6-9) ou 10 (6-10)
O poema não apresenta rimas consoantes, apenas toantes e internas:
Versos 1, 2, 3: VI, Tinha, pareCIa;
Versos 4, 5, 6: Novo, CORpo;
Versos 7, 8, 9: NAda, mistuRAram, Águas.
As marcas de tempo também estão presentes no poema de Bandeira. São três os encontros do casal relatados pelo eu-lírico e em cada um dos encontros o tempo transcorrido provoca alterações nas impressões que o eu-poético nutre em relação à Teresa. Igualmente são três os versos que compõem cada uma das três estrofes, sendo que o primeiro verso de cada estrofe é responsável pelas indicativas de tempo.

A primeira vez que vi Teresa (V.1)
Quando vi Teresa de novo (V.4)
Da terceira vez não vi mais nada (V.7)

O primeiro encontro entre o eu-lírico e Teresa é bastante frio, banal, chegando a ser irônico, pois ele a vê fragmentada (pernas, cara). Considera suas pernas e sua cara estúpidas, para isso o sujeito poético lança mão de figuras de linguagem distintas:
V.2: Achei que ela tinha pernas estúpidas _ metáfora
V.3: Achei que a cara parecia uma perna _ comparação
A comparação estabelecida entre a cara e a perna reforça a metáfora anterior, pois se a perna é estúpida, a cara segue a mesma classificação, o que denota certo grau de infantilidade de Teresa perante o olhar do eu poético. Aparentemente, Teresa não desperta no sujeito-lírico sentimento amoroso ou mesmo atração carnal enquanto mulher.
Na segunda estrofe do poema de Manuel Bandeira, o eu poético amadurece a imagem infantil e ingênua que teve no primeiro encontro ao sentir os olhos de Teresa mais velhos que o corpo. Destaca-se, então, a idéia de tempo transcorrido, capaz de realizar mutações tanto no campo físico como no campo sentimental. Para expressar essas idéias, novamente o poeta faz uso de figuras de linguagem: Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo (V.2). Olhos muito mais velhos que o resto do corpo – comparação.
Comparando os olhos com o corpo, percebe-se que os olhos representam sensualidade, maturidade, o que o corpo de Teresa ainda não desperta no poeta. Olhos velhos – metáfora
Mas a imagem ingênua que Teresa desperta no eu-lírico devido ao seu corpo é substituída por uma impressão de Teresa mulher em função da percepção que o eu poético tem do seu olhar. Nessa situação, o eu-lírico mantém impressões contraditórias a respeito de Teresa. Ao mesmo tempo em que a vê mulher através de seus olhos, não a percebe sensual ao
bservar seu corpo. Olhos versus corpo – metonímia – e olhos versus corpo – antítese.
Através da antítese, torna-se latente a idéia de tensão, ruptura, inquietude e desencontro do eu-poético. Ele perturba-se ao perceber que alimenta sentimentos contraditórios e desarmônicos perante seu objeto de desejo. Então, abre parênteses e dá uma explicação da situação antitética que ora vivencia – verso 6: “(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)”.
Entretanto, ao finalizar seu poema, Bandeira lança mão de grande lirismo e realça momento de profundo sentimento amoroso. O lirismo intenso dá-se através da linguagem e da alusão que o poeta faz à religião, ausente nos momentos anteriores. A fusão do espiritual com o material rompe com o estilo moderno de desapego sentimental até ali apresentado. Esse momento forte efetiva-se com as expressões “céu” e “terra” (V. 8); “o espírito de Deus” e “a face das águas” (V.9).

Os céus se misturaram com a terra (V.8)
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas. (V.9)

A drástica mudança no olhar do sujeito lírico desencadeada no terceiro encontro do casal, possivelmente gere um novo desconforto no leitor já envolvido pelo enfoque autoirônico até aquele momento empregado pelo poeta. Mas, conforme Bosi (1994, p.361), o fato de Bandeira adotar uma poesia de libertação das regras e temas anteriormente empregados, não significa que o poeta esteja totalmente desapegado de romantismo.



Uma breve Conclusão...

Assim, após realizar esse estudo comparado entre poemas de épocas diferentes, salienta-se a evolução do estilo romântico até chegar à modernidade. A ironia presente no poema de Bandeira demonstra o desapego à ideia de doação total ao amor, mas não a negação desse sentimento. Em “Teresa”, Manuel Bandeira trabalha o prosaico e o cotidiano entrelaçado com o sublime e o poético. Paralelismo que pode ser percebido na primeira e segunda estrofe (prosaico, cotidiano) com a terceira estrofe (sublime, poético), é o moderno reescrevendo o romântico.
Por conseguinte, podemos dizer que Manuel Bandeira, em brincadeira poética com os versos de "O Adeus de Teresa", poema de Castro Alves. A intenção era fazer uma "tradução para o moderno", 1925.




Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968) foi um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.
Considera-se que Bandeira faça parte da geração de 22 da literatura moderna brasileira, sendo seu poema Os Sapos o abre-alas da Semana de Arte Moderna de 1922. Juntamente com escritores como João Cabral de Melo Neto, Paulo Freire, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, Carlos Pena Filho e José Condé, representa a produção literária do estado de Pernambuco.
Uma certa melancolia, associada a um sentimento de angústia, permeia sua obra, em que procura uma forma de sentir a alegria de viver. Doente dos pulmões, Bandeira sofria de tuberculose e sabia dos riscos que corria diariamente, e a perspectiva de deixar de existir a qualquer momento é uma constante na sua obra.
Com Libertinagem, talvez o mais celebrado dos livros de Bandeira, adotam-se formas modernistas, abandona-se a metrificação tradicional e acolhe-se o verso livre. Em grosso, é um livro menos personalista. Se os grandes temas nostálgicos cedem ao avanço modernista, não é somente porque os sufocam o desfile fulminante de imagens quotidianas e os esquetes celebratórios do modernismo, mas também porque é um princípio motor de sua obra o reencenar a luta dos dois momentos sentimentais da alegria e da tristeza. O cotidiano “brasileiro” aparece ali, realçando o júbilo evocatório, com o pitoresco popular que se assimila, por exemplo em Evocação do Recife, ao tom triste e nostálgico. Tanto em Libertinagem como no restante de sua obra, a adoção da linguagem coloquial nem sempre será coroada de êxito. Em certos meios-tons perde-se a distinção entre o coloquial estilizado e o coloquial natural. Libertinagem dará o tom de toda a poesia subsequente de Manuel Bandeira.



Evocação do Recife


Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!


A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão


(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.


Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
— Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras


Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
— Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.



Podemos então dizer, após leitura e análise do poema Evocação do Recife, que percebemos o emprego da subjetividade, o memorialismo, a infância, o folclore e a cultura popular caracterizam esse famoso poema de Manuel Bandeira.
O eu lírico revive cenas do passado, como se fosse menino outra vez. Ao lado das brincadeiras de infância, surgem pessoas com as quais conviveu: parentes, vizinhos, amigos. Até os nomes das ruas eram líricos: Rua da União, do Sol, da Aurora.
Vemos, aqui neste trecho, uma evidência da exaltação do falar popular: "(...) língua errada do povo/ Língua certa do povo". O ataque ao artificialismo linguístico, no tom da primeira geração modernista, está em: "Ao passo que nós/ O que fazemos/ É macaquear/ A sintaxe lusíada.
A morte, tema fundamental em Bandeira surge nas últimas estrofes, reforçando que a cidade de Recife de seu passado fora-se como seu avô, restou-lhe apenas a memória.
Quanto ao estilo, podemos dizer que a poesia de Manuel Bandeira caracterizou-se pela variedade criadora, desde o soneto parnasiano, pela prática do verso livre, até por experiências com a poesia concretista. Por outro lado, conservou e adaptou ao espírito moderno os ritmos e formas mais regulares, como os versos em redondilhas maiores.
Em sua poesia, observa-se uma constante nota de ternura e paixão pela vida. Seu lirismo intimista registra o cotidiano com simplicidade, atribuindo-lhe um sentido de evento e espetáculo. Nela, também, estão presentes: a infância, a terra natal, a cultura popular, a doença, a preocupação com a morte, a defesa da linguagem modernista, a sensualidade, o lirismo tradicional, o antilirismo, a reflexão existencial, a infância e o humor.

Características encontradas no poema:

 A infância, as pessoas ligadas a ela e sua cidade natal, que servem de refúgio ao “eu-lírico” (poeta descontente e infeliz); esses elementos aparecem como lenitivo de sua dor no presente.
 Imagens brasileiras, que evocam lugares, tipos populares e a própria linguagem coloquial do Brasil, transformando o cotidiano em matéria poética.
 Anseio de liberdade vital, onde o “eu-lírico” (poeta melancólico, solitário e irônico) extravasa seus ideais libertários quer de sentimentos e desejos vitais, quer estéticos.

Assim, como temos no título, Evocar significa chamar de algum lugar, fazer aparecer chamando de certo modo. O “eu-lírico” evoca no presente a Recife de sua infância, através das lembranças, das brincadeiras e canções infantis, dos hábitos de seu povo, de seus tipos humanos com suas falas, das suas ruas e rios. Essa evocação tem um tom melancólico e triste dado pelos últimos versos, em que se percebe que essa Recife de sua infância, que ele pensava que fosse eterna, está tão morta quanto o seu avô e só é revivida na sua memória, daí seu poema ser uma evocação.
Podemos dizer que a linguagem é simples, coloquial, pois, segundo o texto, o povo fala gostoso o português do Brasil, que é o empregado no poema.
Não há preocupação com rima ou métrica, apenas com a disposição gráfica dos versos e a expressão de um lirismo profundo, de modo a impregnar o presente de sua Recife tão brasileira e inesquecível.
Em suma, Há em alguns textos a preocupação com a disposição gráfica, como em Evocação do Recife. Tal preocupação não é revelada em relação à rima, porém sua maior expressão está na força da palavra. Esta é coloquial, cotidiana, mas empregada com brilhantismo, não desprezando seu aspecto sonoro, o que acaba por fornecer ao poema um ritmo pessoal e harmonioso que, somado à emoção, assemelha-se a uma canção.
Em um ensaio de Mario de Andrade, sobre o poeta, diz: “[...] a rítmica dele acabou se parecendo com o físico de Manuel Bandeira. Raro uma doçura franca de movimento. Ritmo todo de ângulos, incisivo, em versos espetados, entradas bruscas, sentimento em lascas, gestos quebrados, nenhuma ondulação”.